Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2011
son unha gata en celo

 

Son unha gata en celo, posúote

Iranse perpetuando, con vehemencia

as miñas pegadas na túa pel

Arrólome, miañando involucrada

nunha melodia que precede á cópula

Como preámbulo bailo sen saia

e agardo

a mutua penetración ao lírico universo

dos abrazos

Son comedora de carne

amante tocada pola antropofaxia

aproxímate

que morro por meterche o dente

 

***

cruz martinez vilas

armenteira, 1960

 

*



publicado por carlossilva às 10:54
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011
divisa de terras

O lago quando memoriza objetos indefinidos
Descobre a divisa dos mortos

O tempo dos cavalos que se extraviam
E pelas terras findam no horizonte

Ante o que vê sempre
Seus olhos sondam e caminham a extensão da pele
Com um fim
dentre-dentes

Na construção de uma tempestade:
Ou na
Estática nuvem mímica, aguda
À qual alcançam até as crianças: a festejar o enigma.

Perder a memória das poucas horas -
O medo de não caber no tempo

 

***

karinna alves gulias

nitéroi, 1983

 

*


lido em: http://beggarsbodyart.blogspot.com/search?updated-max=2010-1

publicado por carlossilva às 12:35
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Sábado, 5 de Fevereiro de 2011
para fernando pessoa

 

Acendo um cigarro e esquecido a olhar
entredentes me alheio sem querer
Sobeja de mim o que não sou
Para além disso tudo é demais
De resto só pensamentos são
o que o pensar apenas alcança)
Cansa a companhia do querer
ao que no pensar está
como o incómodo breve duma agitação
d’alma que logo a si regressa
Sossega ó eternidade
que te seja leve a agrura do tempo
o malquerer dos dias
a fadiga de sonhar caminhos
Apaga-se-me o cigarro entrededos
e estranho de mim extingo-me
como coisa de quase nada

 

***

fernando martinho guimarães

alijó, 1960

 

*

 


lido em: http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/10/

publicado por carlossilva às 14:32
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Sexta-feira, 4 de Fevereiro de 2011
rosto

 

Nunca vieste

quando o desejo

fazia um entalhe

de sofrimento e apelo

na polpa, madura, do dia.

 

Nunca vieste

quando um golpe de luar

abria ao lado do meu corpo

um lençol, fresco, para acolher-te.

 

A tua boca não prendeu

a flor dos meus lábios.

Nunca calei no teu beijo

a indizível palavra.

 

Nunca vieste.

 

Respirei-te no sonho.

A morte terá o teu rosto desconhecido.

 

***

luísa dacosta

vila real, 1927

 

*


lido em: A Maresia e o Sargaço dos Dias

publicado por carlossilva às 00:28
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Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011
la manera negra



“El agua de la ducha seguirá desbordando
los ríos de ese cuadro:
pido ser el primero en anotar el cambio
para así irme tranquilo
en el tren que va directo al naranja”.
Un joven extranjero me confió esto;
creyó, el pobre, que yo entendería algo,
no le contrarié: asentí, sonreí, tamborileé
con los dedos en la mesa, vasta
como fotografía terminada.

Tres cafés mas tarde, nos aburrimos; si bien
quedó claro que alguna carta se hundiría en el regazo de una mañana,
sí, de esas que siempre son “cualquiera”.

Voy en bici ahora,
supongo que llegaré a tiempo de cerrar grifos;
si no, pues mala suerte,
tampoco vamos a empezar a desconocernos.

 

***

josé cano

cordoba, 1974

 

*

 

a maneira negra

 

“A água do la chuveiro continuará a transboradar
os rios desse quadro:
peço para ser o primeiro a anotar a mudança
para me ir tranquilo
no trem que vai directo ao laranja”.
Um jovem estrangeiro confiou-me isto;
acreditou, coitado, que eu entenderia,
não o contrariei: assenti, sorri, tamborilei
com los dedos na mesa, ampla
como fotografia terminada.

Três cafés mais tarde,nos entediámos;apesar
de ficar claro que alguma carta se afundaria no regaço de uma manhã,
sim, de essas que sempre são “uma qualquer”.

Vou de bicicleta agora,
suponho que chegarei a tempo de fechar torneiras;
se não, então azar,
também não vamos começar a desconhecermo-nos.

 

[trad; cas]


lido em: http://www.labellavarsovia.com/autores/cano.html
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publicado por carlossilva às 02:00
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Quarta-feira, 2 de Fevereiro de 2011
à volta das coisas

 

tenho medo das linhas
à volta das coisas

linhas de luas lentas
ao longe mas à lupa
ondas rápidas que escurecem
com falta de probabilidade

não existem

linhas quadradas de xadrez
penduradas no Anjo
e desfeitas em renda pela noite
à espera do tempo

entre a laranja e o resto do mundo

tenho medo que não existam
as linhas à volta do meu corpo

 

***

joana espain

porto,1977

 

*


lido em: http://www.avoltadascoisas.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 01:23
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Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011
um campo batido pela brisa


A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

 

***

fernando assis pacheco

coimbra, 1937 - 1995

 

*




lido em: A Musa Irregular

publicado por carlossilva às 12:51
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