Domingo, 22 de Maio de 2011
oliveira

 

Deito-te
na cama agrária
do poema
Podes crescer
engolir o tempo
quando exuberantes
os teus versos
ofertarem azeitonas
e o teu óleo iluminar
a escuridão das feridas
Por breves estações
a imortalidade
na folha perene
Quero plantar-te sem inútil
melopeia
O azeite das palavras derrama-se
em ti
até que o traduzas
em paz.
***
marília miranda lopes
*

lido em: http://cosmoscripto.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 15:31
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Sábado, 21 de Maio de 2011
diário lisboeta

 

1 de Abril de 2011, 6ª feira

Vi um cão abandonado.

2 de Abril de 2011, sábado

Vi dois papagaios verdes no alto de um choupo.

3 de Abril de 2011, domingo

Vi uma rosa cor-de-rosa no quintal do 14.

4 de Abril de 2011, 2ª feira

Arrumei o casacão no guarda-fato.

6 de Abril de 2011, 4ª feira

A Bé gostava de ter um macaquinho.

9 de Abril de 2011, sábado

Quero escrever frases, tagarelar e dançar.

Gosto de solinho. Ver o barómetro.

10 de Abril de 2011, domingo

Descomplicar.

A Leonor tem roupa à janela.

 

***

 

adília lopes

 

*


lido em: Público

publicado por carlossilva às 12:23
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Sexta-feira, 20 de Maio de 2011
andré gide

 

(para o joaquim manuel magalhães)

 

 

O mais veloz corredor da sua geração, pelo menos

no arranque, não admira que tenha chegado primeiro

a muito lado. Mas tão cedo partia, invariavelmente,

que nem louros nem medalhas, pois a prova ainda não

tinha começado.

Sofria essa mania de correr por fora

de qualquer certame, por conta própria, em mandatos

espontâneos, auto-atribuídos. Deste modo, andava

sempre sozinho, porque quando os seus émulos partiam,

já ele estava em casa, a preparar com a sombra a sua

próxima aventura, que no fundo consistia em abrir pistas

para quem viesse atrás. Assim, se queria conversar com

alguém, só lhe restava fingir uma queda no senso-comum,

uma lesão no joelho - e amiúde o fazia, pois na verdade

pouco tinha de misantropo, chegando mesmo a execrar

como maldita a compulsão que o levava a partir antes

do tiro de laragada, e a chegar primeiro onde ninguém

o esperava. Talvez isso explique a timidez de anacoreta

que sempre exibia, e a prudência relativa das suas passadas.

Dez ou vinte anos depois, aceerados epígonos diriam

morosas as suas corridas, convenientemente esquecidos,

como é próprio de retardatários sem vergonha, que se

faziam melhores tempos (os que faziam), era em pistas

utilmente batidas e inauguradas por ele, o pujante pioneiro.

 

***

 

josé miguel silva

 

vila nova de gaia, 1969

 

*


lido em: Público

publicado por carlossilva às 13:14
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Quinta-feira, 19 de Maio de 2011
os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora

 

os cães gerais ladram às luas que lavram pelos desertos fora

mas a gota de água treme e brilha,

não uses as unhas senão nas linhas mais puras,

e a grande Constelação do Cão galga através da noite do mundo cheia de ar e de areia

e de fogo,

e não interrompe ministério nenhum nem nenhum elemento,

e tu guarda para a escrita a estrita gota de água imarcescível

contra a turva sede da matilha,

com tua linha limpa cruzas cactos, escorpiões, árduos buracos negros:

queres apenas

aquela gota viva entre as unhas,

enquanto em torno sob as luas os cães cheiram os cus uns aos outros

à procura do ouro

 

***

 

herberto helder

 

*

 


lido em: Público

publicado por carlossilva às 17:41
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Quarta-feira, 18 de Maio de 2011
cliché

 

Não é que seja o momento para trocar

cartões-de-visita. José Maria da Silva,

fotógrafo profissional com estúdio em Lisboa,

tem por hábito mudar-se para a vila da Ericeira

na época balnear. Ainda está por aqui

 

no dia 5 de Outubro. Um notável testemunho

(gelatina e sais de prata, memória pronta e fiel)

que, com sorte, há-de chegar à Ilustração

Portuguesa. Além disso, uma kodak não tropeça

em estrangeirismos, ornatos de sabor clássico,

no jeito francês da frase, nos defeitos da sintaxe.

 

José Maria da Silva, fotógrafo profissional,

passa o resto da tarde com um nervoso

miudinho. Até revelar as chapas. Olhem bem

para estas caras, estas formas do passado. Nada mau

para seres humanos. Pode dizer-se que sim.

 

***

 

vítor nogueira

 

*


lido em: resumo a poesia em 2010

publicado por carlossilva às 11:24
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Terça-feira, 17 de Maio de 2011
(sj-06)

 

as formas de conhecer-te são só duas

ou três; esta é a que demora mais tempo.

a chuva parou e continuamos distraídos neste

amor de cabotagem, nunca demasiado

longe ou perto da carne e dos órgãos que uma

abóbada de ossos protege. cumprimos

a liturgia das horas, repetida sem convicção ou

eficácia, e por vezes as palavras começam

a fazer sentido, como os gestos com que

te aproximo de mim, com uma só mão

e algum sono. uma navegação lenta,

familiar e confortável, porque

essa é a melhor forma de te conhecer

os dedos e o modo como os usas

para fazer tranças às horas, como quem

tece cabelos ou desfia um rosário

sem murmúrios, apenas a técnica de rodar

terços e mistérios no fundo da mão

para entreter os pretendentes e 

esperar que eu regresse das longas

viagens - dez anos de cada vez - 

em que me ausento sem sair de casa.

esta tarde estive em Lisboa e trago-te maçãs

vermelhas de uma mercearia da rua dos Lusíadas,

com as quais tenciono adormecer-te (como

na história que contamos todas as noites), porque

é essa a única forma de te conhecer

os medos e interpretar os sonhos, escrever

ao teu lado, enquanto dormes, a lista

das tarefas diárias com que nos ocupamos a

matar o tempo.

 

***

 

tiago araújo

 

*


lido em: resumo a poesia em 2010

publicado por carlossilva às 01:02
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Segunda-feira, 16 de Maio de 2011
john marr e outras leituras

 

Há muito que regressara da viagem

que o conduzia a paisagens onde,

de tão varrida, a linguagem já não

sabia onde se situar na literatura.

Com isso o que aprendera?

Hoje, tinha dificuldade em acreditar

que o quarto que lhe servia de vigia

o poderia salvar do naufrágio por

que se salda qualquer tentativa

de compromisso com o futuro.

Não eram ventos adversos,

ou correntes, mas o estômago

que se resolvia de cada vez

que a mão tocava as asperezas

do fundo. Era assim que queria

ser lido: como um pensamento

que encrespa as imagens e lhes

comunica a energia que, por

escrito, pareciam já ter perdido.

Guardariam as letras o fulgor

do tesouro que hoje, como ruína,

lhe era devolvido? Restaria

outra alternativa que não fosse

a do crime? Quando regressávamos,

as palavras de que nos servíamos

já não tinham qualquer cotação

e uma dúvida perseguia-me:

para se certificar do vazio

valeu sequer a pena ter partido?

 

***

 

théodore fraenckel

 

*


sinto-me: resumo a poseia em 2010

publicado por carlossilva às 12:51
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Domingo, 15 de Maio de 2011
crime perfeito

 

O meu gato branco gosta de brincar

com os papéis amachucados

que deito no lixo. Tira-os do caixote

e esconde-os no odor dos ratos, nos vasos

de flores, pelo quintal. Já fiz desaparecer

muitos poemas que não gostava

assim, sem indícios.

 

***

 

teresa jardim

 

funchal, 1960

 

*


lido em: resumo a poesia em 2010

publicado por carlossilva às 00:20
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Sábado, 14 de Maio de 2011
médio oriente

 

Explode:

as mãos traçam um som insuportável:

a história pára nesse gesto

mas recomeça um pouco mais à frente.

O que sobra de um corpo

é a silenciosa queda dos destroços.

O trigo escurece, as rêses comem a própria carne,

e os gafanhotos anunciam a manhã do ódio:

o desenho do tempo fica dia a dia mais nítido.

 

os vidros resguardam-se do clamor

e nos vasos de begónias floresce o néon.

Sentado à secretária, o homem risca uma palavra,

leva as mãos aos lábios

medita,

e reescreve a morte.

 

como se diz este último resíduo,

estes corpos que irradiam morte,

o anónimo de uma luz insuportável?

como se diz uma palavra

meticulosamente destruída,

estes sons desavindos?

ou uma criança que não sabe correr?

 

a eternidade é a bebedeira dos desesperados:

viagem rápida, dia em estilhas

que acaba em três ou quatro gotas

no vidro da janela:

insectos esborrachados contra um pára-brisas.

 

é preciso decifrar os escombros.

 

***

 

rui nunes

 

*


lido em: resumo a poesia em 2010
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publicado por carlossilva às 00:05
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Sexta-feira, 13 de Maio de 2011
istanbul, ara güller

Dois homens trazem consigo

a sombra de uma conversa

com uma cidade por detrás.

 

O que dizem não se ergue na forma de uma voz.

É o vento, a margem d'água e o ranger

da própria cidade quem termina

o que se podiam dizer.

 

Há uma reserva nas suas palavras,

uma conclusão suspensa por cumprir.

 

Ao mesmo tempo, a névoa ergue-se

sobre a hora em que se encontram

e que nunca poderá ser a nossa.

 

Dois pássaros cruzam-se

em direcções opostas.

Levam uma esperança sem tempo,

perdida.

 

O que destes homens resta

na forma de um voo ou de uma solidão.

Uma forma sensível de exercer a distância.

 

***

 

rui miguel ribeiro

 

*


lido em: resumo a poesia em 2010

publicado por carlossilva às 00:58
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