Domingo, 8 de Novembro de 2009
o meu é teu

 

O meu é teu. O teu é meu

e o nosso é nosso quando posso

dizer que um dente nos cresceu

roendo o mal até ao osso.

 

O teu é nosso. O nosso é teu.

O nosso é meu. O meu é nosso,

e tudo o mais que aconteceu

é uma amêndoa sem caroço.

 

Dizem que sou. Dizem que faço,

que tenho braços e pescoço

- que é da cabeça que desfaço,

que é dos poemas que eu não ouço?

 

O meu é teu. O teu é meu

e o nosso, nosso quando posso

plhar em frente o céu

e sem ver galgar o fosso.

 

Mas tu és tu e eu sou eu

não vejo o fundo ao nosso poço,

o meu é meu, dá-me o que é teu

depois veremos o que é nosso.

 

***

José Carlos Ary dos Santos

 

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publicado por carlossilva às 01:03
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Sábado, 7 de Novembro de 2009
ainda existem as ruas onde por acaso

 

Ainda existem as ruas onde por acaso

nos encontrávamos? Tantos dias correram

num ano, viam-me em dias de mais

desejo apressar os passos, olhar para

o relógio, pôr falhando os discos

nas capas. Parecia ter sido só uma

despedida de um dia para o outro, agora

se escrevo é porque és apenas uma imagem

da memória, pouco faltará para que

guarde de ti um risco, um embaraço.

E sempre chegarei a tactear o rosto,

fingir que me lembro de alguns sinais,

das poucas palavras necessárias para que

eu aceitasse, duas vezes o meu corpo

esteve como teu, outras mais do que

podes pensar. Na volta de uma esquina

não reparo, tropeço, encontro, o último

sorriso começa a nascer.

 

***

Helder Moura Pereira

 

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publicado por carlossilva às 00:54
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009
metal fundente

 

Gostava de explicar-te e de poder

eui próprio compreender

por qu emomentos houve em que perder-te

era metal fundente como o disse um poeta

entre nós e as palavras existir

 

Eu seria as palavras tu os corpos

fundentes de nós dois, pela separação

futura liquefeitos

Era de cada vez como se a vida

também fundisse e o seu metal escorresse

sobre a pele da perda talvez isso

explicasse como o chumbo

da ilusão derrete e nos liberta

até desse momento em que tememos

nada mais ter

 

Mas como poderia

eu amar-te e achar-te já de mais

sentir estando tu tão perto ainda

a onda

da ausência contornar-me

O céu em certos dias produza

o efeito de um espelho em que voltávamos

inversos

ao verão que tu julgaras

então igual à vida e era apenas

a infância perdida sobre o mar

 

***

Gastão Cruz

 

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publicado por carlossilva às 00:43
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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009
vendo as jovens

 

Madruga. E água vos desnuda alegres

por dentro dos espelhos. Repentinas

partis. E a superfície exerce

profundidade. E salpicais os dias

 

de movimento, súbito nem leve,

mas pura luz ao longo da retina.

E enquanto sobem músculos ou descem,

visível ave rítmica respira,

 

regressa, vai, ou cega. Tão verdade

que um fundo de água a apaga. E as esquinas

são anúncios antigos de cidade

 

pensando-se na noite, que dominas,

real como quem tem só idade

e, de repente, o azul é meio dia.

 

***

Fernando Echevarría

 

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publicado por carlossilva às 00:36
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009
to a green god

 

Trazia consigo a graça

das fontes, quando anoitece.

Era o corpo como um rio

em sereno desafio

com as margens quando desce.

 

Andava como quem passa,

sem ter medo de parar.

Ervas nasciam dos passos,

cresciam troncos dos braços

quando os erguia no ar.

 

Sorria como quem dança.

E desfolhava ao dançar

o corpo, que lhe tremia

num ritmo que ela sabia

que os deuses devem usar.

 

E seguia o seu caminho,

porque era um deus que passava.

Alheio a tudo que via,

enleado na melodia

de uma flauta que tocava.

 

***

 

eugénio de andrade

 

(póvoa de atalaia, 1923 - 2005)

 

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publicado por carlossilva às 10:15
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
soneto do cativo

 

Se é sem dúvida Amor esta explosão

de tantas sensações contraditórias;

a sórdida mistura das memórias,

tão longe de verdade e da invenção;

 

o espelho deformante; a profusão

de frases insensatas, incensórias;

a cúmplice partilha nas histórias

do que os outros dirão ou não dirão;

 

se é sem dúvida Amor a cobardia

de buscar nos lençóis a mais sombria

razão de encantamento e de desprezo;

 

não há dúvida Amor, que te não fujo

e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,

tenho vivido eternamente preso!

 

***

David Mourão-Ferreira

 

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publicado por carlossilva às 11:39
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009
bilhete postal

 

Escrevo-te agasalhando o nosso amor,

que o tempo é este inverno sem disfarce:

Pelos meus olhos fartos de miséria

Mereço bem a luz da tua face.

 

Mas no meu coração as pobres coisas

choram, a cada lágrima exigida,

a tristeza precisa pra que eu saiba

quanto custa a alegria duma vida!

 

***

Carlos de Oliveira

 

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publicado por carlossilva às 15:59
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Domingo, 1 de Novembro de 2009
carta de navegação

 

Talvez além do que tu vês

não esteja nada

nem a alada criatura com que sonhas

ssequer a sombra da sombra de uma sombra

 

Talvez nisso que vês só haja espelho

de um desejo sem rosto e sem esperança

que toda a vida (às vezes) seja apenas

esse deserto crescendo à tua volta

 

Aprende a não amar o amor

a nada querer

não desejar o desejo

nada ter.

 

***

Bernardo Pinto de Almeida

 

 

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publicado por carlossilva às 03:11
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