Quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
silêncio sem franjas, morte intestinal

 

abandonado o silêncio
o sepulcro e os deuses

as cataratas os contornos os vislumbres
a morte

penhascos do corpo e as viagens
malditas viagens: o desembarque das trevas

a coloração do teu cetim
a coloração da mortalha
( o silêncio das vozes
o silêncio da cantuária)

imensos cristais
imensos diademas
e diademas cristalizados- a morte
um esquecer silenciosamente o silêncio
um esquecer silenciosamente as trevas
um esquecer silenciosamente as pedras


não! abranda! pára-o!
trinca-o!

céus! o passar e o absurdo
os céus e as franjas
as trevas e o silêncio
a beatude e a mágoa

o subterrâneo

cubro-te princesa
cubro-te com o anonimato e as tuas pegadas
cubro-te e as tuas pegadas são um soslaio matutino
um soslaio apodrecido
um soslaio anoitecido
develo assim as franjas do intestino:
o meu raciocínio

lagoas do espírito...
se um dia a nódoa cobrir-te as telas do crânio
eu dir-te-ei: estende-te na abóbada vulcânica
estende-te na abóbada satânica
que o distante já não mora
aqui: uma caverna e uma mortalha

e dói...

***

Carlos Vinagre

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publicado por carlossilva às 01:41
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Terça-feira, 17 de Novembro de 2009
a - mar - hei

 

Achei o manancial das verbas fermosas
 

que ceiba bocaladas de fume acróbata.


Hei apagar eu o botafume


cun bico de zume nos teus beizos de rosa,


beiramar, de groso contorno areoso


mollado de cuspe o milagre da túa boca,


avance nun intre detido de escume


cando todo o míster do mar sen roupa


me chega no verde da túa mirada.


Sabes a pouco, muller moura da pel salgada.

 

***

Alfonso Láuzara Martínez

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publicado por carlossilva às 02:29
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
IX

 

na auga gardo

canto compartimos

coas mans no proprio corpo

e nos beizos

unha palabra de protesta

na auga hai máis que o cheiro

dos nosos sexos

mitigado pola fragancia

dun xel de ducha

nela fixemos unha

revolución

lavándonos de espantos.

 

***

alberte momán

 

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publicado por carlossilva às 02:59
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Domingo, 15 de Novembro de 2009
soneto do amor total

 

Amo-te tanto, meu amor... não cante

O humano coração com mais verdade...

Amo-te como amigo e como amante

Numa sempre diversa realidade.

 

Amo-te afim, de um camo amor prestante

E te amo além. presente na saudade

Amo-te, enfim. com grande liberdade

Dentro da eternidade e a cada instante.

 

Amo-te como um bicho, simplesmente

De un amor sem mistério e sem virtude

Com um desejo maciço e permanente.

 

E de te amar assim, muito e amíude

É que um dia em teu corpo, de repente

Hei-de morrer de amar mais do que pude.

 

***

Vinicius de Moraes

 

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publicado por carlossilva às 12:43
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Sábado, 14 de Novembro de 2009
apolo musageta

 

Eras o primeiro dia inteiro e puro

Banhando os horizontes de louvor.

 

Eras o espírito a falar em cada linha

Eras a madrugada em flor

Entre a brisa marinha.

Eras uma vela bebendo o vento dos espaços

Eras o gesto luminoso de dois braços

Abertos sem limite.

Erasa pureza e a força do mar

Eras o conhecimento pelo amor.

 

Sonho e presença

Duma vida florindo

Possuída e suspensa.

 

Eras a medida suprema, o cânon eterno

Erguido, puro, perfeito e harmonioso

No coração da vida e para além da vida

No coração dos ritmos secretos.

 

***

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

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publicado por carlossilva às 01:49
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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009
as rosas amo do jardim de Adónis

 

As rosas amo do jardim de Adónis,

Essas volucres amo, Lídia, rosas,

Que em o dia em que nascem

Em esse dia morrem.

A luz para elas é eterna, porque

Nascem nascido já o sol, e acabam

Antes que Apolo deixe

O seu curso visível.

Assim façamos nossa vida um dia,

Inscientes, Lídia, voluntariamente

Que à noite antes e após

O pouco que duramos.

 

 

***

Ricardo Reis

 

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publicado por carlossilva às 11:37
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Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009
minha mulher de parmas e cidades

 

Minha mulher de parmas e cidades

escondidas atrás do ovo e as idades

de verde, louco verde, adestramento

 

para um nome infinito nesta mão,

qual água que se acolhe à tua boca.

Minha mulher de leve, pé no chão

de verdade e caminho à minha toca,

 

digo-te sumos fortes e calados

sob os rios doridos e correntes

que amarram as linhas e os dados

 

dos jogos amarelos e doentes,

nem nossos, nem pequenos, nem jogados;

digo-te mundo, e temo-nos cientes.

 

***

Pedro Tamen

 

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publicado por carlossilva às 09:36
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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009
jogo

 

Eu, sabendo que te amo,

E como as coisas do amor são difíceis,

Preparo em silêncio a mesa

do jogo, estendo as peças

sobre o tabuleiro, disponho os lugares

necessários para que tudo

comece: as cadeiras

uma em frente da outra, embora saiba

que as mãos não se podem tocar,

e que para além das dificuldades,

hesitações, recuos

ou avanços possíveis, só os olhos

transportam, talvez, uma hipótese

de entendimento. É então que chegas,

e como se um vento do norte

entrasse por uma janela aberta,

o jogo inteiro voa pelos ares,

o frio enche-te os olhos de lágrimas,

e empurras-me para dentro, onde

o fogo consome o que resta

do nosso quebra-cabeças.

 

***

Nuno Júdice

 

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publicado por carlossilva às 12:33
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Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
onde andará o meu Amigo só

 

Onde andará o meu Amigo só

que pedra em flor pisando

no caminho?

Gótica a agulha do silêncio ao alto

longe quem passa perto não a vê

eu perto a vejo de tão longe

quando

 

Qnde andará o meu amigo só

trepando às fontes derrubando

cantos?

Como quem tece um vento de memória

e dele se despede ou só da teia

não sobrevivo à minha vida

quando

 

***

 

Maria Alberta Menéres

 

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publicado por carlossilva às 03:11
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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009
o céu, a terra, o vento sossegado...

 

O céu, a terra, o vento sossegado...

As ondas, que se estendem pela areia...

Os peixes, que no mar o sono enfreia...

O nocturno silêncio repousado...

 

O pescador Aónio, que, deitado

onde co vento a água se meneia,

chorando, o nome amado em vão nomeia,

que não pode ser mais que nomeado:

 

- Onde (dezia), antes que Amor me mate,

torna-me a minha ninfa, eu tão cedo

me fizeste à morte estar sujeita.

 

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate,

move-se brandamente o arvoredo;

leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

 

***

 

Luís de Camões

 

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publicado por carlossilva às 11:20
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