Segunda-feira, 10 de Outubro de 2011
vendo a morte


Em tudo vejo a morte! e, assim, ao ver
que a vida já vem morta cruelmente
logo ao surgir, começo a compreender
como a vida se vive inutilmente...

Debalde (como um náufrago que sente,
vendo a morte, mais fúria de viver)
estendo os olhos mais avidamente
e as mãos prà vida... e ponho-me a morrer.

A morte! sempre a morte! em tudo a vejo
tudo ma lembra! e invade-me o desejo
de viver toda a vida que perdi...

E não me assusta a morte! Só me assusta
ter tido tanta fé na vida injusta
... e não saber sequer pra que a vivi!

 

***

 

manuel laranjeira

 

(1877 - 1912)

 

*


lido em: http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/laranje.htm

publicado por carlossilva às 00:02
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Domingo, 9 de Outubro de 2011
na casa ao lado

na casa ao lado
espiritos inquietos sobem e descem escadas
como se o melhor a fazer fosse
subir e descer escadas

são 3:47
o sono das 3:00 já foi perdido
agora no ponto dos conscientes
espero a dormência dos sentidos

calem esses passos
como calaram as almas dentro da casa escura
amarrem esses pés
como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça
tirem seus valiuns das gavetas
e entrem nas sombras dos cobertores

morfeu, acuda esta gente!
dardos com soníferos no centro das testas
areia movediça ao redor das camas
e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.

 

***

 

camila vardarac

 

*


lido em: http://www.cronopios.com.br/site/poesia.asp?id=3918

publicado por carlossilva às 08:21
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Sábado, 8 de Outubro de 2011
tempos dela

 

falei com ela

disse-me que os rios tinham pressa

e havia brisas quentes que falavam

 

cristo não tinha nascido

e a expectativa era grande

e uma amiga muito calma

tinha sido queimada pela alma

 

perguntou-me sobre a palavra

contei-lhe de traumas padres

inteligências emocionais

e interacções fundamentais à distância

para acalmar

 

a brisa ainda fala

com cuidado

 

apontou para trás de mim

e sorriu

sem ruído

 

***

 

joana espain

 

*


lido em: As linhas não existem

publicado por carlossilva às 14:15
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Sexta-feira, 7 de Outubro de 2011
o mundo cheira a abismos

 

o mundo cheira a abismos

de bolas de sabão

 

sei porque tenho um manto

de lance finito

onde se desenham

 

e um canto

numa escala branca

que o mede a medo

 

deram-me um manto

uma escala

e a tortura do gingar

 

de uma janela

 

***

 

joana espain

 

porto, 1977

 

*

 


lido em: As linhas não existem

publicado por carlossilva às 10:08
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Terça-feira, 4 de Outubro de 2011
saio

 

Saio. A friaxe, aínda que necesaria, rolda o exceso. Se me vise forzado a dar sentido á mi-na vida, pularía por introducirme nalgún lugar ao quenteb e cun recuncho cómodo e silencioso onde pasar a noite. A desgraza sobrevén en sociedades nas que dar sentido á vida resulta unha actividade carente de estímulos. As pretendidas sensacións, non recalan máis aló da peza inferior do pixama, sen roupa interior, un domingo á mañá, ligando para o wrestling feminino na televisión por cable. De verme obrigado a facer unha descrición gráfica do meu estado, optaría por identificarme coa decadencia dos espectáculos de loita, nos que a ficción contrasta coa exaltación de ser, de abandonar a civilización, a paz social, a continencia verbal, a insuficiencia, a indiferenza, a indefensión. O transporte de superfície ten a particularidade de liberar de toda tensión. Un entra axiña, senta ás présas, presionado pola idea dun autobús que comeza a marcha cun forte golpe de embrague.

Os segundos nos que un se ve arrolar polo chan, pasando entre as pernas dos que ficaron sen asento, até onde os límites do vehículo permiten.

Despois, sentir a necesidade de evasión, na que a paisaxe sempre cambiante resulta imprescindible. Aos poucos, as persoas anónimas a pasar, a luz dos focos que iluminan a noite, a distancia coa que se mostra o mundo, van eliminando todo o resto de mal humor, achegando imaxes dunha esperanza utópica que nos devolve á marxe da esquerda, na que o wrestling, como máxima expresión da loita inútil, perde protagonismo. Baixo na mesma parada na que me fixen co transporte. Agardo un naco, mentres o bus arrinca e se perde na distancia. As viaxes, en ausencia dun lugar definido onde ir, proprcionan a perspectiva xusta para renunciar ao deixar de ser que a sociedade nos inculca. E procurar o criterio necesario para que o pixama, sen roupa interior, un domingo á mañá, represente o signo indiscutible dun bo almorzo.

 

***

 

alberte momán

 

*


lido em: Pegadas - Q de Vian Cadernos

publicado por carlossilva às 13:46
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Segunda-feira, 3 de Outubro de 2011
simulacrau

 

No talhar da emergência, na fala ventríloqua da arqueologia simbólica, o ship sob o ship sob o ship. Triliões de fragas cobertas de musgo tapante de emissões, uma mediateca removida até à campa onde o alvitre acampa. Procuradas as estafetas que levam a migalha genética em uso de memes refractários, tacteia-se o rígido em polifragmento, inimigos dormindo no

mesmo cristal.

Este é um tempo enevoado por fumo de alicate.

 

Três meses grandes, três meses a abarrotar de simulacraus drogados no Simulacrau. Do carreiro encardido, de três em três quilómetros, a placa indicando o aromatério.

O fedor esplende.

No labaret, pancé e pensée vão de toulouse a andorra comprar imaginários.

Pernoitam em gruta rústica.

Satisfazem-se pela internet.

São imaginados por um não-lugar.

Sem animais.

 

Os aparatos nickam-se, são extra-pontas reverdecendo na clamância diante do muro pantalhonista. Poma, no duro retorno ao canteiro, acrescenta-se doutro halo. Toma vários alprazo-lides para suportar estar fora do Speculum. Terá de sonhar até conseguir pagar a conta e voltar à não-existência. Outros berram-se. É rara a música.

 

Falar dos aprioris da doença. Conhecer seu dentro. Seu corpo, seu a-exterior.

Ouvir a espumância das razões.

Não claudicar ante a normatividade.

Nunca tive problemas com espinhas, vomito com muita facilidade.

Abandonei a casa por me ser insuportável o quotidiano dos parentes. Não volto lá.

Espero perder-me e ver Natascha amamentando metrossímeros e araucárias.

Vestir pele.

Coalhar os bons dias.

 

***

 

alberto augusto miranda

 

*


lido em: Pegadas - Q de Vian Cadernos

publicado por carlossilva às 12:37
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Domingo, 2 de Outubro de 2011
documento dúas vezes guardado sem título

 

Duas cristas de pedra

em Tuia

nas que a brisa

sussurra

o teu nome saboroso

que me despe

de medos oxidados

 

Duas canções

de chaves esquecidas

e de mentiras novas

sob un sol

de café pingado

 

Ama-me duas vezes

duas vezes, meu bem

guardarei uma

para amanhã

 

Continuarei a luta

atravessando jardins

de afogados

florestas de sangre

amarelo

com o som do teu corpo

batendo

no pandeiro quadrado

Ama-me duas vezes, menina

que tenho de ir embora

e já estou atrasado

 

Ama-me duas vezes

e dança comigo

na areia branca

do retorno eterno

da negra sereia

no fundo do espelho

 

Ama-me duas vezes

duas vezes, moça

como amora fresca

do Moraço

uma para amanhã

e outra

apenas para hoje

 

Ama-me duas vezes

e bebamos das águas

dos lagos

do teu silêncio sinuoso

das distancias curtas

das margens molhadas

que para mim ofereces

duas vezes

no monótono

moinho do tempo.

 

***

 

xurxo f. martins

 

*


lido em: Pegadas - Q de Vian Cadernos

publicado por carlossilva às 15:03
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Sábado, 1 de Outubro de 2011
avó sentada com chapeuzinho de palha

 

infinita paciência a do cardo naquela duna

uma avó com chapeuzinho de palha

sentada a ver o mar e a flor

a família está na água

e a velha senhora com um sorriso chama    chama

chama e chama

há muitas algas   ruídos e coisas assim

ela chama

a avó está a chamar    diz o netinho com o nariz na onda

uma das filhas vai e o que ela quer

é melancia    mas não há

a velha sorri para a flor do cardo

onde é que agora vão buscar melancia?

mas o marido da filha vai

sem gosto no que faz o homem vai

ao restaurante e volta

com a talhada na mão

agora a avó está a comer a melancia

e todos voltam com as suas vozes ao mar

que manhã    que sol

a velha senhora pousa a casca da melancia sobre as pernas

ainda lhe sente o fresco no algodão preto do vestido

e grainhas na língua

ainda olha o cardo e a duna e o marido que morreu há muito

a vida toda passa e ela adormece

o neto ainda diz

a avó já não quer a melancia

mas ninguém o ouve

que sol   que mar

a Grécia tem manhãs assim

 

***

 

abel neves

 

montalegre, 1956

 

*


lido em: publico

publicado por carlossilva às 13:42
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