Terça-feira, 11 de Maio de 2010
com quanto de morango eu me encharco nos seios

 

Com quanto de morango eu me encharco nos seios
assim retomo a actividade ensopado em chicletes
atomatadas de a mais

remo aos miradouros dos sinos numa esquadra de chips
assombro-me por dilúvios parassimpáticos
e remenstruo as rugas fleutóxicas
do disparatado desassossego
das ruas
escurece o coração
e
bombeadas de tromboses tectónicas
e de abismos
perdem-se nos círculos da cidade
as especulações narcóticas do dilatado
complexo temporal das focas

 

***


carlos pinto vinagre

 

(espinho, 1988)

 

*******************


lido em: http://carlosvinagre.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 11:57
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Segunda-feira, 10 de Maio de 2010
[a estranxeira inventa a utopía...]

 

A estranxeira inventa a utopía, os finísimos dedos de Astarté

ou de como o meu sexo me obrigou a escribir contra o meu proprio sexo

 

dese deber

falo no poema

 

e en tanto pido teta pola deusa que morreu

como un meniño cadavérico e doente.

 

A estranxeiro coloca unha máscara e féreme a man

doe apenas pero a carne xamais cicratiza. Permanece marcando.

Escribe por min.

 

Por iso o meu poema é só un acto de vinganza. Ningunha <<árvore esquelética>> foi plantada nel

nin nel o pubis de miña Señor recende a crepúsculos de antano e primaveras frolescentes. Crédeme:

só a carraxe motiva a miña escrita. Como à estranxeira a carauta.

Así o meu odio visceral de neno mordido. O meu verso

violento.

 

Sabede que falo coa certeza de ter sido atado de pernas e brazos.

Ocorreu aquí (no poema); alguén me castrou

agora suxéitame a columna unha vara de medir a terra do inimigo, algo tribal

por suposto ferinte

e salvaxe

o terror de París

parello ao da língua que resiste á diferenza. O do texto

caníbal.

 

Sabede que algún dá escribirei sobre como os resentidos fomos castrados

em que lugar sucedeu

e canto tempo lles bastou a aqueles que tiveron a ben antecederme

para romperme a boca

 

***

 

gonzalo hermo

 

(a coruña, 1987)

 

**************************


lido em: http://www.elcorreogallego.es/suplementos/revistasletras/

publicado por carlossilva às 12:00
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Domingo, 9 de Maio de 2010
paragem

Vamos todos aprender no ensinar a não fazer
Vamos ser a não fazer nada do que sabemos fazer
É assim que interessamos
É assim paciência
Sim, vamos simplesmente imitar os que não fazem
E fazer que fazemos
A deixar que a morte se antecipe nessa ordeira e fatal vida
Deixemos pois que se faça vivas a essa vida morta logo à nascença


Bebe um só trago dessa água que sabes que te irá contaminar
E verás como te sentirás da tua embriaguez
Toma mais
E deixa-te com todos os remédios que te aconselham a estar nesta vida
Deixa-te levar por aí por toda essa subtracção que te colhe os sentidos
E ensaia-te experimentando todos os dias a remar nesse contrário
E ao longo de um pouco do muito do teu tempo
Verás como te sentes
Que cansativa e rasteira vida
Doem-te as costas e sentes o quanto se está parado

E os outros, os que fazem que fazem que estão fazendo
E simplesmente fazem porque fazem
Ou porque têm de fazer porque é assim e paciência
No porque há ainda muito para contaminar no depois curar a lucrar
Ah, esses também estão bem mal
Sim, esses que se afogam de contentes
Os do ora-sim-ora-não ou os tais de vencidos ou vencedores dessas lides

São estas resumidas e iguais vidas todas mal paradas
Neste pouco sentido do muito que não se pode fazer porque é assim paciência
Valham-nos pois, os deuses que se alegram desta podridão de tão grande pobreza


E calhar-nos-á talvez um dia um canteiro
Deitado à beira daquela estrada
Circundado por quatro caiados muros e um portão de que entrada
E que por sinal jamais te pisarás

 

***

 

alice valente alves

 

*************************


lido em: http://andar21.fiestras.com/servlet/ContentServer?pagename=R

publicado por carlossilva às 12:23
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Sábado, 8 de Maio de 2010
chegar

 

Aonde antes podia chegar, a noite

formava um recado sujo e a certeza

de um mundo repetível, um espelho

quebrado - tantas as lâminas

como as memórias.

 

Aonde antes podia chegar, a noite

transportava um remetente aguardado,

nocturno, guiava-me pela memória

de desabitados lampiões.

 

Aonde depois cheguei, a noite

reescreveu à pressa o coração.

E riscou a morada,

para não ter outro regresso.

 

***

 

rui miguel ribeiro

 

***************************


lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 21:12
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Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
20030710 (ma fantastique escrime)

 

Cutucando a musa pelos campos de limão

Ferro comum onírico riscando o corpo farto

De sal ferido que é a palavra

Semeadura de sombras: portal de peregrino: enfarte e miocárdio

Cutucando a musa pertinaz e negativo

Aprendo a cair pedaço a pedaço

Como quem da vida desce ainda

- Luiza, a uma hora destas?!

Sem curar de todo, sem descrendo

Que a luz retida nos teus olhos é -

 

Mas não é no fim que tudo acaba.

 

***

 

jorge fazenda lourenço

 

 

*************************


lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 13:17
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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
em tempo de miséria

 

desço por um jardim transparente

entre lodo e hortelã

 

andam assistentes sociais pelo bosque

à procura de pobres

agitam contam e berlindes

 

acaba aqui a rédea solta, há que escolher as armas

 

troco à sombra do derradeiro cipreste

dois versos e um dedo

por uma noite de sono e um detonador

 

***

 

joão almeida

 

*****************


lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:20
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Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
nutrición



do corpo exposto agardando o cataclismo
do catecismo tóxico das horas
das amoras da necrose
amor
da podremia das amoras
ou da inclemencia calendaria
só deglutir a casca co compango
dun viño morno de chuvia polos peitos
do prebe nutricio da carne transparente
do vexetal bocado do desexo

mesmo pairando sobre o gozo
un futuro preñado de osamentas

 

***

 

elvira riveiro

 

(cunchido - pontevedra, 1971)

 

**************************************


lido em: http://bvg.udc.es/ficha_autor.jsp?id=ElvRivei1&alias=Elvira+

publicado por carlossilva às 12:29
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Terça-feira, 4 de Maio de 2010
o azul das sombras



Não sei se foi a tonalidade azul do meu corpo
tingido pelo teu olhar
ou os segredos de lâmina
que te queimavam as feições vítreas.

A verdade é que todos os gestos se calaram à tua passagem
mas, ainda assim, eu sabia da existência de um timbre negro
que fervilhava à mesma altura dos sonhos.

A partir daqui nenhuma lágrima teve o feitio de antes
e só consigo escrever letras vivas,
as que isolam o passado da vida.

Comparo a escrita a uma caneca de vinho
que destila as memórias
até que estas tenham a dimensão de um silêncio estreito.

Deixei um recado aceso no teu sono
porque a música acabou antes da noite
e nunca mais falaremos um do outro.

Fecho-me em casa a praticar uma arte arte marcial desconhecida.
Sei que o mundo desliza delicadamente para os jornais
e isso basta-me.

Pega num pedaço destes versos e coloca-o junto aos ouvidos:
é por baixo desta paixão áspera
que te dedico o meu terror.

As pálpebras gritam o peso de um oceano.

O mundo fuma a minha morte.

 

***

 

sara costa

 

(cucujães, 1987)

 

*******************


lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

publicado por carlossilva às 13:06
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
memória de abílio belo-marques

 

Os dois bebemos a noite toda, sem parar,

entre conversas, onde nada se dizia

e tudo se calava em gritaria

sem medo de cantar.

 

Oh, a minha primeira noite sem dormir!

E vi nascer o dia, à chuva, deslumbrado,

cambaleando em passo lento, enlameado,

com medo de cair.

 

Contigo contemplei, em tom profundo,

a cor da lucidez do vonho vivo,

vagabundagem com som próprio e sentido,

até ao fim do mundo!

 

***

 

antonio barahona

 

********************


lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 11:03
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Domingo, 2 de Maio de 2010
espécie


Uma espécie.
Mastigar os passos ardentes
Aí se fecham os sítios
a que vou pertencer.

encontrar uma presença
talvez de deuses,
o que ardia em convulsão

quando o claustro abriu latejei.
Como é redimível
a confissão.

Lembrar-te-ás ainda que existo
de cama
nesta casa fechada

Não tem nome este corpo de ideia.
O efémero ganha apoteose de destino
heresia viva
à última vela, a tua mão prendeu-me o braço
quando todos os meus nervos estavam a rogar

escorrego,
na casa de espelhos da poesia,
rasgas a camisa, tornas.

Esmago a tâmara,
recordo sempre.

 

***

 

luísa mota


(lisboa, 1972)

 

**********************


lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 08:11
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