Sexta-feira, 21 de Maio de 2010
cluster

 

e na luz inadequada se move o teu corpo como

algo por dizer,

projectante sem confundir o interior da mão

com um rosto que baixou ao subsolo do silêncio.

e imaginarás algo.

e pegarás no teu ponto. na tua vírgula.

gritarás um verso sem que as palavras individuais

o notem, o oiçam a perfurar o seu

próprio verbo.

e arremessando esse ponto, e essa vírgula, ambos

em direcção ao céu introspectivo e especulativo

das cores que lhe concretizam a profundidade, ganharás

tempo; tempo para que o verso se espalhe a partir

do seu gomo infindável,

contamine o eco difuso da mão de vidro, guarde

o bom-senso de um revólver que espera atento

a morte que falta a um corpo.

e não tarda regressarão caindo com a mesma força

que aquela que usaste para cima: o teu ponto magnífico,

a tua vírgula com material e forma de lupa,

como pregos por cima do teu verso com

formato de raio e cuidado, com laringe de flecha e erro,

com lisonjeio sobre o tempo invertebrado.

quando caírem sobre ti, sobre o teu regresso íntimo,

saberás por onde continuar, e sobretudo: onde parar.

 

 

 

***

 

Sylvia Beirute

 

(faro, 1984)

 

*********************


lido em: http://sylviabeirute.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 12:31
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Quinta-feira, 20 de Maio de 2010
acabou o sonho!

 

entre o ontem e o hoje o tempo deixou de ter medida.

soluçam estágios entre a dor e a devastação do ser.

que frágeis e instáveis são os sorrisos!

basta que caia uma só gota ácida de chuva sobre a aparente veste de felicidade.

basta que um grão de chão se evada no sopro do vento.

basta que uma palavra fuja e esbarre no preconceito ou que uma outra não parta nunca.

e tudo se desmorona!

entre o hoje e o amanhã a medida será incerta e o dilúvio tomará conta do tempo.

uma nova tempestade relampeja entre cada pestanejar.

cega!

não há chão,

não há leito,

não há céu.

as pernas deixam de saber caminhar.

cresço no sentido inverso.

as entranhas tolhem-se e arrefecem.

e pensava eu que a vida estava a recomeçar!

 

***

 

luísa azevedo

 

(lisboa, 1964)

 

****************************


lido em: http://pin-gente.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 14:43
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Quarta-feira, 19 de Maio de 2010
debe ser a máxima pel

Debe ser á máxima pel
estatua de bágoas pétreas
salgando a morte por auga


que cando a luz acontece
corpo en diagonal extensa
sobre o mar de-leite fóra


nas branquias buscas débiles
cal abandono sangrando
algún cristal de boca lento


tan próxima entrada no mar aterra

 

***

ana cibeira

 

(caracas, 1977)

**********************


lido em: http://andar21.fiestras.com/servlet/ContentServer?pagename=O

publicado por carlossilva às 13:36
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Terça-feira, 18 de Maio de 2010
às vezes há focinhos que me preparam a noite

 

às vezes há focinhos que me preparam a noite
e não sei se continuarei viva.
às vezes a casa tem tantos cantos
que a minha silhueta é salgada
e tenho navios na ponta dos dedos.
o travo que me acaricia tem um infinito
e as minhas pálpebras são as conchas da harmonia do meu corpo
sempre que as encontro.

um tornado traz as sementes das borboletas que duram pouco
entre as vértebras entre o pólen da terra, pernoito
a rodear os nervos do meu peito crucificada
e se eu conseguisse esboçar o vento
seria de precipícios diariamente
e do mortal brilho do meio-dia.

queria destruir um texto com flechas acesas completamente nas mãos
e morrer assim de Verão
em azulejos brancos numa gruta
e o meu cérebro a pique
rotativo e poderoso
como a energia da lua
e agarrar pérolas no coração.

há um sítio astrológico
de cavernas corais
e cristais extensos
que sai do corpo. os mortos levam-me neles
porque tenho arrozais de flores brancas
que me cercam a respiração.

os lençóis onde irei cair são molhados a prata
e a candeias dos palácios.

 

***

cristina nery

 

(viseu, 1978)

 

**********************


lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

publicado por carlossilva às 11:24
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Segunda-feira, 17 de Maio de 2010
ferir

 

Quase no fio da lâmina, rezou a antecipação de cinco segundos

Um escritor deixou de caminhar, e fechando os olhos, chora, enquanto sorri.
Enquanto se manifesta na forma que não parece natural, entra num estado de subtil demência, onde encontra o mimo nas falas dos dias. Traduz céus e mares, sempre distante do mundo, mas não o ignorando.

A navalha aproximava-se, restavam 3 segundos.

Conseguiu pensar em mudar, e superar as concepções originais do que eventualmente escreveu e disse, quer por gestos quer por tintas, mas aí só a alma que possuía ousava acudi-lo, e isso levantava um apocalipse apenas previsto nos finais anos das suas obras, dormir seria melhor, mas contradizer o próprio ser tornou-se a filosofia predominante. Enquanto sentia tremores nos dedos, providos do desejo de afogar aquela armadilha que era elevar o lápis à testa, a navalha aproximou-se.

Um corte, no entanto imunidade, tão mortal como um astro, fez a pele brilhar esquecendo a certeza de que os mimos não sangram.

 

***

 

henrique apolinário

 

*************************


lido em: http://arditura.blogspot.com/search/label/henrique%20apolin%

publicado por carlossilva às 15:14
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Domingo, 16 de Maio de 2010
fazer milagres dá muito trabalho


Passórun cientos d'anhos a fazer milagres,
i fúrun ajuntando seclos de canseiras.

Fazer milagres dá muito trabalho,
i bai-se perdendo la fé
quando ralamente dan cierto,
menos que las fuorças pa ls fazer.

Un die cansórun-se i fúrun-se
a bagamundar por tierras
culs milagres todos yá feitos
ou donde custáran menos a fazer.

Passórun cientos d'anhos, por milagre.
Nien milagres le balírun.

 

***

 

amadeu ferreira

 

********************




publicado por carlossilva às 14:52
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Sábado, 15 de Maio de 2010
dom são sebastião: as rendas

Todo o meu apelo vai nas ondas
E pelas ondas vem a tua voz chamar-me
À praia do Tamariz
Se quebram leves rendas à roda do pescoço
Beijam-te o rosto de flor de lis.
É tão grande o desejo como o mar.
O Atlântico atrai para o deserto
Onde sem lápide hás de jazer reinando
Per saecula saeculorum
Sem Amen na prece a rematar.
Santo, eu, per saecula saeculorum
Ficarei rezando. Amo-te, Sebastião,
Ó flor imarcescível!
Meu cavaleiro da noite, meu lençol de esperma
Coalhado, em que estrelas choram por seres tão casto.
Olha que mais rebelde à morte, mais que tu, rei herói,
Sou eu, Sebastião, que não fui rei nem casto
Mas que sou soldado, gay e corajoso mártir.

 

***

 

maria estela guedes

 

(britiande - lamego, 1947)

 

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lido em: geisers

publicado por carlossilva às 11:10
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Sexta-feira, 14 de Maio de 2010
nas vagas do tempo

Suspensa dos pêndulos do tempo, vivo à velocidade
dos relâmpagos, flor alucinada, pousada entre os ventos.
Nas metamorfoses do silêncio, nas nervuras do céu,
penetro e habito, nos nervos do sílex pernoito,
nas giestas habito, nas flores amarelas,
nas ramagens aéreas, é que o meu cérebro se espraia
e o meu corpo refulge, se estende e dormita.

Trepanando a tépida imensidão, a urgência do sol circula,
em ondas verdes, em ondas brancas,
em substâncias fendidas, em areias esquecidas,
em palmeiras lunares, descobertas em paraísos distantes.

Entre os desertos e os oásis, o destino da água desenha,
nos remos de neblina, o lugar onde as palavras constroem
de novo a espiral de bruma, a chama, a sede,
o azul e os violinos.
Na salsugem marinha, no leito dos rios, nos limos,
nos cardos, habita o fogo, a ruína, a transparência.
No imenso ardor que guarda a febre e os murmúrios,
a vertigem de espuma desperta, nos casulos do nada,
a carícia exacta que flutuou, um dia,

no selo luminoso das vagas do tempo.

 

***

 

maria do sameiro barroso

 

(braga, 1951)

 

***********************


lido em: http://www.triplov.com/letras/maria_do_sameiro/2008/vagas.ht

publicado por carlossilva às 10:44
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Quinta-feira, 13 de Maio de 2010
o criador-espião de almanaques retorna ao claustro dos embarcadouros

O criador-espião de almanaques retorna ao claustro dos embarcadouros
para orvalhar as gadanhas alucinadas dos tocadores com a pólvora vocabular dos cardumes
onde a tradução mineralizada da fogueira hiemal gorjeia sobre os entalhes das forquilhas-áticas
e os frémitos dos peixes parecem os pilares
das gengivas das ceifas marítimas
quando perseguem as toucas didácticas dos madrugadores dançarinos
que sobrevoam electricamente
as portinholas das gigantescas margens
Invariavelmente os arames elegíacos do pente-do-mar
avolumam os heterónimos
do rosto ciclónico entre os vimes lunares dos aeroportos munidos de licores-passaportes
As faixas de sabonetes soluçam no contágio das rendas das varejadoras perfiladas e dobradas aceleradamente
sobre o cotão metaliforme dos malhadouros
das minerações exiladas
que alteram o escalonamento das caixas-de-ar
como se fossem feixes gaguejados a desabarem na síntese dos cavadores de fósseis
As rebentações dos folículos terrestres ostentam
os truques ambulatórios dos testemunhos solares
como as sentenças dos xistos a orquestrarem os minúsculos impressores das hastes dos açudes
onde a exiguidade dos solavancos dos olhares-da-formiga-curandeira desincorpora as nevroses das propagadoras de semáforos

 

***

 

luis serguilha

 

(famalicão, 1966)

 

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lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

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Quarta-feira, 12 de Maio de 2010
23:23

 

De pé, ofegante, apareci à ponta do passadiço, perpendicular à praia.
Entranhei-me, paulatinamente, no areal até às espumas e às estrelas espremidas,
sem luar à vista.

Em flash, evoquei como em criança (e ainda adolescente),
durante a viagem da manhã de autocarro para a escola,
me apetecia abraçar toda a paisagem que os olhos conseguissem alcançar
e tinha vergonha que me lessem os sentimentos naquele mirar aéreo e excessivo.

Lá, no passadiço, não foi a minha pequenez,
face à (in)finidade daquele oceano e firmamento,
que me resgatou
: foram as respirações completas [simultâneas] com tudo o que ali respirava.
Imissa e simbiótica respirava.

Reergui-me
– Órgão da Paz –
perplexa, diáfana, incomensurável,
muito além das traves de madeira que pareciam suster-me os pés.

E devo ter sido feliz, porque não tenho memória de SER tão inteiramente livre,
livre até de mim,
sobretudo quando, subitamente, compreendi que aquele
Silêncio
de brisa em brandas ondas nocturnas e aromas a flora de dunas primaveris
era, afinal, tão importante e pleno de budeidade
como o trash-metal, a bombar toda a tarde, do meu vizinho do 1º andar.

 

***

 

suzana guimaraens

 

*******************


lido em: http://aalmaemcoisas.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 11:31
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