Quarta-feira, 20 de Julho de 2011
fibra óptica de ícaro

I

I

 

 

 

ouvem-se menos as esquinas lá fora

 

 

 

os touros andam distraídos

 

em redondos dentro de redondos

 

galerias de pedra de redondos

 

(só um infinito podia deixar acabar-se assim em redondo)

 

 

 

de cornos sensíveis

 

a uma certa inclinação de sangue

 

alguns dançam e rodopiam pescoços

 

(a mais bela transição)

 

 

 

lançam corpos moles em hélice pelo ar

 

sabem que os reflexos nunca obedeceram

 

(a pedra redonda sempre foi um bom espelho

 

e um touro não pode ser deus)

 

 

 

fica sempre um gesto letra-borboleta

 

naquela pá-limpa-cesto pouco limpa de mãos

 

um dedo mindinho girado aleatoriamente

 

e escrevem-se infinitos de mãos dadas

 

 

 

II

 

 

 

ouvem-se menos as esquinas lá fora

 

 

 

touros sérios sentados em cadeiras olham-se de frente

 

sentem como certa a inclinação

 

o binário das esquinas das estrelas dos cabelos das caras moles

 

do encontro forçado das paredes

 

 

 

quando dois

 

catorze (infinitas) portas

 

abrem e piscam em fibra óptica

 

o céu é um emaranhado de fios de néon azul

 

(cada um a puxar a saia azul de uma princesa)

 

 

 

e os touros começam a desenhar danças inclinadas

 

(antigos avisos)

 

na pedra redonda

 

 

 

há sempre touros calmos a rir

 

de cornos azuis

 

a adormecer informação nos terraços

 

em relvas mornas de vulcões

 

 

 

III

 

 

 

ouvem-se menos as esquinas lá fora

 

 

 

(e se existem cornos e esquinas)

 

a informação queima as asas

 

 

 

só tambores debaixo de água

 

cheira a mar

 

e é impossível voar acima das fibras ópticas azuis

 

sem puxar à velocidade da luz

 

as saias de todas as princesas

 

 

 

 

 

em roda tribal (que nunca se soube escrever)

 

de sentido contrário à inclinação

 

pendurados por milhares de fibras

 

às grandes asas mecânicas

 

há touros centrífugos a acelerar

 

 

 

e mais alto que o ritmo das esquinas

 

ouve-se no seu canto:

 

 

 

a casa é um labirinto com uma certa inclinação para o mar

 

***

 

joana espain

 

*

 


lido em: http://www.avoltadascoisas.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 00:35
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 19 de Julho de 2011
poema

 

Para o Mário Cesariny

 

Moveu-se o automóvel - mas não devia mover-se

não devia!

 

Ontem à meia-noite três relógios distintos bateram:

primeiro um, depois outro e outro:

o eco do primeiro, o eco do segundo, eu sou o eco do terceiro

 

Eu sou a terceira meia-noite dos dias que começam

Pregões de varina sem peixe

- o peixe morreu ao sair da água

e assim já não é peixe

 

Assim como eu que vivo uma VIDA EXTREMA.

 

***

 

antónio maria lisboa

 

(lisboa, 1928 - 1953)

 

*


lido em: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/tag/ant%C3%B3nio+maria+li

publicado por carlossilva às 01:01
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 18 de Julho de 2011
en otro lugar se quedó desnuda

 

En otro lugar se quedó desnuda

y le dio su cuerpo al lobo más hambriento de la ciudad.

 

En otro lugar le abrió su casa al enemigo

y le dijo toma todo cuanto quieras.

 

En otro lugar bailó tanta agua

que se le humedecieron las entrañas

y se pudrió por dentro.

 

En otro lugar vino tanta gente a verla

que el aplauso se volvió tormenta de verano

y la cabeza le estalló con tanta niebla y tanto caracol

y tanto agosto y tanto fuego.

 

En otro lugar se rindió,

se dejó llevar por el instinto en otro lugar

y se tumbó a sobrevivir a sus pies

para lamerle las heridas del camino...

y vivió en otro lugar la vida a rastras.

 

En otro lugar,

no en este.

 

***

 

almudena vidorreta torres

 

*

 

Num outro lugar ficou nua

e deu o seu corpo ao lobo mais faminto da cidade.

 

Num outro lugar abriu sua casa ao inimigo

e lhe disse leva tudo quanto queiras.

 

Num outro lugar bailou tanta água

que as entranhas humedeceram

e apodreceu por dentro

 

Num outro lugar veio vê-la tanta gente

que o aplauso tornou-se tormenta de verão

e a cabeça estourou com tanta névoa e tanto caracol

e tanto agosto e tanto fogo.

 

Num outro lugar se rendeu,

se deixou levar pelo instinto num outro lugar

e caíu sobrevivendo a seus pés

para lamber as feridas do caminho...

e viveu num outro lugar a vida de rastos.

 

Num outro lugar,

não neste.

 

[trad: cas]


lido em: Lengua de Mapa

publicado por carlossilva às 13:56
link do post | comentar | favorito

Domingo, 17 de Julho de 2011
parada en peaje

 

A la noche
Pinto líneas de carretera
Donde la mala digestión de humores circula
Dejándome huérfana
Novia gitana

Extiendo la cebra sobre el tumulto
Suelo también guiñar un ojo con picardía
Sabiendo que son muchos los testigos
Y pocos los visitados
Autómatas de mi brújula

Peco de ingenuidad
Aún con ello
No hay asfalto sin mis huellas
Fosilizadas bajo rayas longitudinales

Por la nacional sexta huye del casamiento
Una rosa discontinua

 

***

 

ada menendez

 

*


lido em: http://www.margencero.com/poesia/poesia5/ada_menendez.htm

publicado por carlossilva às 11:53
link do post | comentar | favorito

Sábado, 16 de Julho de 2011
o castelo do barba-azul

 

"Os porcos conseguem digerir todo o corpo

Humano, excepyo os dentes"

Dum jornal diário em 4.8.2010

 

 

Amar para lá do sangue, até aos dentes.

Um Romeo adulto, vários Julietas, entorses no desejo

Se conjugam

E a tragédia resfolga nas pocilgas da alma.

 

A ternura afocinha, os risos têm pressa,

O sexo embrulha-se, a alegria

Explode, os corpos desabrigam-se,

Depois desaparecem.

 

Amar para lá da ambição das feras,

No rescaldo da fúria traduzida em músculos.

Os punhais da droga atravessam as nádegas,

A língua suplica, os olhos ficam vítreos.

 

Npites de província urbanizadas

Por cruéis ondas sensuais.

Falar para lá dos crimes iluminando os rostos

Com a voracidade assassina do ciúme.

 

Sentir no ar uma corrente uma corrente grotesca

Irrespirável

Porquê? Como se o porquê não fosse ele próprio

Todas as respostas.

 

Desvendar para lá do poema a turva solidão

Do criminoso.

Ébrias de mistério as palavras soltam-se das mortes,

Como pedaços vivos de paixões em sangue.

 

Entre os passos de supostos amantes, as moscas

Zunem fúnebres junto às cabeças de pedra de gnomos e duendes,

De suína intenção policial.

 

Ó amores erguidos sobre ossos espúrios, noivados sepulcrais,

Com véus feitos de lua e de arrepios nocturnos,

Subi este poema à condição sublime

E dai-lhes visões de alma menos animais.

 

***

 

armando silva carvalho

 

(óbidos, 1938)

 

*

 


lido em: Público

publicado por carlossilva às 11:20
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 15 de Julho de 2011
ainda vita contemplativa


No comboio para Varsóvia


Pode acontecer em qualquer lugar, por vezes no combóio,
quando estou muito longe: subitamente a porta
abre e figuras esquecidas entram,
o meu sobrinho, que já não anda por cá,
mas que se aproxima, alegre, sorrindo,
e um determinado poeta chinês que amava
a música e as folhas das árvores no outono,
estudantes de teologia de Córdoba, ainda sem barba,
emergem de nenhures e saltam à vista,
retomando o debate sobre os atributos de Deus,
e a esplêndida vida surge como uma queda de água na primavera,
até que finalmente um telemóvel soa, inoportuno,
depois outro, e um terceiro, e todo este mundo excelente, estranho
se contraí e desaparece, exactamente como um rato de campo,
que, apercebendo-se do perigo, se retira habilmente para
o seu apartamento secreto.

 

***

 

adam zagajewski


Lvov, 1945

 

*

 


lido em: http://poesiailimitada.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 13:31
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 14 de Julho de 2011
deixar que me amem é rodear {eu}

 

deixar que me amem é rodear {eu}
a compreensão de outrem. há actividade nesse lado passivo.
{na mulher sã há mais actividade no
lado passivo que no lado activo.}
e depois substituir o amor: porque a actividade
do lado passivo consegue-o,
uma vez que o optimismo de tal acto
se basta na área da provocação.
{e de resto}, o intestino mantém a sua função,
o aplauso entre duas mãos é injectado de verdade
e música. {os átomos} são aproximados
e isso chega para proibir a monotonia.
{depois disso}, passivamente, o amor é uma hipótese
sobre a beleza que é um acumular de belezas,
sobre a morte que é um acumular de mortes ou vidas,
sobre a vida que é um acumular de vidas ou mortes,
sobre a idade que é a única violência sobre o corpo
e é uma coreografia que avança
ao encontro de DEUS.

 


***

 

sylvia beirute


*


lido em: http://sylviabeirute.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 11:42
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 13 de Julho de 2011
la megalómana



vivir en tu arriba
vecina cíclope de ojo mirilla
inscribiendo cuadrados en el círculo
qué coreografía la de tu planta
distorsionados vecinos de cabezas inmensas
lanzados cada día de sus casas
por la ley de la simple monotonía
tras ellos tu ojo de inventar conjeturas

vivir en tu arriba
gestando agujeros para mirar siempre
a qué horas de sencillas preferencias
de hipótesis empíricas de tercer piso
te lleva la tierna megalomanía

mirarte en tu arriba
más allá
grúas bestiales destrozando bloques que no sabes
con la silueta todavía
de escaleras subiendo por la pared intacta
y una puerta magritte por la que se ve el todo
ese que nunca percibieron
tus ojos sin estéreo
porque más allá del tercero
el mundo no existía

 

***

 

maría eloy-garcia

 

*


lido em: http://lasafinidadeselectivas.blogspot.com/2006/12/mara-eloy

publicado por carlossilva às 12:55
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 12 de Julho de 2011
en el pavimento


en el pavimento queda
por la tarde
la sangre seca
de las perras en celo

algunos
las agarran del cuello y las hacen morir:
no soportan la libido gloriosa
que alborota los machos
los mechones de pelo en las puertas de alambre
el olor rijoso del orín
en los carteles de las tiendas

las perras son dóciles al entrar
en las bolsas de nylon
obedecen y se pliegan al tamaño
enarcan los huesos
se acomodan a la muerte
al silencio

conozco esa mansedumbre de haberla ejercido

basta tocar la marca roja en el cuello
para evocar soga y dueño
pero yo mordí la mano
y ahora tengo esta libertad
grande
en que me asfixio

 

***

 

elena anníbali

 

*

 


no pavimento

no pavimento fica inscrito
pela tarde
o sangue seco
das cadelas com cio

alguns
assaltam-nas pelo pescoço e fazem-nas morrer:

não suportam a libido gloriosa
que alvoroça os machos
os tufos de pelo nas portas de arame
o cheiro lascivo da urina
nos cartazes das lojas

as cadelas são dóceis quando entram

nas malas de nylon

obedecem e encaixam-se à sua medida

arqueiam os ossos

adaptam-se à morte

ao silêncio

conheço essa mansidão por a ter exercido

 

basta tocar na marca vermelha do pescoço

para evocar corda e dono

eu mordi a mão

agora estou nesta liberdade

em que me asfixio

 

**

[trad. aam]


lido em: http://meninasvamosaovira.blogspot.com/2011/07/elena-annibal

publicado por carlossilva às 12:29
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 11 de Julho de 2011
entretanto

 

Não há que ter ilusões:

nós também somos

 

o fim da nossa estrada.

Com estas mãos,

 

com este mesmo coração

é que chegamos

 

ao cabo do futuro,

à extrema situação

 

de que partimos.

Mas, entretanto,

 

escrevamos.

 

***

 

rui pires cabral

 

*


lido em: Público

publicado por carlossilva às 12:23
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
agenda
18 de abril 2013 19 de abril 2013
Junho 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
14
15

18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

fogo e água

pára-me de repente o pens...

si digo mar

infância

trapo de voz representa o...

nana para gatos a punto d...

sou uma coluna crematória

dois poemas

nacín vello de máis

uelen

arquivos

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

a m pires cabral(4)

adelia prado(5)

adilia lopes(8)

al berto(6)

alba mendez(4)

albano martins(4)

alberte moman(8)

alberto augusto miranda(9)

alexandre teixeira mendes(11)

alfonso lauzara martinez(8)

alice macedo campos(13)

alicia fernandez rodriguez(5)

almada negreiros(4)

amadeu ferreira(8)

ana luísa amaral(6)

ana marques gastao(4)

andre domingues(5)

andreia carvalho(4)

antonio barahona(5)

antonio cabral(5)

antonio gedeao(5)

antonio ramos rosa(7)

anxos romeo(4)

ary dos santos(5)

augusto gil(4)

augusto massi(4)

aurelino costa(11)

baldo ramos(6)

bruno resende(5)

camila vardarac(9)

carlos drummond de andrade(5)

carlos vinagre(13)

cesario verde(4)

concha rousia(4)

cristina nery(5)

cruz martinez(9)

daniel filipe(5)

daniel maia - pinto rodrigues(4)

david mourão-ferreira(6)

elvira riveiro(8)

emma couceiro(4)

estibaliz espinosa(7)

eugenio de andrade(8)

eva mendez doroxo(8)

fatima vale(10)

fernando assis pacheco(4)

fernando pessoa(5)

fiamma hasse pais brandão(5)

florbela espanca(7)

gastão cruz(5)

helder moura pereira(4)

ines lourenço(6)

iolanda aldrei(4)

jaime rocha(5)

joana espain(10)

joaquim pessoa(4)

jorge sousa braga(6)

jose afonso(5)

jose carlos soares(4)

jose gomes ferreira(4)

jose luis peixoto(4)

jose regio(4)

jose tolentino mendonça(4)

jussara salazar(6)

luis de camoes(5)

luisa villalta(4)

luiza neto jorge(4)

maite dono(5)

manolo pipas(6)

manuel alegre(6)

manuel antonio pina(8)

maria alberta meneres(5)

maria do rosario pedreira(5)

maria estela guedes(7)

maria lado(6)

maria teresa horta(5)

marilia miranda lopes(4)

mario cesariny(5)

mia couto(8)

miguel torga(4)

nuno judice(8)

olga novo(17)

pedro ludgero(7)

pedro mexia(5)

pedro tamen(4)

raquel lanseros(9)

roberta tostes daniel(4)

rosa enriquez(6)

rosa martinez vilas(8)

rosalia de castro(6)

rui pires cabral(5)

sophia mello breyner andressen(7)

suzana guimaraens(5)

sylvia beirute(11)

tiago araujo(5)

valter hugo mae(5)

vasco graça moura(6)

virgilio liquito(5)

x. m. vila ribadomar(6)

yolanda castaño(10)

todas as tags

links
pesquisar
 
blogs SAPO
subscrever feeds