Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012
o [d]efeito placebo

no meio apodreço o homem. 
digo-o às mãos,
em pressa de vultos,
a salvo do berço que o solo
me excede.
é o [d]efeito placebo da coreografia inúmera
de um amanhã em segunda mão. 
a lesão certa para o destino. 


mais não.
o vago escava-se a si mesmo
como pedido de abandono.
como cavilha de um dever.  
e tocamo-nos assim,
parturientes,
saciados de leitos e lugar nenhum.
é o antónimo do seu íntimo.


é-nos dentro.
o verso preme o gatilho à ínfima letra 
e com essa dor me aqueço.
sabê-lo em vão os espaços
é um dia sem transbordar o lado
efémero da fatalidade. 
os próximos braços.


ao redor,
os voyeurs do perdão destoam do furto
e desbotam.
é, esse assomo, livre. 
caem o crude do corpo
para não atear o futuro,
gastando em todas as direcções
a cálida rudeza de existir.
de norte a sul, 
o fim assim aceso.


não é justo.
eu também mereço cair.
***
duarte temtem
*

lido em: http://www.duartetemtem.com/index.html

publicado por carlossilva às 10:07
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
la face de l riso eutanásico ó l speilho anfeitado de paixarinas

 

« e agora corroborando algo embrionário de que se falou
e se volta a falar com outra força »
melusine de mattos
 
 


Beija-me a alvorada na face do riso eutanásico
favos de mel
 
da lua derrama-se leite sobre o meu seio novo
planta que germina da boca silvestre
chama acesa
o mundo surge no despertar das trevas
vida nova se esculpe dentro de mim
enquanto as aves aquecem o repouso em que se recriam
pares de mãos erguidas intercedem
à infinitude do universo
incontáveis trabalham a talha única
que desperta
 
uma floresta longínqua no nevoeiro invernoso
flutua na abstracção do olhar
os espíritos dançantes dispersam-se dela
aproximam-se  da água doce
que yonifica o vale
nos fluídos da geografia antíqua
surgem na clarificação dos sentidos
 
véus do paraíso são rasgados pela loucura
força dolorosa
mensageira perdida
de palavra façoila
gritada pela máscara trágica
no teatro secreto
 
com nó apertado está o enforcado tarológico
sobra tudo ao começo da vida
 
a floresta longínqua é agora derrubada
pelos madeireiros em acção aproximada
morte enxuta da criança
que nunca será notícia na dispersão da terra
 
sacodem-se roupas de oração no varal
entre dois picos que dançam ao vento
polidos pelos espíritos negros
desenhados pelo sol
 
acorda a natureza com o sopro morno
que sobe ao alto
 
tocarão os tambores da noite
a marcha da nova esfera
a diáspora da necrosfera
 
camadas de átomos desconhecidos
formam-se sobre mim
 
adormecerei ao centro da colmeia
para ser sonhada pela abelha mestra
que me trará o pólen
do nome
geleia real do porvir
 
forma-se finalmente
o princípio do 'spabilanto pelo coro dourado
do manto celeste
infinita nebulosa
do planeta inviolável
adonde ls caçadores ténen penas
al redror de la cloaca
i las pitas
spingardas de caramelo
 
pun!

 

***

 

fátima vale

 

*



lido em: https://www.facebook.com/notes/sapetiveoatl-vale/la-face-de-

publicado por carlossilva às 01:42
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2012
o zunido da seda

 

volveu o verán agatuñando a ameixeira, cando o zunido das abellas deixaba esferas de sol e polpa nos meus beizos, bafexaba a canícula de agosto, naquela andia de pólas o vento ficaba, o tempo fitaba lonxano a poucos metros da terra, entre o follaxe e o mel loiro, o voo de bris das abellas aguilloaba o pulso e a lingua, deixaba a picada das mamilas das musas, e nas saborosas celas derretíanse os recaldos do ouro vello no padal, fumegaban inda os incendios forestais da consciencia, o lume fluía polo celme da cera, e na flor do niño de xílgaros prendían as claudias no amarelo, bico a bico os humores do corpo eran do néctar das sedas e os desertos

 

***

 

xosé maria vila ribadomar

 

*


lido em: fotogramatica

publicado por carlossilva às 01:51
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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012
vega

 

porque es una mujer dentro de una botella
pequeña salvaje blanca casi transparente
manos atrapa moscas y olor indefenso
poco a poco clavel libre rojo chillón
y detrás de sus ojos
un mundo de mamuts, de estrellas
la voz del universo, piedras sabias
agua que corre en todas direcciones y que habla
porque su piel es todas nuestras pieles anteriores
su boca una ciudad hecha de coincidencias
algún día algún rey la mirará marcharse y llorará por eso
cuando todas las calles le recojan los pasos tambaleantes
y todavía no sepa por qué es una mujer clavel rojo chillón
que vive en un zapato sin tacón y que baila descalza
porque sabe reírse

 

***

 

isabel garcia mellado

 

*

 

vega

 

porque é uma mulher dentro de uma garrafa
pequena selvagem branca quase transparente
mãos apanha moscas e odor indefeso
pouco a pouco cravo livre vermelho fogo
e detrás de seus olhos
um mundo de mamutes, de estrelas
a voz do universo, pedras sábias
água que corre em todas as direções e que fala
porque sua pele é todas nossas peles anteriores
sua boca uma cidade feita de coincidências
algum dia algum rei a verá partir e chorará por isso
quando todas as ruas lhe recolham os passos cambaleantes
e ainda não saiba por que é uma mulher cravo vermelho fogo
que vive num sapato sem tacão e que baila descalça
porque sabe rir-se

 

*

 

[trad: cas]


lido em: http://www.laotrapequenyita.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 02:06
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Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012
carte postale

 

Les liens ont beau être faits de sang, ils n’en sont pas moins solubles
chaque fois, il me semble que j’ai un peu moins de choses à te dire
et tu restes là, avec tes yeux qui fouillent au fond des miens
en attente de tout ce que je ne peux plus
ne veux plus te donner
je parviens encore à fabriquer quelques phrases de carte postale
rapidement suivies d’une formule de politesse
m’autorisant à prendre congé
en douceur
avant que tu ne poses trop de questions
avant que je ne sois obligée de dire la vérité
te montrer les cicatrices indélébiles que tes mots
autrefois ont laissé sous ma peau

 

***

 

marléne tissot

 

*

 

Postal ilustrado

 

Os laços devem ser feitos de sangue, não são cada vez menos solúveis,

parece-me que tenho um pouco menos coisas para te dizer

e tu ficas aí, com teus olhos que pesquisam no fundo dos meus

à espera de tudo o que já não posso

já não quero dar-te

eu consigo ainda construir algumas frases de postal ilustrado

rapidamente seguidas duma saudação

autorizando-me a tirar uma licença

suave

antes que ponhas demasiadas questões

antes que seja obrigada a dizer a verdade

mostrar-te as cicatrizes indeléveis que tuas palavras

outrora deixaram na minha pele

 

*

[trad: cas]


lido em: http://monnuage.free.fr/

publicado por carlossilva às 02:33
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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
cidade-rapaz

 

quero viver contigo
numa cidade-rapaz
e jantar num restaurante situado no ombro
talvez mais tarde um passeio pelo peito
esconder-me contigo na floresta do peito
oh mas nunca conhecer
esse rapaz que é cidade
nem o seu coração que bate como trovoada
a sua insanidade saudável
mas no final do dia
quero deitar-me contigo
ouvindo a sua respiração suave
{entrando na sua respiração aí suave}
e falar para esta cidade
em forma de corpo indecente
esperando suas reacções mais espontâneas
seus sonhos mais nefastos
e quando a cidade acordar
fingir-nos-emos
mitológicos como a dissolução
dos cúmplices
e viveremos atrás dos olhos
num interstício da alma.

 

***

 

sylvia beirute

 

*

 




lido em: http://sylviabeirute.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 13:41
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Sábado, 14 de Janeiro de 2012
bagagem perdida

 

E

quando encontras no bolso do casaco das viagens

pequenos papéis esquecidos pelo gesto de

os reteres? Não o fazes por acaso. Investes

na epifania de veres regressar à mão

uma entrada nos Uffizi (a

magnificiência

do Vasa) as cores da

Casa Batlló. Nesses papéis onde a data é

o cotão do que passou

reside a ilusão de te evadires daqui -

deste país a fingir que não

te deixa crescer (Europa

de ouropel) lesto a nivelar por baixo. Chegam-te

vindos do nada quando já nada esperavas

(assim é este país

quando tornas de viagem:)

estás no carrossel dos dias e

nunca mais é a tua mala

(nunca mais

é a tua mala)  nunca mais é

a tua mala.

 

***

 

joão luís barreto guimarães

 

porto, 1967

 

*


lido em: Publico

publicado por carlossilva às 12:27
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Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012
un poema de sangue non se fai nun minuto

 

Un poema de sangue non se fai nun minuto,
coma guerra que estoupa, enxéndrase nos anos,
cada dorido golpe arrinca do granito
das nosas mans, as liñas que denuncian palabras.

Cada palabra un golpe e cada letra sangue,
cada paso na fronte un século de ira,
cada morte de home, esperanza prometida
con base no vento que lle levou a fala.

E estes os alicerces da débil poesía;
estes os cimentos en que non construímos nada;
para que estas vigas de pesados cadáveres,
para que ser fillos de guerras acabadas.

 

***

 

marta dacosta

 

vigo, 1966

 

*


lido em: http://www.enfocarte.com/PoesiaGallega/dacosta.html

publicado por carlossilva às 03:29
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Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012
chorégraphie - écriture du corps


Il y a la pensée du corps – des théoriciens
Et l’éprouvé du corps – sensorialité
Et le travail sur le corps – danse

La compréhension du corps
Et la possibilité de sa transmission
Au danseur-en-formation et au spectateur

Savoir – savoir-être – savoir-fait-chair
Incarnation du savoir

Savoir-mouvoir – soi-même – pour – et – l’autre
E-MOUVOIR

 ***

aurelia jarry

 

*

 


Coreografia – escritura do corpo

Há o pensar o corpo – dos teóricos
E o sentir do corpo – sensorialidade
E o trabalho sobre o corpo – dança

A compreensão do corpo
E a possibilidade da sua transmissão
Ao bailarino-em-formação e ao espectador

Saber – saber-ser – saber-feito-carne
Encarnação do saber

Saber-mover – a si mesmo – para – e – o outro
CO-MOVER

 

*

 

[trad: cas]





lido em: http://hadasdedoblea.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 02:56
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Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012
notturno 223, cuarta parte

Notturno 223, cuarta parte

Acabaré escribiendo
cualquier cosa
menos poesía.

Acabaré ahogada
en la sábana,
en la cama verde
que no alcanzo
cama
a la que no llego
por este camino
ruidoso.

Autobús: casa.

Argelinos dormidos.
Maricas que respiran
rápido
como si vivieran al borde
de la muerte.

Transporte atestado: casa.

Acabaré mareada
en la cuneta
dos euros ochenta y cinco
céntimos.

Y a cada hora el trayecto
es más
peligroso.
Y a cada hora
la cama
es más
extraña.

Acabaré mandando
Continental Auto
a la mierda.

Porque la vida
es cualquier cosa
menos poesía.

Porque qué tiene
de poético
el miedo hoy
en mi carne.

Acabaré haciendo
cualquier otra cosa
menos
poesía.

Porque no es lo que tú.

Ni lo que yo.

Porque no es lo que el mundo
necesita.

 

***

 

luna miguel

 

alcalá de henares, 1990

 

*

 

 

Noturno 223, quarta parte

Acabarei por escrever
qualquer coisa
menos poesia.

Acabarei afogada
no lençol,
na cama verde
que não alcanço
cama
a que não chego
por este caminho
ruidoso.

Autocarro: casa.

Argelinos dormindo.
Maricas que respiram
rápido
como se vivessem no limite
da morte.

Transporte lotado: casa.

Vou acabar com tonturas
na sarjeta
dois euros e oitenta e cinco
cêntimos.

E a cada hora a viagem
é mais
perigosa.
E a cada hora
a cama
é mais
estranha.

Acabarei mandando
Continental Auto
à merda.

Porque a vida
é qualquer coisa
menos poesia.

Porque que tem
de poético
o medo hoje
na minha carne.

Acabarei fazendo
qualquer outra coisa
menos
poesia.

Porque não é o que tu.

Nem o que eu.

Porque não é o que o mundo
necessita.

 

*

 

[trad: cas]


lido em: http://www.labellavarsovia.com/autores/luna.html

publicado por carlossilva às 01:13
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