(CANTO FRATERNO PARA CARLOS NOVO)
I
Como aranhas que se abraçam
as minhas pestanas encontram-se na noite
e mesmo ao fechar os olhos
vejo a tua bola de couro
lançada ao infinito da nossa eira de cima
circulando entre os trevos e o arame da roupa
e os teus olhos de menino a calcular a parábola exacta
descrita pela bola entre as margaridas e o ar.
Acaricias tal qual um clavecino
mas tu não o sabes.
Como a porta do Inferno de Rodin
fecho o ferro forjado da vista
e mesmo ao encontrar-me cara a cara com a retina
vejo a tua bicicleta humilde
que circulava à velocidade de um astro
sem freios nem pneumáticos e algum raio partido
mas tu partias o espaço pelo tempo
e a fórmula consentia com ternura
levar-te lá onde tu quisesses.
A tua bondade é artesanal
como o pão da casa
ou a música de um órgão rústico
mas tu não o sabes.
Deixa as vacas comerem os medos infantis
deixa-as remoer entre ferrã e carolos o frio
que passaste enquanto velavas para que comessem o pasto
e engordassem com flores
foram-se com os cornos abertos ao horizonte
levando com elas aquele que foi o nosso mundo.
Dormiam as cifras a sua soma nos teus cadernos de contas
cansados de trabalhar
com as tuas mãos pequeninas
as crostas dos teu joelhos feridos
brilham como a casca de um sol infantil
e a tua inteligência tornava-se maior entre cerejas maduras
e calças curtas
tocavas com um dedinho um número que treme como uma borboleta
e sabias que o seu coração podia dividir-se em três partes.
Olhavas talvez os cântaros do leite
e revelava-se a eterna forma do cilindro
ninguém sabia que três catorze dezasseis era um número pi
e tu
brincavas com ele no meio dos grilos.
Regressavas da tua mente brilhante
tão humilde como quem ficou em branco
no meio da neve
mas tu não o sabes.
Aprendi a contar com favas que me davas
a saber que um peão branco perdia a vida facilmente
perante uma rainha negra
que a combinatória é uma arte sagrada
que se a dez grãos-de-bico lhe tiro três
estou subtraindo e o resultado é sete.
Regressavas da tua delicadeza
como quem regressa de semear milho e não sabe
que faz um milagre
porque tu não o sabes.
II
Ah partilhar contigo o mesmo sistema linfático
o código que nos frisou o cabelo e decidiu
curvar-nos a coluna como uma cobra
Ah ir correr pelos campos uterinos
carregar –me às costas regressando do rio
dar-me a mão quando choro e a transfusão da paz.
Irmão meu igual o teu coração aos meus gametas
Irmão meu igual a partitura do nosso concerto
para cromossoma e cordas.
Irmão meu igual
meu irmão.
III
Teorema:
Tu és o velho
eu a criança.
Despejas o dia com uma equação
saio ao sol para ver-te
integra como a maçã que desperta segura da sua semente
Eu sou a criança
tu és o velho.
IV
Cúmplice amigo contemplo contigo
o arco da velha das nossas vidas
a álgebra da liberdade
as raízes profundas do polinómio do humor
o amor contido em partes idênticas no ácido nucleico.
Chove suavemente
o corço cruza-se contigo na chã
e reconhece em ti o meu próprio açúcar
o meu próprio nitrogénio
o meu próprio fosfato
o corço cruza-se comigo e parte com uma parte de ti
para o fundo do bosque
onde ainda somos capazes de dormir em posição fetal
entre campânulas e a bosta sagrada do bezerrinho.
E a mesma cicatriz do apêndice adorna a nossa pele
como um relâmpago perfeito de sete pontos de sutura
sobre o céu.
E se acaso não te disse que te quero
escrevo este concerto para cromossoma e cordas
para que se um dia perder a memória e não lembrares
que éramos um sendo dois
maravilha da matemática
enigma da metafísica
evidência da vida.
***
olga novo
*
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19 de abril 2013
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