O teu olhar é o mais
escala absoluta
Fechas as pálpebras
estranha ausência
ou saudades, esse vislumbre, esse
Atravessado três vezes por um denso
o teu olhar é o mais
brilhante
giratória grandeza abrupta
Perto ou longe já se incendeiam
partituras sós, o concerto exige
ao receber-te sempre, ó
Preparo
É hoje o teu regresso
noite urdida na radiante
Atravessando o céu
devolvendo a minha chuva.
***
marilia miranda lopes
*
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
***
al berto
*
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar!
Quando voltar, é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! Ata as tuas mãos às minhas e dá um nó cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! Passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça, é tudo tão verdade!
***
almada negreiros
*
Não sei como tudo começou: suponho
que havia uma figura que depois
se estilhaçou para formar um puzzle.
Mas se juntarem todas as peças
talvez não haja nenhuma figura, e então
de que origem intacta partiu tudo
o que depois se quebrou? É impossível
fazer estilhaços de estilhaços sem uma
coerência primeira, agora ausente.
Quando todas as peças se juntam
estaremos reduzidos ainda a uma peça
de uma figura maior, ou essa figura
é uma utopia pragmática, instrumental,
que permite algum sentido ?
Ó significados, para vós, na infância,
tinha um caderno.
***
pedro mexia
*
in "Duplo Império"
Encosto-me à parede, sem veias, como o temor.
escorro-o, o deserto das pálpebras.
num tremor que não tem nome
nem denominação, nem sede,
o vapor crava a carne até que o crepúsculo se evapore
num grito pelo vácuo.
no deserto, coberto de nuvens,
a escuridão percorre o infinito
e as nuvens circulam com os seus tentáculos
os olhos humedecidos pelo lago.
na penumbra escuta-se o precipício
e o sangue liquidado anestesia-se numa transpiração
pelos alvéolos da terra.
a água alimenta a transfusão
***
carlos vinagre
*
abcesso: abismo. vozes em tempo de insubstância azul. a orquídea sobe pela madrugada como um hino de varizes. o horário adoece. salém deflagra o horizonte cármico de seus vestidos. estou entre elas, como deves supor. as mulheres sabem o nome umas das outras, misteriosamente: mesmo as que nunca se viram na vida. estou entre elas. presto-me ao papel de acústica das fomes do martelo. pernas. bruxas enforcadas. minhas varizes grossas como cordas.
***
marceli andresa becker
*
visita portas giratórias entre os encontros com a paisagem morta e oblíqua. as portas atraem os átrios, precipitam as aminas, giram e retiram a fuligem tísica dos pulmões e das quinas. portas em cromo-pintado são cárceres de mármores, em ecos de homos distantes de suas famílias, em folclore de coisas vivas, além dos muros tracionados de suas restingas. e seus ouvidos-portas são zunidos de ironia, por onde a morte em fornalha segue venosa, por entre os sepulcros onde dorme, quando porta por hora, congelada, em um canto remoto da calha, taciturna de beijos e alianças que se fez outro dia... dorme entre as costas de presenças renascidas.
mas o amor nos recria em portas e mesmo entre ruínas mostra os seus olhos verdes...
Aprendi
desde pequena
a separar o carinho da lã
chegado o momento
aprendi
que podia brincar e vê-lo saltar e pastar
e dar-lhe mesmo um biberão feito
com uma velha garrafa de cerveja
mas chegado o momento
sabia
que devia
não saber
não perguntar por que não raiava já
aquele círculo do prado
e só havia ali a sombra do ar na erva…
Mamei a lição
da lei predadora.
Agora o teu sangue canta nos meus ossos.
Aprendi
a não esperar nem pedir mais
que o dia que se dava
e aceitar depois
um sentimento carnívoro
Aprendi a comer-te
e agora o teu sangue canta nos meus ossos.
Aprendi a não chorar sequer
a desaparecer discretamente entre as bonecas
no instante em que sabia
que tinha de fazê-lo.
Aprendi a ver o sangue no avental da mãe
a ver lavar a faca na torneira da cozinha
o cheiro da morte das mãos
do meu progenitor
aprendi a deixar que essas mãos me acariciassem
a saber que também tremem quando te enganam
e te chamam com voz doce
para o pátio
onde ainda ronca
o tractor do nada.
Aprendi a saber que também aprenderam
a não perguntar
a não ouvir os berros da ovelha sozinha como uma máter triste
no fundo do cortelho.
A compreender que o cão lambesse
o pouco que restava de ti no chão
as vísceras
que ainda conservam a memória das cócegas
que te faziam os meus dedos no teu pequeno ventre cordeirinho.
Mas agora o teu sangue canta nos meus ossos
a noite expurga-me
ovídeos que nunca vi
parecem-se com os meus glóbulos
vermelhos
do teu sangue
Pois a mim
ensinaram-me a ser
aprendendo a comer-te.
***
olga novo
*
[vertido do galego por BlogNi]
Esmeralda é uma joia de pessoa
Rosa é uma flor de pessoa
Estrela é um brilho de pessoa
que só brilha noite sim dia não
mesmo a Rosa só é flor
durante uma estação
e a joia da Esmeralda
(tão bela e preciosa)
é tão penoso arrancá-la
que mais vale deixá-la sonhada
no bater do coração
***
pedro ludgero
*
(Este poema, como todos os que são etiquetados como "Poemas para a Joaninha", faz parte de um livro infantil em construção cujo título será "Pôr no mar coisas da terra")
um trompete dança-me agora a medo
sopros abertos por dentro
erguem-me os braços e bailam para longe
é exacta a saudade entre os meus braços
e as pernas calçadas de margens sem mim
sei das paisagens mas entre as minhas pernas e o horizonte
sempre houve danças que não entendo
prefiro a superfície da música
sem direcção, um gesto em vez de um passo,
o movimento das pernas não pode escrever-te num quarto escuro,
só mãos a abrir um corpo
sem pernas o amor é de braços longos capazes de calar a linguagem das árvores
quando já só existe um vento fino ao piano,
os braços não caem
e um movimento de alegria tem que ondular pelo corpo acima
seguro, quando rodas
os teus braços levantam um pólen tão ordenado como o das abelhas
que recolho nos meus
e se os vires desvanecer em direcção pouco certa
nesse instante diz-me adeus, como se só as pernas me tivessem partido,
tem cuidado meu amor com a inveja que as palavras têm dos braços
um gesto ouve-se menos que um passo
e o nosso abraço roda sem atrito
vês, como se ergue ligeiramente
e vai dispersando a terra que lhe cai em cima
os teus braços não são teus
são duas rezas minhas
***
joana espain
*
19 de abril 2013
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