Quinta-feira, 9 de Junho de 2011
deitei a cabeça em cima da fotografia

 

deitei a cabeça em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda

 

agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito

 

levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde

 

onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora

 

de qualquer maneira não consegui a ligação 

 

***

 

al berto

 

*


lido em: http://nescritas.com/poetasapaixonados/listapoesiasdeamor2/1
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publicado por carlossilva às 10:03
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Quarta-feira, 8 de Junho de 2011
las tendí de una cuerda en el patio


Vacié de letras todos mis huecos,

chupé el polvo de la única palabra que ya no uso,

y me atraganté.

Después de perseguirte a distancia,

de aprender todos los gestos,

de peinarme frente a tu espejo.

De resbalarme cabeza abajo hasta tu sexo.

Apreté las piernas hasta hacerte daño.

Pasa el tiempo y las pelusas anidan en las tripas.

Han hecho un útero donde antes había estómago,

y en lugar de comer,

doy a luz todos los días una manzana de tristeza.

Si las nanas hacen llorar, ¿qué se les canta a los que nacen difuntos?

Te haré una canción que sepa a leche y así saldaré la deuda de no ser tu madre.

El suelo cada vez está más sucio y no me queda tinta para remediarlo.

En mi tendedor las manzanas se pudren antes de suicidarse

llevadas por la inexcusable tentación de la inercia.

 

***

 

carmen ruiz fleta

 

zaragoza, 1975

 

*

 

 

Pendurei-as numa corda do pátio.

Esvaziei de letras todas as minhas cavidades,

chupei o pó da única palavra que já não uso,  

e engasguei-me.

Depois de te ter perseguido à distância,

de aprender todos os gestos,

de me ter penteado diante do teu espelho.

De ter resvalado cabeça abaixo até ao teu sexo.

Apertei as pernas até te doer.

O tempo passa e a penugem aninha nas tripas.

Há um útero onde antes era um estômago,

e, em vez de comer,

todos os dias dou à luz uma maçã de tristeza.

Se as canções de embalar fazem chorar, que coisa cantar aos que nascem defuntos?

Far-te-ei uma canção que saiba a leite e assim saldarei a dívida de não ser tua mãe.

O chão está cada vez mais sujo e não me sobra tinta para o reparar.

No meu estendal as maçãs apodrecem antes de se suicidarem

Levadas pela indesculpável tentação da inércia.

 

[trad: aam]


lido em: http://meninasvamosaovira.blogspot.com/search/label/carmen%2

publicado por carlossilva às 12:33
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Terça-feira, 7 de Junho de 2011
mi casa ya no es mi casa

 

Mi casa ya no es mi casa

ni mis manos mis manos

 

Se abre la puerta y escucho

el rumor de un hueso blanco

 

La tarde me dibuja un párpado

un bosque de manchas que duermen

 

Mi casa ya no es mi casa

es puro vientre

 

Aroma de los días largos

el enigma del corazón

de un animal

un animal extraño

 

***

 

anxo pastor

 

vilardonas, ribas do sil, lugo, 1959

 

*

 



publicado por carlossilva às 02:36
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Sábado, 4 de Junho de 2011
isaac babel, véspera sabática


1.

Isaac Babel há-de chegar - com a cavalaria vermelha - presságio do dúbio -

Entre as nuvens- caminho de ninguém - a véspera sabática - da cegueira -

Sob a côr púrpura - a chama - da escrita - na cabeça - lâmpada do prolífico -

Brisa maior - da treva - a infranqueável lucidez - irrepetível grito - na noite -

2.

Invocando odessa - a saciedade da pedra - que nos devasta - e se precepita -

Os mapas - da sonolência - lábios do sedento - pretexto do bosque indistinto -

Por detrás da impenetrável ferida - o obscuro amigo - a memória do implacável -

Luz desvanecida - do aéreo - a nudez - do ultraje - cárcere - serpente inacessível -

 

***

 

alexandre teixeira mendes

 

*


lido em: http://douradaatempera.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 08:53
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2011
luz e sombras de amor resucitado


Tristemente convivo coa túa ausencia
sobrevivo á distancia que nos nega
mentres bordeo a fronteira entre dous mundos
sen decidir cal deles pode darme
a calma que me esixo para amarte
sen sufrir pola túa indiferencia
a miña retirada preventiva
dunha batalla que xa sei perdida
resolto a non entrar xamais en ti
pero non á tortura de evitarte.

 

***

 

lois pereiro

 

*


lido em: http://revistamododeusar.blogspot.com/2011/05/lois-pereiro-1

publicado por carlossilva às 12:34
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Quinta-feira, 2 de Junho de 2011
que até é difícil

 

que até é difícil
o sol de fogo contorcido
ao redor do cone
ousaria ao tecto da videira
que os triângulos são rectos
se
ao mergulhar
amadurece a cor da cicuta
recordo o grito dos pavões
com a cauda de passos largos
e a zimbro decoro
o espírito eriçado do gelo
que há a mascarada planetária
e de epitáfios arranco
a algazarra do conforto do sol
que é tardio quando nos tapetes se misturam as laranjas
e se retiram as profecias dos galhos
de um bosque com uma estrada molhada.

sei que há um prato de bálsamo junto
às praias abandonadas de ameixas
e os pés manifestam ter uma companhia celestial
e um círculo de ruidosas colinas
que ao orvalho são fortuitas
e de esporas.

e de fêmeas.
e de pulseiras alagadas.
e de palcos
depois
do soalho dos nenúfares
tinha de ser imaginado junto
ao vermelho em que morremos sempre

acontecer
é
quando os modos da relva têm um domínio preto
reclinado nas histórias dos jarros
e um hino que assina um olho aos vinte e três ângulos
da anca da mais leve coroa
entre o ouvido e o aceso redondo da corda de metal
e a queda dos muros dos ecos.

 

 

***

 

cristina nery

 

*


lido em: http://partimonio.blogspot.com/; http://asepulturadasromas.b

publicado por carlossilva às 17:14
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011
havia um menino

 

Havia um menino

Que tinha um chapéu

P’ra pôr na cabeça

Por causa do Sol:

Em vez de um gatinho

Tinha um caracol

Tinha o caracol

Dentro do chapéu.

Fazia-lhe cócegas

No alto da cabeça,

Por isso ele andava

Depressa, depressa,

P’ra ver se chegava

A casa e tirava

O chapéu, saindo

De lá e caindo

O tal caracol.

Mas era, afinal,

Impossível tal,

Nem fazia mal

Nem vê-lo, nem tê-lo,

Porque o caracol

Era de cabelo!

 

***

 

fernando pessoa

 

*



publicado por carlossilva às 12:16
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