Terça-feira, 20 de Abril de 2010
estes lugares

 

São estes os lugares. Não evocam bosques

nem segredos, não chegam a cobrir

o passado com a crosta de uma sombra -

rasgo a boca e o gosto da lama

espalha-se. No entanto, dobra sem

porquê, retorno sempre a estes espelhos

marcados por dedos crespusculares,

às frias ruas de Novembro, à praia onde

trocámos por um cachecol a primeira traição,

ao fim da noite no descampado,

ao asfalto molhado do coração, a portas

onde o desejo bateu para não morrer.

São os nossos lugares. Como nosso é

o ardor na garganta pela manhã, a radiação

da veia a latejar, uma lasca de madeira

entre a carne e o osso, a visão do avô

paterno, numa fotografia, a cavalo,

a súbita amputação das pernas, a terra perdida,

o tanque vazio da quinta, a blusa que sobrou

de um corpo, lugares onde é mais liso o arco

da dor e o pensamento se fere, silencioso, como um bicho.

Por eles volto a acreditar na escuridão e na luz.

 

***

 

luís filipe parrado

 

(seixal, 1968)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:14
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Segunda-feira, 19 de Abril de 2010
duelo

 

Ao desobediente sorriso da figueira

o gato mostrou melancolia às riscas.

 

***

 

luís serra

 

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 09:51
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Domingo, 18 de Abril de 2010
um poema antigo

 

Repetir os nomes das árvores:

olaia, bétula, negrilho, alfarrobeira;

a cerejeira do fundo dos muros e os admiráveis

brincos da infância; o carvalho negral

e as folhas ténues trazendo às colinas

os primeiros meses de Abril.

Dizer em voz alta os nomes

dos lugares onde parece

que o mundo se suspendeu

para que pudéssemos regressar

à água e ao lume, à terra

e ao éter e à varanda incandescente

das tardes de Verão: Gardunho

e Segirei, Cacela, Voluntário, Vilarinho

Seco. Roubar à caligrafia

os nomes da manhã acabada de nascer:

nuvem onde poisamos as mãos.

 

***

 

josé carlos barros

(boticas, 1963)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:23
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Sábado, 17 de Abril de 2010
dentro das imagens

 

Os poemas têm veneno na boca

 

Na estrada da minha vida

plantei a árvore

sem saber quem era.

 

Em que parte do planeta

há mais ódio? A matéria

erosiva transforma o corpo

e não há regresso. Não

restará um monte de estrume.

 

Em todo o lado

parece que o mundo em desordem

pouco a pouco enlouqueceu

e os homens atam a corda

à espera que aconteça.

 

São infelizes

mas não o suficiente.

Não sabem dizer

por que se esquecem de amar.

 

***

 

isabel de sá

(esmoriz, 1951)

 

***************



publicado por carlossilva às 14:10
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010
um poema para uma fotografia

 

chama-se marília

está de costas e não ouve o que penso.

a esta distância, poderia matá-la.

o seu cabelo, diz-se,

é como as crinas de um cavalo em fuga.

encolhida como está, não o vejo.

digo o seu nome para que se volte,

a minha voz solta.

subindo de tom entre sílabas,

antecipando o voo circular de aves pretas,

a resolução do seu olhar para esta noite,

a definição geral da vida,

ou a expliucação só deste momento,

mas não se volta.

descalça-se e começa a despir-se

mecanicamente,

concentrada na sua tarefa,

fria, profissional,

facilmente se vê que é competente,

indiferente a quem está atrás de si,

ou ao efeito da sua pele exposta,

como quem diz: beija-me,

ao mesmo tempo que diz: bate-me,

uma mulher pronta a usar,

que sabe ser observada e desejada,

molha os dedos num copo de água

para se humedecer e,

sempre de costas,

oferece-me as nádegas.

 

***

 

alice macedo campos

(penafiel, 1978)

 

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lido em: um cão em cada dedo

publicado por carlossilva às 14:20
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Quinta-feira, 15 de Abril de 2010
primeiras mortes, instrumental

 

Enquanto baloiçam os acordes da misericórdia

olho a má companhia em que nos tornámos

presos ao passar das folhas

a cheirar o fundo das palavras

ou à espera de objectos brancos

que só podem existir à noite

 

Billy Budd enforcado, o bem natural

apanhado na gordura da pele

 

os quevivem

fumam debaixo do derradeiro cipreste

ninguém desconfia

falamos pouco, expiamos pelo nariz

 

e pelo menos um de nós

não vao cumprir o que prometeu

 

***

 

joão almeida

 

*********************


lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:05
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Quarta-feira, 14 de Abril de 2010
o mensageiro da estrela fabulosa

aglomerada infracção segundo breu
amplificada imensidade turva absoluta
ocupa o vácuo com metais de presença
durmo escurecido nalguns cliques e flashes
quando nisto acoplam objectos no anexo.
Erguido dos imaginários sob reposicionados,
Hércules analisa as viabilidades estacionadas
no parque das inspiradas estruturas submersas.
Mais uma contra-ordenação temporal excessiva.
Irrupções de sirenes atazanantes das profundezas
provenientes das fartas grandezas expectoradas
pelo pequeno elemento boreal de sinal ilustrado
no almanaque ficções frustradas nas frestas diurnas
desassossegam a urna no ponto triplo asséptico
decepando o alvoroço da ligação infra-celeste.
Corte de rompante a conexão corrupta a sabre
solucionador injectado de lazer sensitivo
extrai plasma depressivamente contrabandeado
físico ancorado a supercríticos fluidos activos.
Impressões invadidas nas lentes telescópicas
e na celeridade do saque de pasteis de magma.
Nebulosa torrada barrada solipsisticamente
impressionista impressionado com o torpor
dos florescentes contemporâneos néones
tons e corantes ultravioletas esclarecedores
tratavam da secagem de fatos emulsionados
via palma da mão vazia porque tanto fazia
de salteadora paradoxa animal num filme
capturava neutros infinitamente distantes
foi neutralizada fotograficamente por civis
condes e anãs castanhas detidas a meias
passadas apanhadas em flamejante delírio
estado massivo de super novidade cicatriz
da florescente floresta duplamente desejada
por ares expandidos de quasares exilados
depois deportada pela penalidade mínima
e trovas falsas irracionalmente abatidas.
Declarado alerta na transmissão sideral
nos batidos de satélites abandonados.

 

***

 

sacha habermann

(krefeld - germany, 1967)

 

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lido em: http://arditura.blogspot.com/2010/04/o-mensageiro-da-estrela

publicado por carlossilva às 12:02
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Terça-feira, 13 de Abril de 2010
a domadora de crocodilos

 

Todos os dias

meto a cabeça

na boca

do crocodilo

 

O meu feito é feito

de paciência

 

Já meti

a cabeça

no forno

estava farta

dos crocodilos

e dos amantes

 

Não tenho tido amantes

tenho tido crocodilos

 

Com os crocodilos

ganho o pão

e as rosas

 

Morrer é um truque

como tudo o mais

 

Dobrada

entre os crocodilos

dobrados

arrisco a pele

 

A pele é a alma

 

***

 

adília lopes

(lisboa, 1960)

 

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publicado por carlossilva às 12:45
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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010
a andorinha ou Tudo é relativo

 

Da andorinha dificilmente se dirá

que é um animal feroz. Pelo contrário,

convêm-lhe adjectivos como grácil.

 

Mas a grácil andorinha abre

para o mosquito uma boca aterradora.

 

***

 

a. m. pires cabral

(chacim - macedo de cavaleiros, 1941)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:19
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Sábado, 3 de Abril de 2010
dentes de sabre


Pego numa vara e desenho à minha volta
com a dimensão dos meus braços um círculo no solo.
Dentro apenas uma areia escura, muito fina,
um pó perdido e inerte,
que enegrece os meus pés.
Pedras soltas, poucas. Mais nada.
Olho o círculo, trezentos e sessenta graus de país
com o tamanho dos meus braços
e o poema é apenas uma memória.
Adormeço em pé durante meses, fixo nestes ossos.
Cabe alguém nesta ilha?
Choro a tua partida como um continente
que chora o soltar de uma porção de terra,
de uma nascente ilha em direcção ao horizonte,
e espero neste ponto móvel que dês a volta ao mundo.
Deixo cair a túnica, a única coisa que me cobria.
Levanta-se um sopro, uma nuvem sobre quem eu sou,
uma rouquidão crescendo aos poucos na minha voz.
O meu corpo cobre-se de algas.
A meio da noite escura solto um grito,
o sal secou sobre a minha pele, volto a vestir a túnica,
cubro a cabeça com o capuz,
pego na vara e continuo a desenhar coisas estranhas
nesta areia até o sol nascer

 

***

 

luís brito pedroso

(lisboa, 1977)

 

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lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

publicado por carlossilva às 11:58
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