Domingo, 19 de Fevereiro de 2012
um frio inquieto toma conta

 

um frio inquieto toma conta

das pálpebras quando para lá do mar

                                        o olhar se perde

Pouca coisa o pensar do longe

remedeia ou consola

quando das ilhas do sul

não se acha nunca horizonte

para prumo dopensamento

Uma espessura de sal retorna e petrifica

e algo se quebra na cegueira de tanto olhar.

É o mar e tudo o que nele cabe

que nos perde e nos salva

 

***

 

fernando martinho guimarães

 

alijó, 1960

 

*


lido em: dezaoito

publicado por carlossilva às 02:02
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Sábado, 18 de Fevereiro de 2012
areia de same

 

Extenuado nada

tem a dizer

ao que os seus olhos

 

alimentam. Uma criança

acende apaga

candeeiros, o muro

 

é só areia

de same.

 

***

 

jose carlos soares

 

*

 

 


lido em: http://incomunidade.home.sapo.pt/incomunidade_02.htm

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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2012
poemas de leite: II - leite maduro

 

 

de cando me fixen vaca

e os montes flexíbeis daban neve quente para fornecer o

                                                                                teu degoro

de cando zumegaba eu a luz dos montes en feixes

poderosos

e aquilo era un banquete de canaán místico

e cotián

de cando a prolactina me volvía ave

e eu tiña os ollos mansos     mansos

profundamente domesticados de ti

 

amantes

               e imantados

dous peregrinos sen nome na rota do leite

perdidos á teima no tramado das veas

na singradura do incesto

 

                             pois que esto é o que se ve

cando alguén olla o noso cadro de madona

e neno

 

***

 

maite dono

 

*

 


lido em: http://incomunidade.home.sapo.pt/incomunidade_01.htm

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Quinta-feira, 16 de Fevereiro de 2012
víspera del canto

 

Mínimo grillo, mira: Éste es mi tema.

Defendido y mordido por la herrumbre

lo descubrí en mí sangre, en esa lumbre

donde el silencio empieza a ser poema.

 

Toco en su enjuta brevedad de esquema

el hueso de mi antigua pesadumbre.

Parece su azulísima quejumbre

la de un mar encerrado en una gema.

 

¡Ay, si al abrirlo, en vez de la sirena

asoma un pez vulgar de sangre muda,

y el tema vuelve a ser silencio entero!

 

¡Ay, si lo desfiguro con arena!

Quiero ese verso de ola, el que desnuda.

Cántalo, hermano mío, tú primero.

 

***

 

amelia biagioni

 

*

 

 

Véspera do canto

traducción al portugués: alberto augusto miranda

 

Mínimo grilo, nota: Este é o meu tema.

Defendido e mordido pela ferrugem

Descobri-o no meu sangue, nesse lúmen

onde o silêncio começa a ser poema.

 

Na sua enxuta concisão de esquema

toco o osso do velho pesadelo.

Sua azulíssima dor em novelo

é a de um mar fechado numa gema.

 

Ai, e se ao abri-lo em vez da sereia

de sangue mudo sai um peixe pobre

e o tema volta a ser silêncio inteiro!

 

Ai, e se o desfiguro com areia!

Quero esse verso de onda  que descobre

Canta-o tu, meu irmão, tu primeiro.

 

 *


lido em: http://incomunidade.home.sapo.pt/incomunidade_01.htm

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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2012
los emigrantes


del libro «Hay Milagros Peores Que La Muerte»


Los emigrantes a veces
abandonan sus desgracias en los trenes,
recorren la sangre absoluta
de una mujer degollada en sus confines.
Retoman los caminos de los libros
y el devenir de Fausto a la locura.
Se bañan en la lluvia de los parias,
en el andamiaje de la muerte
sus mentiras.
Salen a la luna los domingos
persiguiendo su regreso en los amigos.
Recorren las leyendas de la guerra
con una voz distinta
y sus casas son pájaros de sangre
para un insomnio desolado.
Los emigrantes, diminutos malheridos,
conocen del tiempo su afanosa venganza
mientras adquieren lejanías más ingratas.
Dibujan ventanas a sus ruidos,
escriben su historia
en las banquillas
y cocinan terquedades para nombres
que no vuelven y los hijos muertos.
Después desmienten
pero nunca olvidan
y quieren volver
y no vuelven.

 

***

 

alejandra castro

 

*

 

 

 

OS EMIGRANTES
do livro «Há Milagres Piores Que A Morte»

traducción al portugués: alberto augusto miranda


Os emigrantes às vezes

abandonam as suas desgraças nos comboios,

percorrem o sangue absoluto

de uma mulher degolada nos seus confins.

Retomam os caminhos dos livros

e o engolimento de Fausto pela loucura.

Banham-se na chuva dos párias

nos andaimes da morte

as suas mentiras.

Saem para a lua aos domingos

perseguindo o seu regresso nos amigos.

Percorrem as lendas da guerra

com uma voz diferente

e as suas casas são pássaros de sangue

para uma desolada insónia.

Os emigrantes, pequenos feridos graves,

conhecem do tempo a afanosa vingança

enquanto adquirem lonjuras mais ingratas.

Desenham janelas nos seus ruídos,

escrevem a sua história

nos mochos

e cozinham obstinações para nomes

que não voltam e para os filhos mortos.

Depois desmentem

mas nunca esquecem

e querem voltar

e não voltam.

 

*


lido em: http://incomunidade.home.sapo.pt/Poesia/Alejandra%20Castro%2

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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012
e se a morte não basta?

 

Gastamo-nos na erva

nas espadas

nas paredes rombas de salas olvidadas

e somos sempre

um selo

um carimbo espelhado

de marcos concebidos

nas esquinas

 

de uma lágrima

um inclinar de ombros

 

tão só

o azul

os dentes marcados em água nascente

 

e em quadriláteros

nos morremos

sofrido e lento parto

encarcerado

de inícios

sonhos transversos para um poema

 

são os dias relidos

em folhas soltas

de um livro aspergido

salpicos de sangue

azedo de tempo

os coágulos a estancar as feridas

das veias cortadas

num assassínio brando

 

sorrimos

o olhar para trás

o corte das rosas maduras

 

e as vísceras minguadas

neste espaço tão fundo

em louca vertigem

à passagem das luas

ao quente pulsar

do trânsito veemente das bocas

 

se

o arame farpado

ou lâmpadas roxas

se

a língua seca

de trinados metálicos

se

o canto abafado

em espartilhos de vidro

 

apontamos o dedo

a unha encurvada em garra

presa fácil

o ar que respiramos

a mudez atacada de cegueira

 

ai

as pedras

gastam-se na erva

nas espadas

nas paredes rombas de salas olvidadas

 

olhamos para o lado

uma criança chora

esquecida da dureza do vento

quando a terra é seca

e os cardos invadem as dunas

 

leva no olhar o sal

nas mãos um barco de papel

asas longas

à espera de um sopro

de um bafo quente

de boca interior

 

não bastam as pegadas na areia

pés de planta augada

 

erguemos o rosto

beijamos a espuma dos dias

perguntamos

 

e se a morte não basta?

 

***

 

almerinda alves

 

melgaço, 1965

 

*


lido em: http://incomunidade.home.sapo.pt/incomunidade_01.htm

publicado por carlossilva às 02:31
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Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012
ela e eu

 

Ela e eu

somos unha muller que fica irresoluta

a carón do negro pano, nun entreacto

Onde burkas psicolóxicos

penduran bolboretas mortas

Apegadas nas lámpadas

dos afumados teitos dun antonte

Parece improbábel que atope unha saída

                   seica vivo, ou non vivo

mais, permanezo paralizada

coma os paxaros fusionados nos paus da luz

naqueles postes, que circundan as estradas vellas

Arredor do meu embigo coido que

gabean todos los contos e crean labirintos

                             valados imposíbeis

 

***

 

cruz martinez

 

*


lido em: http://noollardunbufoverde.blogspot.com

publicado por carlossilva às 01:41
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012
a mulher sus.pensa


lembro-me de uma noite, ao sair da garagem,
o teu carro ter já deixado a rua, e da rua ser, à
luz moída dos postes públicos, uma largura infinita
de paralelos, e dos meus pés estarem paralisados, e
da paragem cardíaca do teu nome na minha boca, na
viagem mais longa que fiz à solidão.
hoje, recebi a tua carta, estava no tapete da entrada,
húmida, ligeiramente suja com cinza de cigarro, e pensei
nas tuas mãos, no gesto de enrolar tabaco, na tua língua,
no gesto de o lamber, e no quanto terás fumado cada
palavra. assim que entrei, sentei-me a ler, só depois
desfiz a mala. devo dizer-te que é muito triste
uma mulher sentada a ler com a roupa por lavar,
sobretudo antes de tomar banho, e que, por isso,
liguei a máquina naquele programa que dura
exactamente o tempo de um duche, estendi
a roupa, e ainda não sequei o cabelo.

 

***

 

alice macedo campos

 

*

 





lido em: http://alicemacedocampos.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 01:12
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Sábado, 11 de Fevereiro de 2012
gato num apartamento vazio

 

Morrer não é coisa que se faça a um gato.

Que há-de um gato fazer

num apartamento vazio?

Subir às paredes?

Roçar-se nos móveis?

Aparentemente não mudou nada

e no entanto está tudo mudado.

Continua tudo no seu lugar

e no entanto está tudo fora do sítio.

E à noite a lâmpada já não está acesa.

 

Ouvem-se passos nas escadas,

mas não são os mesmos.

A mão que põe o peixe no prato

também já não é a que o punha.

 

Há aqui qualquer coisa que já não começa

à hora do costume,

qualquer coisa que não se passa

como deveria passar-se.

Havia aqui alguém que há muito estava e estava

e que de repente desapareceu

e agora insistentemente não está.

 

Procurou-se em todos os armários,

revistaram-se as estantes,

espreitou-se para debaixo do tapete.

Violou-se até a proibição

de desarrumar os papéis.

Que mais se pode fazer?

Dormir e esperar.

 

Quando regressar, ele vai ver,

ele vai ver quando chegar.

Vai ficar a saber

que isto não é coisa que se faça a um gato .

Caminhar-se-á em direcção a ele

como que contrariado,

devarinho, com patas amuadas.

E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.

 

***

 

wislawa szymborska

 

Kórnik, 1923 — Cracóvia, 2012

 

*

 

[trad: manuel antónio pina]


lido em: Publico

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Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012
levo no peteiro

 

 

Levo no peteiro
(paxaro eu)
o teu corazón,
sede das sensacións
e das emocións
atravesadas de parte a parte.

Pódese querer e estar cansa de querer.
Iso acontece.

 

***

 

eloísa otero

 

león, 1962

 

*


lido em: http://lasafinidadeselectivas.blogspot.com/2007/03/elosa-ote

publicado por carlossilva às 11:48
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