Segunda-feira, 20 de Junho de 2011
grupo

 

O grupo é um conjunto de figuras

que se hão-de encadear umas nas outras,

com suas paixões internas, que se indicam

pela testa, pelos olhos, o nariz, a boca, os dedos.

 

Almoçámos todos juntos e falámos do passado.

Bem me parecia reconhecer esta foto:

uma ilha encaixada na escuridão.À volta

dessa ilha não há fundo, apenas um relógio

 

em contagem decrescente. O certo é que

beber muito depressa faz-nos mal.

Chegar à doca seca é a parte mais difícil.

que péssimo lugar para a âncora descair.

 

da próxima vez é melhor começar com algo

simples: corpos animados por instinto,

versos que não cheguem ao papel.

Só posso prometer que vou tentar.

 

 

***

 

vítor nogueira

 

*

 


lido em: Público

publicado por carlossilva às 13:02
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Sábado, 18 de Junho de 2011
poema de olga e elba

 


Son eu a muller que agora ocupa esta casa
na que exististes, Olga, Elba,
dende que se abriron para min cos pés descalzos
os seus labios de actriz que non me aman.

E ¿qué sodes vós á vida miña? compañías presentes,
mulleres antigas e presentes,
dobles pálpitos de ser broslados na pel do que eu abrazo.

Somos tres e matino nas nosas figuracións idénticas, perfís
repetindo o perfil           da súa milimétrica idea da beleza.
Deslumbrantemente admiradas           e repugnadas até a náusea.
Que o daría todo por ser por un minuto coma vós,
eu, que vos fun, tan abnegada e instintivamente.

Respira o rastro das caricias           vosas               no que eu toco,
aínda insobornable na madeira destes mobles,
nos frascos que aínda están, na vosa roupa.
Olga, Elba, abstractamente perfectas como mulleres anónimas,
intactas, coma o que non morrerá           nunca.

Aínda quente está a pegada dos vosos pés no que me acolle,
e na mesa que comparto con espectrais ausencias
alugo o voso espacio implacable con usura.
Que habería morrer por ser máis cás vosas cifras
ou desexo matar o voso nome a coiteladas.

Olga, Elba, mulleres pasadas e perpétuas,
e eu estúpidamente filla vosa,
estúpidamente irmá nunha xenealoxía interrogante.
Pantasmas divinas
                              e feroces
                                                  mentras durmo.

 

***

 

yolanda castaño

 

*


lido em: http://www.enfocarte.com/PoesiaGallega/castano.html

publicado por carlossilva às 00:20
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2011
em folhas de acetato me proteges

 

em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.


***
antónio franco alexandre


viseu (1944)


lido em: http://poesiaseprosas.no.sapo.pt/antonio_franco_alexandre/po

publicado por carlossilva às 00:01
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
alba

Mi corazón oprimido

siente junto a la alborada

el dolor de sus amores

y el dueño de las distancias.

La luz de la aurora lleva

semilleros de nostalgias

y la tristeza sin ojos

de la médula del alma.

La gran tumba de la noche

su negro velo levanta

para ocultar con el día

la inmensa cumbre estrellada.

 

Que haré yo sobre estos campos

cogiendo nidos y ramas,

rodeado de la aurora

y llena de noche el alma!

Que haré si tienes tus

muertos a las luces claras

y no ha de sentir mi carne

el calor de tus miradas!

 

Por qué te perdí por siempre

en aquella tarde clara?

Hoy mi pecho está reseco

como una estrella apagada.

 

***

 

federico garcia lorca

granada (1898 - 1936)

 

*


lido em: Libro de Poemas (1921)

publicado por carlossilva às 00:44
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2011
tenho uma pressa danada de ir a lado nenhum...

 

Tenho uma pressa danada de ir a lado nenhum, com um zunzum

nas orelhas assobio perto de ti. não se deve ver uma cara

tanto tempo, o assobio partir-se-á e já a dobrar a esquina

no retrovisor sinto que deixei atrás de mim uma miragem.

 

Insecto molhado, sacodes as asas da chuva de molha-parvos

e obrigo-te a vir comer à minha mão, um excelente dia

para passear, falar, conversar de braço dado, dar exercício

ao raciocínio, movimentar um pouco as pernas, esbracejar.

A pala da mão contra o sol inscreve beleza no retrato

mas mais não faz do que proteger-se do teu olhar acutilante.

 

Quando nos saites pornográficos para velhos as dentaduras

com mãos trémulas depositadas em copos de água de vidro

nos fazem perceber as cenas seguintes do verdadeiro sexo

oral, uma tristeza irrompe sem controlo pelas minhas lágrimas

dentro e quero ver cada vez mais para desaprender.

 

***

 

helder moura pereira

 

*


lido em: Poemário 2011

publicado por carlossilva às 11:06
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Terça-feira, 14 de Junho de 2011
pendúrase nos extremos
Pendúrase nos extremos
Sabe que non hai tempo, mais
xorde temerario
Busca o equilibrio dos arácnidos
na ingrávida superficie de alienados
autómatas
Eses que formulan realidades ao pé
dun tallo retorto
e cando lle penetra o solpor na face
distraída
gabéanlle polos ombreiros
as teorías obsesas dos vagalumes
malia todo, o son dun clavicordio
prolixo, lesiona a extrema levidade das
caracochas
***
cruz martínez vilas
*

lido em: http://penultimoacto.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 00:30
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Segunda-feira, 13 de Junho de 2011
liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

***

fernando pessoa

*


publicado por carlossilva às 01:28
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Domingo, 12 de Junho de 2011
anjos tardios

 

São anjos de metal, estendidos no outro lado

do mar, com a pele encostada a um navio.

Anjos inclinados para a madeira, presos a uma

corda, sabendo que o céu se abre para eles como

uma forca. Uma grande luz vem dos penhascos,

traz essas mulheres no seu dorso, esmagadas pelo

olhar. Uma sirene cruza o nevoeiro. É de novo a

morte, a última tentaçãoda carne, o grande vestido

deposto sobre um estrado. Outro anjo nasce

fulminando a beleza do dia. Tem uma voz, um rosto,

uma oficina. É um cântico tardio, uma desordem,

uma paixão que se esvai triturada por uma súbita fraga.

 

***

 

jaime rocha

 

*


lido em: Público

publicado por carlossilva às 00:08
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Sábado, 11 de Junho de 2011
corridinho

 

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, tudo truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é"

 

***

 

adélia prado

 

*


lido em: http://www.lumiarte.com/luardeoutono/adeliaprado.html

publicado por carlossilva às 00:31
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Sexta-feira, 10 de Junho de 2011
busque amor novas artes, novo engenho,

 

Busque Amor novas artes, novo engenho,

Para matar-me, e novas esquivanças;

Que não pode tirar-me as esperanças,

Que mal me tirará o que eu não tenho.

 

Qlhai de que esperanças me mantenho!

Vede que perigosas seguranças!

Que não temo contrastes nem mudanças.

Andando em bravo mar mar, perdido o lenho.

 

Mas, conquanto não pode haver desgosto

Onde esperança falta, lá me esconde

Amor um mal, que mata e não se vê;

 

Que dias há que na alma me tem posto

Um não sei quê, que nasce não sei onde,

Vem não sei como, e dói não sei porquê.

 

***

 

luís de camões

 

*


lido em: sonetos de Luís de Camões

publicado por carlossilva às 16:22
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