Terça-feira, 9 de Novembro de 2010
arte poética

 

Olhar o rio que é do tempo e água

E recordar que o tempo é outro rio,

Saber que nos perdemoscomo o rio

E que os rostos passam como a água.

 

Sentir que a vigília é outro sono

Que sonha não sonhar e que a morte

Que teme a nossa carne é essa a morte

De cada noite, que se chama sono.

 

Ver no dia ou até no ano um símbolo

Quer dos dias do homem quer dos anos,

Converter a perseguição dos anos

Numa música, um rumor e um símbolo,

 

Ver só na morte o sono, no ocaso

Um triste ouro, assim é a poesia

Que é imortal e pobre. a poesia

Volta como aurora e o ocaso.

 

Às vezes certas tardes uma cara

Olha-nos do mais fundo dum espelho;

A arte deve ser como esse espelho

Que nos revela a nossa própria cara.

 

Contam que Ulisses, farto de prodígios

Chorou de amor ao divisar a Ítaca

Verde e humilde. A arte é essa Ítaca

De verde eternidade e não prodígios.

 

Também é como o rio interminável

Que passa e fica e é cristal dum mesmo

Heraclito inconstante, que é o mesmo

E é outro, como o rio interminável.

 

***

jorge luis borges

buenos aires, 1899 -1986

 

[trad. ruy belo]

*************************


lido em: Poemas Escolhidos

publicado por carlossilva às 15:17
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Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010
gotas e vibratos

 

ch...

chiu

cheira a ch...

cheiro café Ah! cheira a

ssssuor sabor

cheira a sssabão

ch... Torrar Torrões Torrada Terra

vermelha e cor de café

Cheira a goivos, a café com leite, a manhã cedo, a laranjas no ar,

ch...

heira a menina avó nova velha mão coração

Cheira a pão e a sss sangue novo

óleo, montanha, vale

levantar e cair.

Transborda

longe e perto

Cheira a m mm mmmulher

Cheira a m mm mmmulher

ss__ sede

sss__ segredo

sss__ sopro

ssss__ sexo

sssss__ silêncio

ssssss_ só

sssssss_ sussurro

essência baloiço num embalo

um céu cheio de aromas

ch... chiu ch...

sss__ som

sss__ soa

Arfando num bafo quente

esta cidade está cheia de cheiros!

 

***

cristina benedita

algés, 1966

 

*********************


lido em: A Boca Perfumada

publicado por carlossilva às 10:50
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Domingo, 7 de Novembro de 2010
magro, de olhos azuis, carão moreno

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno

Bem servido de pés, meão n'altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto ao meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno

Mais propenso ao furor do que à ternura,

Bebendo em níveas mãos por taça escura

De zelos infernais letal veneno;

 

 

Devoto incensador de mil deidades,

(Digo de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades;

 

Eis Bocage, em quem luz algum talento:

Saíram dele mesmo estas verdades

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

***

bocage

setúbal, 1765 - 1805

**********************


lido em: Sonetos

publicado por carlossilva às 00:55
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Sábado, 6 de Novembro de 2010
portugal sacro.profano vila do conde

 

O lugar onde o coração se esconde

é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar

e o poeta solitário escolhe igreja pra casar

O lugar onde o coração se esconde

é em dezembro o sol cortado pelo frio

e à noite as luzes a alinhar o rio

O lugar onde o coração se esconde

é onde contra a casa soa o sino

e dia a dia o homem soma o seu destino

O lugar onde o coração se esconde

é sobretudo agosto vendo música raparigas em cabelo

feira das sextas-feiras gado pó e povo

é onde se consente que nasça de novo

àquele que foi jovem e foi belo

mas o tempo a puco e puco arrefeceu

O lugar onde o coração se esconde

é o novo passado a ida pra o liceu

Mas onde fica e como é que se chama

a terra do crepúsculo de algodão em rama

das muitas procissões dos contra-luz no bar

da surpresa violenta desse sempre renovado mar?

O lugar onde o coração se esconde

e a mulher eterna tem a luz na fronte

fica no norte e é vila do conde

 

 

ruy belo

s. joão da ribeira (rio maior), 1933- 1979

*********************



lido em: homem de palavra[s]
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publicado por carlossilva às 00:35
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010
eu me perdi

 

Eu me perdi na sordidez de um mundo

Onde era preciso ser

Polícia agiota fariseu

Ou cocote

 

Eu me perdi na sordidez do mundo

Eu me salvei na limpidez da terra

 

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar

E nunca

Um navio da costa se afastou

Sem me levar

 

***

sophia de mello breyner andresen

porto, 1919 - 2004

*****


lido em: Oobra Poética

publicado por carlossilva às 00:23
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2010
o quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinquenta

derrapei neste amor. Que dor! que pétala

sensível e secreta me atormenta

e me provoca a síntese da flor

 

que não se sabe como é feita: amor,

na quinta-essência da palavra, e mudo

de natural silêncio já não cabe

em tanta gesto de colher e amar

 

a nuvem que de ambígua se dilui

nesse objecto mais vago do que nuvem

e mais defeso, corpo! corpo, corpo,

 

verdade tão final, sede tão vária,

e esse cavalo solto pela cama,

a passear o peito de quem ama.

 

***

carlos drummond de andrade

itabira de mato dentro, 1902 - 1987

********************************


lido em: Antologia Poética

publicado por carlossilva às 00:28
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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2010
27.

 

Amanhã

quando acordares sem mim

talvez te sintas livre

.........................feliz

.........................independente

 

 

E depois-depois

na hora em que acordares

(sem mim)

eu estarei lá

sentada no parapeito do teu desespero

a sorrir cinicamente

e a dizer bom-dia!

 

***

manuela amaral

lisboa, 1934-1995

*******************


lido em: Amor Geométrico

publicado por carlossilva às 09:11
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Terça-feira, 2 de Novembro de 2010
os perigos do êxtase

 

Cozer um ovo:

êxtase maior.

Os minutos de cor:

um desafio.

 

E a cor

que a casca ganha

tão gratuita

e bela

 

desfaz-se perante

a gema,

monótona, amarela

 

quando o real

invade

e se estilhaçam luzes

da cozinha

 

***

ana luísa amaral

lisboa, 1956

 

******************


lido em: Entre dois rios e outras noites

publicado por carlossilva às 09:51
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2010
ícaro

 

Da Mafalda estorva-nos

a memória dos gregos

É um anjo negro segregado

e assim goza

de asas sussurrantes

Desce por entre

intervalos do vento

e findo o voo refunde

o modelo de cera

Como qualquer pássaro faz ninho

ele no vestido das mulheres

Sem céu fixo

exala a plumagem

da comum nudez interrompida

 

***

sebastião alba

azeitão, 1924 - 1952

********************


lido em: A Noite Dividida

publicado por carlossilva às 11:09
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