o dia corre de poente para nascente, a chuva
é um lençol tenso sobre os velhos que separam
as lembranças, com palavras que não chegam
a dizer: esquecem os subterfúgios do tempo
e avançam cambaleantes pelas grandes fissuras
entregues ao despovoamento alucinante
no interior dos carros, os crimes
são ligeiras confidências
***
rui nunes
*
Somos froito da cegueira,
semente que procura na noite
raizames para o ollo que latexa
na braña oculta do poema.
Somos sombra que ignora
o camiño que percorre o corpo desafiuzado.
Somos froito da cegueira,
estirpe dos días perdidos,
da nostalxia desandada.
Árbore que medra na memoria do que fomos.
***
baldo ramos
*
Tomaré la amapola roja
que brota
de los labios del hombre
y la cortaré por la mitad
mordiendo cada pétalo que
cae
en el centro habrá una mujer
suave
deslizándose
como una lengua
dentro de mi boca
***
luz ciccone
buenos aires - argentina
*
Apanharei a borboleta vermelha
que brota
dos lábios do homem
e cortá-la-ei pela metade
mordendo cada pétala que
cai
no centro haverá uma mulher
suave
deslizando
como uma língua
dentro da minha boca
[trad: alberto augusto miranda]
tem lanternas no lugar dos brincos
de princesa
caminha como se pisasse sobre
a malva-real-dos-poetas
sempre a deixamos
em códigos apressados de boticários
nos moleskines
como se, com ritual de fiandeira,
pudéssemos escondê-la
do massacre das horas
a idéia luminosa, o aneurisma metafísico
que se entope de cartas
financeiras
anulando-se em cifras de malmequer
sagrado é o seu coração de cromo, com suas ligas metálicas.
(um elemento de transição, duro, frágil, de coloração cinza semelhante ao aço. muito resistente à corrosão.)
***
andreia carvalho gavita
*
Quand j’habitais Florence avec tous mes parents,
Ma mère, ma grand-mère et l’arrière grand-mère
Aux longs cheveux d’argent,
J’aimais tant les iris de nos jardins toscans
Et le parfum de leur terre légère…
Ah! le Printemps, depuis, n’est plus un vrai printemps!
Il n’y a plus la couleur des vitraux, vos couleurs,
Saint-Marie-des-Fleurs,
Et celles de l’Arno
Sous les ponts recourbés où passait Béatrice.
Le soleil qui baignait les salles des Offices
N’a plus cet or subtil de matins déjà chauds
Le long des murs anciens et des champs de repos.
Les rossignols, depuis, ont tous une voix triste
Et l’aube qui persiste
À l’ombre des cyprès, je ne la connais plus.
Nos jardins d’autrefois, nous les avons perdu
***
sabine sicaud
villeneuve sur lot, france (1913-1928)
*
Quando morava em Florença
Quando morava em Florença com todos os meus parentes
A minha mãe, a minha avó e a minha bisavó
Com os seus longos cabelos prateados,
Gostava tanto dos íris dos nossos jardins toscanos
E do perfume da sua terra leve…
Ah! desde então a Primavera já não é a mesma!
Já não tem a cor dos vitrais, as nossas cores,
Sainte-Marie-des-Fleurs,
E as do Arno
Onde Beatriz passava sob as arcadas das pontes…
O Sol que banhava a sala dos Museus
Já não tem esse ouro subtil de manhãs já quentes
Ao longo dos muros antigos e dos cemitérios.
Desde aí, os rouxinóis têm todos uma voz triste
E a alva que persiste
À sombra dos ciprestes, já não a conheço.
Perdemos os nossos jardins de outrora…
***
[trad: maria da luz miranda]
Mãos
O frio trabalhou nas tuas mãos como um operário inverno após inverno. Acarretou toneladas de graus abaixo de zero à tua sombra. Lavrou a artrose dos teus dedos como um artesão maldito. Meteu-se tão dentro de ti que mal distinguimos a geada de ti. Sopra entre as rosas que os teus dedos plantaram no subsolo do mundo. As tuas mãos de estopa que arrancam ervas daninhas as tuas mãos potentes que acarinham minerais antigos como se fossem o cão da casa, que extraem seixos debaixo do sonho, as tuas mãos que cortam em pedaços castanheiros de madrugada e trazem bezerros ao mundo desde o ano mil. Não se sabe se foram as tuas mãos ou as cicatrizes. Não se sabe se começaste a crescer pelas mãos e depois continuaram os órgãos a completar-te a vida. O teu coração cava com as mãos agarradas à terra. O teu cérebro ama os cereais com tuas mãos de menino pobre. As tuas mãos cheias de calos enxertam macieiras com a minha pele papá. Brilham-me na noite como o cobre. Sabem ir ao monte conduzindo o dia com uma aguilhada. As tuas mãos infantis que quase choravam ao tocar num naco de toucinho rançoso. Aquelas mãos que desconhecem a ortografia passam humildes pela lã duma ovelha sem arrabunhar o dia. Os meus olhos analfabetos observam atónitos as linhas das tuas mãos como carreiros sagrados. As tuas mãos afumadas são de madeira e papas. Põe-se-me o espírito como um bilhó pequeno quando estendes as tuas mãos como um mapa antiquíssimo que desorganiza a geografia humana. As tuas mãos que existem como o logaritmo decifrado pelo teu filho. As tuas mãos que não figuram na História de Heródoto. As tuas mãos instrumentais como um engaço de vento. As tuas mãos bárbaras como um povo limítrofe. As tuas mãos que não rezam mas crêem nas estrelas e no poder de uma nuvem carregada de água. Estão-me florescendo as tuas mãos. Estão nos meus estames. O sol é um heliotrópio que obedece felizmente às tuas mãos. A terra sabe meter-se-te entre as unhas para passar a noite ao quente. Está a minha mente em pleno degelo. A terra das tuas unhas é a única herança que desejo. As tuas mãos papá as tuas mãos anciãs de ouro e de farinha. As tuas mãos nas minhas.
Segredo
Sou dúctil e podem ferir-me com facilidade. Este é o meu segredo mais mal guardado.
Corvo à terra
Quando não te tenho ao lado tremo como uma espiga. Mas faço-me forte e a minha fertilidade canta aos teus tubérculos. Na noite troncal Faz-te de noite, pai. Estás cada vez mais perto de ti: a gravidade pousa como um pássaro no teu ombro. Descendo da tua genética que ordena: Corvo à terra.
Barro
Mantenho os pés num barro arcaico. Eu própria sigo o meu rasto… O vulcão vulnerável o Fragmento lítico Estou-me encadeando com uma flor Estou entrando no pensamento mágico Estou saindo de mim Cantam os meus ossos a canção do anti Édipo Está o barro minando-me Estou chorando plutónio Peço ao demónio que me leve à feliz idade. Pai. Durmo no meu quarto Crescente Atravesso entre troncos este transe
No quietismo total bastam-me os olhos para ver-te Está o canto do colesterol entupindo-me as artérias Estou lavando sozinha os meus glóbulos brancos ai
E aquele teu povo sem terra é agora a minha terra sem povo
Pai.
***
olga novo
*
[vertido do galego por BlogNi]
Não te deites com a volúpia presa aos dentes,
se pretendes despertar os lobos.
Madrugada,
o uivo sonda teus ossos.
O uivo sonda teus ossos.
Alquimia não consiste em acalentar o orgulho.
Os lobos sabem farejar as sombras,
violetas e asteroides não envolvem seus mundos.
Sutileza,
presa acidentada dos cálculos,
a cidade tem uma cegueira acelerada,
os lobos avançam,
teu quarto tem extremidades impossíveis.
Teu quarto tem extremidades impossíveis.
A volúpia brota de ossos cegos,
onde a vida, com seus lábios violetas, não penetra.
Tu, cadáver de ti mesma,
volúpia acidentada,
não penetres a alquimia com asteroides cegos.
Os lobos te envolvem, no lado mais sutil do orgulho.
Madrugada tem acordes turvos.
Deitas-te à cama,
o edifício encravado na cidade não supõe teus lobos extremos.
Com volúpia, não calcules a cegueira
sem supor teus uivos.
Brotam nas sombras,
brotam nas ruas,
em espaços turvos,
no sorriso das cifras.
Avançam a madrugada em que te deitas,
cadavérica.
Farejam e, ao farejar, te despertam,
tão inesperada quanto um asteroide.
***
felipe stefani
*
um narrador sofre e considera-se anti-ético por sofrer. os dilemas se propagam na penumbra que o cerca, desde que se descobriu apaixonado por uma das personagens (justo aquela que termina abraçada ao herói!) está mudo. como iniciar a história e mortificar seu coração? esse que ele segura entre as mãos enquanto anda de um lado para o outro, olhando para o chão como se a solução pudesse, a qualquer momento, aparecer escrita num pedaço de papel saído das frestas do palco! silêncio
os passos cessam, as cortinas se movem, surge um joker translúcido, aquele, aquilo vai de encontro ao aflito, pára acanhadamente e com a voz estridente, que torna estranha a língua semelhante, começa o discurso: - caro narrador, dê-me alguns minutos do seu precioso tempo agônico, venho de um lugar cujo solo as solas dos seus sapatos desconhecem, não puxe pela memória as lembranças, não existem, deste lugar, registros. venho do incalculável para dizer que tenho nesta caixa de pensamentos o fim das suas dores
(ao pronunciar essas palavras o joker, com o braço direito, envolve os ombros do narrador e o conduz pelo palco os riscos de sangue que vazam do coração entre as mãos do conduzido)
imaginemos um bosque no qual só eu e você, ninguém mais. conversemos, pois, como antigos amigos separados pelo tempo e unidos pelo mesmo, agora, confidentes sem julgamento, sinta, meu amigo, a liberdade que diz para esquecermos, nossos nomes mergulharemos no rio Letes, as águas cristalinas do alívio.
***
camila vardarac
*
Se um dia amor fores a Nasaryia
procura a sombra de uma palmeira
e na frescura da palma
deixa que o recolhimento seja contigo
um simples sonho de alegria
Se um dia amor fores a Nasaryia
procura um fio de água cristalina
e deixa que o correr do tempo
seja uma suave brisa de incenso
Se um dia amor fores a Nasaryia
leva-me contigo no pensamento
e na sombra da palmeira
se escorrer um fio de sangue
deixa-o perdurar no tempo
como uma ruga para sempre
***
fernando martinho guimarães
*
19 de abril 2013
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