Quarta-feira, 17 de Fevereiro de 2010
meu artesanato é de gaivotas

 

Meu artesanato é de gaivotas

no mar e no céu,

duro ofício de asas e vento.

Levanto-me de madrugada e começa o corropio

na oficina, o desacato de luz inicial:

nuvens, sal, tintas,

tudo num enorme desalinho.

 

Esmero-me no trabalho das mãos.

Comjugar sargaço e música - eis o desafio.

Aparelho-me de paciência e barro,

lixo, minhocas, peixe miúdo.

Amaino-me de fúrias, alturas excessivas.

A ciência do voo é a mais difícil. E exige arte.

 

Às vezes, a ensaiar, despenha-se uma gaivota.

E lá se parte o lume. São mil cacos,

mil estrelas vivas pelo chão.

Penso então mudar de ofício.

Dedicar-me aos pássaros de gaiola.

Ou a outro ramo, sem os segredos do vento,

de um simples saber exacto.

 

Mas quando vejo as gaivotas no mar e no céu

é um tão grande contentamento

que volto sempre ao meu velho artesanato.

 

***

José Carlos Vasconcelos (1940)

Freamunde - Paços de Ferreira

 

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publicado por carlossilva às 02:49
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010
adágios verificáveis

 

Candeia que vai à frente

É a primeira a tropeçar

 

Água mole em pedra dura

evapora-se no chão

 

Grão a grão é a ambição da galinha

que come e enfarta e morre sozinha

 

Mais vale um pássaro morto,

que dois imortais

 

Uva que cai, e morre a raposa

de ecologias diversas e fatais

 

Cão que não ladre perde a função

 

Provérbio exige

ponderação

 

***

Isabel Cristina Pires (1953)

Pampilhosa - Mealhada

 

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publicado por carlossilva às 16:57
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Domingo, 14 de Fevereiro de 2010
ar

 

Já não cabe no peito todo o fumo

engasgado dos dias dos charros fumados

dos ódios que não posso adiar

 

sufoca a vontade de gritar

noite adentro ao relento

até atingir o próximo fôlego

estar vivo viver e tentar vencer

 

espuma e baba escorrem da boca

o suspiro travado nos lábios

que se negam a beijar a amar

a sussurrar-te que ainda vivo existo

 

e votar tudo ao abandono

pressinto o abismo a náusea

o espamo ante o derradeiro suspiro

a seta enterrada na têmpora

 

***

Guita Jr.

Moçambique

 

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publicado por carlossilva às 21:41
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Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2010
às vezes despedimo-nos tão cedo

 

Às vezes despedimo-nos tão cedo

que nem lágrimas há que nos suportem o

peso da voz à solidão exposta

ou

de lisboa no corpo o peso triste

 

Às vezes é tão cedo que nos vemos

omitidos

enquanto expõe

o peso insuportável

do amor

a despedida

 

É tão cedo por vezes que lisboa

estende sobre os corpos o desgosto

 

Com os dedos no crânio despedimo-nos

 

***

Gastão Cruz (1941)

Faro - Portugal

 

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publicado por carlossilva às 13:23
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Quinta-feira, 11 de Fevereiro de 2010
residência

Visão de meu pai de volta à casa de

sua mãe, Sam Nôvi, no Budo-Budo

 

 

Regressarás pela ladeira velha

sem aviso.

Será como ontem, ao entardecer:

remoto, repentino, o assobio.

E no caminho, um soluço de festa

derramado.

 

A luz será húmida

a chuva íntima

sobre a marca dos teus pés.

Dedo a dedo, folha a folha

tocarás os cheiros

os sortilégios do quintal -

o limoeiro

anão da avó

o decrépito izaquenteiro

o ocá assombradíssimo

o kimi torto

e à entrada, no brarro gravado,

o fantasma do bode branco.

 

O degrau há-de ranger ao primeiro passo.

Subirás devagar, concreto

sem pisar a tábua solta no soalho.

A porta estará aberta, a tocha acesa.

 

***

Conceição Lima (1961)

S. Tomé e Príncipe

 

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publicado por carlossilva às 12:14
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Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2010
paxaro do desexo

 

Paxaro do desexo

ave branca e redonda

peito vivo de nube

transmigración de onda en transparéncia

voo do silléncio en circulo

espello sen espazo

centro de asas de luz

prata e azul no tempo

latexo tenro

da palabra no peito:

                                       paxaro do Desexo.

 

***

Miguel Anxo Fernán-Vello (1958)

Cospeito (Lugo) - Galiza

 

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lido em: antologia de poesia galega

publicado por carlossilva às 11:50
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Terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010
à tarde cun can e un livro

 

À tarde cun can e un livro

entreaberto

sento-me nun banco do xardin

e deteño-me a contemplar o transcorrer da vida.

Por oriente pasa unha anada de paxaros

que non identifico.

Hai unha luz desigual tapizando a paisaxe,

hai unha luz fráxil e cautelosa

de inverno.

 

O corazón escoita e, às veces, insinua unha pergunta.

Hai un manto de calma abafando alatidos,

ocultando rostos desolados,

 

A vida é isto? Esta dor que avanza, perniciosa,

por canles subterráneas?

esta

               mediocridade?

 

À tarde, contemplo a falsa calma e agardo o delírio

mentres o can, o livro, a anada de paxaros,

un eco de tronada mui ao lonxe...

 

***

Pilar Pallarés (1957)

Culleredo (A Coruña) - Galiza

 

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lido em: antologia de poesia galega

publicado por carlossilva às 02:04
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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010
viaxe

 

Hai nomes que agariman como oseira

compartir compostela ten o engado

de se saber por sempre secular na pedra

fisterra nunca é un fin senón principio vento

que leva a toxosoutos ou ao pindo a néboa

o mar o val o monte o lugo antigo

son como os viños como as lerias

como aquela romaxe a san andré de teixido

en migallas de pan.

 

Común viaxar é ser na nosa terra

onde medrao alén antes que o millo.

 

***

Claudio Rodríguez Fer (1956)

Lugo - Galiza

 

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lido em: antologia de poesia galega

publicado por carlossilva às 13:46
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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010
bestiário

 

resoa a pancadiña dun insecto na terra

un peixe vai boiando polo céu

 

os gatos son madeixas e enovelan-se

as denosiñas veneran a gorxa dos poetas

 

repousan no patacal escaravellos

os ratos soñan co paraíso dos celeiros

 

a mantis relixiosa elixe un amor bébedo

o siléncio emana siléncio entre as abellas

 

torpes tartarugas adiantan às lebres

paxaros descoñecidos e silentes

beben a pel

 

na sombra tecen morte altos morcegos

 

no corazón do mundo hai unha pomba quieta.

 

***

Xavier Seoane (1954)

A Corunha - Galiza

 

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lido em: antologia de poesia galega

publicado por carlossilva às 13:37
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Sábado, 6 de Fevereiro de 2010
tralos rostros

 

Afortunado é que aínda soñe no teu nome:

Descobriuse, máis e máis, e era o mundo.

 

Amor, alba é o teu ser de potestade

tras ollos que chegaron a mirarte

e detrás o lume, o corazón, a sombra

e detrás as pulsacións de cinza, o rostro

onde nada descansa baixo un arco de olvido,

e a vida é case lenta

e a boca case o mar cando pregunta.

Sen embargo,, na luz e na resposta,

as máscaras conmoven.

 

***

Xavier Rodríguez Barrio (1954)

Lugo - Galiza

 

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lido em: antologia de poesia galega

publicado por carlossilva às 13:31
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