Segunda-feira, 12 de Dezembro de 2011
lembras-te?

 

a cidade

tem paredes

rios íngremes

dias possíveis

olhos obscenos

nos seios ao sol

nas pernas ao vento

no sexo inventado

 

não pergunto

mostra-me

sem que pergunte

surpreende-me

como antigamente

como naquele tempo

em que voavas

sobre o meu ombro

opaco nu

metálico

 

vem daí

no íntimo

dormimos sentados

no nome

no rosto

no ter dito:

a luz afinal

apodrece

no nome

no rosto

no ter dito:

a mão afinal

embebeda

 

lembras-te

 

***

 

carlos grade

 

*


lido em: O pão no rosto

publicado por carlossilva às 00:06
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Domingo, 11 de Dezembro de 2011
(gritar lobo)

 

continuei a regressar ao lugar onde me habituei a grotar lobo até muito depois

de teres deixado de ir em meu auxílio. o inverno foi rigoroso, as espécies do

medo extintas com cobertores e alguma companhia - com uma presença

recuada, sobreviveu apenas essa falta de jeito adolescente que aprendemos a

dissimular por motivos profissionais. antigos uniformes militares desenhados

com cores primárias, listas com números de telefone, mapas, tudo o que a

memória imediata atirou um dia para o interior de pequenas caixas, à espera de

catalogação, descrição, esquecimento. esta noite venho dizer-te que encontrei o

santo e a senha escritos no verso de um bilhete de autocarro, mas não a tua

morada. já ninguém vive nas mesmas ruas passados tantos anos e a luz amarela

e suja de uma lâmpada nua balança sobre um jogo de cartas deixado a meio.

nessa época, só nos rendíamos a quem não nos queria vencer. sei que haveria

uma lição a retirar de tudo isto, mas prefiro acusar-te de falta de resistência

num jogo que um de nós poderia ter ganho, mas ambos perdemos.

 

***

 

tiago araújo

 

*

 

 


lido em: Publico

publicado por carlossilva às 09:28
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Sábado, 10 de Dezembro de 2011
chá

 

fumegue ou não

na chávena só

se bebe em pe

quenos goles

 

indicador na asa

mais o polegar

 

na outra mão

a esta hora

nunca o pão

 

um bolo cada

gole o acompanha

 

se insistindo

voltar a encher

mas meia

seria bastante

 

pode o chá amanhã

desaparecer nesta

casa pouca fal

ta há-de fazer

 

***

 

f. josé craveiro

 

*

 


lido em: dezoito poemas (1971)

publicado por carlossilva às 12:21
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Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011
amor

 

Cheios de pânico perdidos os olhos

E noutros olhos de pânico achados

 

Estou a dizer o grito de vida

Colhido no ventre do medo

 

Serem as bocas pétalas vermelhas

E não murcharem porque sorriram

 

Digo dos gestos recíprocos

O símbolo das mãos ligadas

 

***

 

pires laranjeira

 

*


lido em: vinte e seis poemas iniciais (1971)

publicado por carlossilva às 00:33
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Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011
febre vermelha

 

Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
Para que em vosso seio o labio meu se atole:
Beber até cair, bebedo, para o lado!
Quero beber, beber até o ultimo gole!

Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
As ondas como o oceano, ou antes como um rio
Levando na corrente Ophelias de luar...

Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis...

Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
E eu ando a construir meu cortiço de mel...

Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
Tintos da mesma cor os corações e as balas!...

Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus...

Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
O triste fado que me deu Nosso Senhor...

Scismo já farto de velar minha alma doente,
Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca...

 

***

 

antónio nobre

 

*


lido em: http://www.citador.pt/poemas/febre-vermelha-antonio-nobre

publicado por carlossilva às 00:07
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Quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011
aleluia

 

Era a mulher — a mulher nua e bela,
Sem a impostura inútil do vestido
Era a mulher, cantando ao meu ouvido,
Como se a luz se resumisse nela...
Mulher de seios duros e pequenos
Com uma flor a abrir em cada peito.
Era a mulher com bíblicos acenos
E cada qual para os meus dedos feito.
Era o seu corpo — a sua carne toda.
Era o seu porte, o seu olhar, seus braços:
Luar de noite e manancial de boda,
Boca vermelha de sorrisos lassos.
Era a mulher — a fonte permitida
Por Deus, pelos Poetas, pelo mundo...
Era a mulher e o seu amor fecundo
Dando a nós, homens, o direito à vida!

 

***

 

pedro homem de mello

 

*


lido em: www.citador.pt

publicado por carlossilva às 00:09
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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011
conheço o sal


Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.


Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

 

***

 

jorge de sena

 

*


lido em: http://www.astormentas.com/sena.htm

publicado por carlossilva às 13:57
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011
ouço o incêndio, as fábricas...

 

Ouço o incêndio, as fábricas. O berço
do suor interrupto. Ouço às vezes quem se ama
onde o amor não há – apenas morre
no clandestino abrir.
Ouço às vezes quem rompe os mapas cerce
e então na noite recupera as loucas
emigrações da história. Ouço crescendo
secamente os filhos no rancor e na linfa.
Astuciosamente recolhendo as vastidões adversas.
Ouço em momentos fartos o entulho,
desdobrada a raiz, fundar o mês da heresia,
a sábia recriação do sumo.
Ouço o arado. A luz. Profundamente
os barcos segregados na propensão do mar.
Ainda quem a medo desagregue
a centenária paz:
- os homens,
onde os ouço, aqui recordo
as origens compradas do terror.
Os homens, onde os ouço, aqui confirmo
suas mãos.

 

***

 

hélia correia

 

*


lido em: antologiadoesquecimento.blogspot.com

publicado por carlossilva às 15:33
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Domingo, 4 de Dezembro de 2011
o riso e a sombra

 

a noite cai em riste

sobre o corpo suspenso

do palhaço - ancorado,

preso por um fio

à luz morna que lhe projecta

na madeira a sombra frágil.

Os seus olhos fechados,

onde viveu já o rumo

alado do trapezista

antes de ver o mundo

do ponto de vista da queda,

abrigam agora o riso

emprestado à burlesca

tragédia de se estar vivo.

 

 

***

renata correia botelho

 

*

 

 


lido em: Publico

publicado por carlossilva às 10:25
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Sábado, 3 de Dezembro de 2011
melancolia

 

Os papéis falam uns com os outros

Sobre esta mesa onde a sombra cai

 

A lâmpada esquecida tem remorsos

Da luz que antes lhe deu que se esvai.

 

Nas paredes que antes quadros coloriram

Sobre papel sedoso de ramagens

 

Ecoam dias em que vozes riram

Jarras de cristal com flores selvagens.

 

Já partidos os vidros nas janelas

A glicínia sobre os muros sinuosa

 

Conforme o sol ondula se reclina

Ervas crescem no jardim por elas

 

Pois já nenhuma mão colhe sua rosa.

Tudo se abandona a ser em ruína.

 

***

 

bernardo pinto de almeida

 

*


lido em: http://cvc.instituto-camoes.pt/poemasemana/35/sentimentos3.h

publicado por carlossilva às 00:06
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