Há caleidoscópios no interior de certas bibliotecas
que se conservam na abóbada regular das resignações
de simétricas esperanças de persistentes palavras
com emaranhadas aranhas nos filamentos da hesitação
a aterrar na luminosa folha da intenção imprecisa
a visitar as estátuas
a amargar a rima
na convalescença da pedra
por entre condutas de gás lacrimogéneo
bibliotecas inteiras voltadas para a tarde
num assobiar de dentes de tédio
onde num amarrotar de poetas
apenas um reflectido dilúvio de noites certas
íris onde semiluas de aparição vagas atravessassem
os livros as mãos carregadas
as clavículas das letras apagadas
as letras taciturnas as letras coalhadas
na platónica cidade com o suprimir do grito definitivo
com a mudez dos mimos a penetrar os corredores
das cativas palavras decisivas
pelo olhar triste da estátua que passa
pelo estreito sorriso de uma ideia marioneta
jaz o Poeta
jaz o Poeta Último
na república incompleta
jaz o Poeta
***
constanza muirin
*
Pela morada-norte com seus peixes de linhas de letras inscritos no sopro das paredes
As navegações pela porção de sobras pelos frascos de vidro pelos olhos
Onde se acolhem o verde adocicado do ópio as chuvas de agosto
À procura da voz salgada de declamar os veios das conchas os fundamentos das cascas
Com as mãos ainda protegidas na mesa a resgatar da madeira o estro dos trilhos
À espera do olhar descido do olhar complacente que se obriga ao pretérito
De quem tem agendada a morte para o dia imediato e é tão humilde ao amor
Os dedos brincam com as espadas sobre o corpo:
São dolorosas as invasões do espelho que não permaneceu
Os peixes que se formam do pó da reminiscência não cumprem coisa nenhuma
Conto-os e eles continuam a multiplicar-se se fecho os olhos
Não cumprimos o real nem eu nem esta morada nem a memória
Ela que ainda raspa as unhas na madeira submerge nos cadernos
Circula
A prata das canetas o negrume dos isqueiros ela que não se concilia com o lume
Que estranha o peso dos livros e proíbe a chuva com sua decisão de escuro
À procura de uma voz salgada que emirja das quimeras como uma bússola
***
constanza muirin
*
19 de abril 2013
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