Sexta-feira, 18 de Junho de 2010
um beijo

 

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso do prazer.

Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor "à escuta"
diria meu amor

 

***

 

ana c.

 

(rio de janeiro, 1952)

 

**************************


tags:

publicado por carlossilva às 11:37
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 17 de Junho de 2010
canção do exílio

 

Minha terra tem macieiras da Califórnia
onde cantam gaturamos de Veneza.
Os poetas da minha terra
são pretos que vivem em torres de ametista,
os sargentos do exército são monistas, cubistas,
os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir
com os oradores e os pernilongos.
Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.
Eu morro sufocado
em terra estrangeira.
Nossas flores são mais bonitas
nossas frutas mais gostosas
mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade
e ouvir um sabiá com certidão de idade!

 

***

 

murilo mendes

 

(minas gerais, 1901 - 1975)

 

***************************



publicado por carlossilva às 15:26
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 16 de Junho de 2010
quase haiku

 

Sobram insones rumores infernais
como que viesse uma tempestade avassalar
os desígnios d’outra moldura

 

***

 

lopito feijoó

 

(malange, 1963)

 

*****************************



publicado por carlossilva às 12:06
link do post | comentar | favorito

Quarta-feira, 9 de Junho de 2010
soneto da fidelidade

 

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

 

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

 

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

 

Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

***

 

vinicius de moraes

 

(rio de janeiro, 1913 - 1930)

 

***************************



publicado por carlossilva às 11:24
link do post | comentar | favorito

Terça-feira, 8 de Junho de 2010
vamos morrer tão nus como nascemos

vamos morrer tão nus como nascemos.
vamos morrer num dia tão frio como o nosso cadáver,
de estômago vazio.
tão cedo caminhamos e dissemos as primeiras palavras,
que nem sabemos quais,
e, por um fenômeno biológico que depois nos foi completamente explicado,
aceitamos o corpo nas suas imperfeições,
e, da cabeça para baixo,
vimos as pernas, os pêlos, e os órgãos a crescer,
como se olhos fossem a porta de uma casa.
esquecer é estar vivo,
pecar é não estar vivo.

 

***

 

alice macedo campos

 

(penafiel, 1978)

 

***********************


lido em: http://alicemacedocampos.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 16:22
link do post | comentar | favorito

Segunda-feira, 7 de Junho de 2010
ronda

Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...

Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
Na dança dos meses
meus olhos choraram

Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!

Na dança dos meses
meus olhos cansaram...

Na dança do tempo,
quem não se cansou?!

Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...

Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?

 

***

 

alda lara

 

(benguela, 1930 - 1962)

 

***************************


lido em: http://www.lusofoniapoetica.com/index.php/artigos/poesia-ang
tags:

publicado por carlossilva às 13:17
link do post | comentar | favorito

Domingo, 6 de Junho de 2010
lince

 

Aprendendo a mímica do lince podes

amar a morte. Uma aprendizagem exa

cta. Seguir o contorno pardo, pontiagudo,

das pequenas orelhas. Desenhar o sombre

ado dos olhos finos. Na morte há

um perfil especial. Fulgurações que des

lizam no ritmo dos passos. Um andar

alongado de colina para colina. Não

temas o fim como os outros seres

vivos que amam a própria morte.

A sua silhueta articula-se com um o

bjecto artificial. Recorda os ângu

los com maior espessura do que

numa superfície de mármore. Mostra

o acetinado do pêlo em chispas.

Um espelho para reproduzir as

mutações da vida. Aprender um desenho

mais profundo do que o do prateado

do vulto. O que nos fulmina é

belo como a última queda depois

de um salto livre entre as montanhas.

 

***

 

fiama hasse pais brandão

 

(lisboa, 1938)

 

************************


lido em: animal animal - um bestiário poético

publicado por carlossilva às 16:59
link do post | comentar | favorito

Sábado, 5 de Junho de 2010
o grilo

 

o grilo

não só de ouvido

eu cri-qu´ria sabê-lo

não só de gaiola cati

vá-lo mas dáctilo

grafá-lo copiar

seu abc de pobre

 

***

 

alexandre o'neill

 

(lisboa, 1924 - 1986)

 

**********************


lido em: animal animal - um bestiário poético

publicado por carlossilva às 13:07
link do post | comentar | favorito

Sexta-feira, 4 de Junho de 2010
dona doida

 

Uma vez, quando eu era menina, choveu grosso

com trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.

Quando se pôde abrir as janelas,

as poças tremiam com os últimos pingos.

Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,

decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.

Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois.  Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.

Meus filhos me repudiaram envergonhados,

meu marido ficou triste até a morte,

eu fiquei doida no encalço.

Só melhoro quando chove.

 

***

 

adélia prado

 

(divinópolis (MG) - brasil, 1935)

 

*****************************



publicado por carlossilva às 13:39
link do post | comentar | favorito

Quinta-feira, 3 de Junho de 2010
inscrição para um portão de cemitério

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce - uma estrela,
Quando se morre - uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

 

***

 

mário quintana

 

(alegrete, 1904 - 1994)

 

*****************************



publicado por carlossilva às 15:01
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
agenda
18 de abril 2013 19 de abril 2013
Junho 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
14
15

18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

fogo e água

pára-me de repente o pens...

si digo mar

infância

trapo de voz representa o...

nana para gatos a punto d...

sou uma coluna crematória

dois poemas

nacín vello de máis

uelen

arquivos

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

a m pires cabral(4)

adelia prado(5)

adilia lopes(8)

al berto(6)

alba mendez(4)

albano martins(4)

alberte moman(8)

alberto augusto miranda(9)

alexandre teixeira mendes(11)

alfonso lauzara martinez(8)

alice macedo campos(13)

alicia fernandez rodriguez(5)

almada negreiros(4)

amadeu ferreira(8)

ana luísa amaral(6)

ana marques gastao(4)

andre domingues(5)

andreia carvalho(4)

antonio barahona(5)

antonio cabral(5)

antonio gedeao(5)

antonio ramos rosa(7)

anxos romeo(4)

ary dos santos(5)

augusto gil(4)

augusto massi(4)

aurelino costa(11)

baldo ramos(6)

bruno resende(5)

camila vardarac(9)

carlos drummond de andrade(5)

carlos vinagre(13)

cesario verde(4)

concha rousia(4)

cristina nery(5)

cruz martinez(9)

daniel filipe(5)

daniel maia - pinto rodrigues(4)

david mourão-ferreira(6)

elvira riveiro(8)

emma couceiro(4)

estibaliz espinosa(7)

eugenio de andrade(8)

eva mendez doroxo(8)

fatima vale(10)

fernando assis pacheco(4)

fernando pessoa(5)

fiamma hasse pais brandão(5)

florbela espanca(7)

gastão cruz(5)

helder moura pereira(4)

ines lourenço(6)

iolanda aldrei(4)

jaime rocha(5)

joana espain(10)

joaquim pessoa(4)

jorge sousa braga(6)

jose afonso(5)

jose carlos soares(4)

jose gomes ferreira(4)

jose luis peixoto(4)

jose regio(4)

jose tolentino mendonça(4)

jussara salazar(6)

luis de camoes(5)

luisa villalta(4)

luiza neto jorge(4)

maite dono(5)

manolo pipas(6)

manuel alegre(6)

manuel antonio pina(8)

maria alberta meneres(5)

maria do rosario pedreira(5)

maria estela guedes(7)

maria lado(6)

maria teresa horta(5)

marilia miranda lopes(4)

mario cesariny(5)

mia couto(8)

miguel torga(4)

nuno judice(8)

olga novo(17)

pedro ludgero(7)

pedro mexia(5)

pedro tamen(4)

raquel lanseros(9)

roberta tostes daniel(4)

rosa enriquez(6)

rosa martinez vilas(8)

rosalia de castro(6)

rui pires cabral(5)

sophia mello breyner andressen(7)

suzana guimaraens(5)

sylvia beirute(11)

tiago araujo(5)

valter hugo mae(5)

vasco graça moura(6)

virgilio liquito(5)

x. m. vila ribadomar(6)

yolanda castaño(10)

todas as tags

links
pesquisar
 
blogs SAPO
subscrever feeds