Sábado, 10 de Outubro de 2009
anjos caídos

 

Neste palco de sol,

de repente:

os teus lábios:

anjos caídos mas abençoando

 

Cada curva e tremura

dentro do nervo exacto

da memória

 

Por esses lábios

eu faria tudo:

 

rasgava-me de sangue

e inocência,

partia com as mãos vitrais

e estrelas,

desintegrava o sol

 

Já não anjos caídos

os teus lábios,

mas deuses transportados

pelos meus

 

***

Ana Luísa Amaral

 

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publicado por carlossilva às 08:57
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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009
malha morta

 

é segunda faço sopa

é terça mudo de roupa

não sei se mudo de pele

quando à quarta vou com ele

se à quinta corto as veias

à sexta estou sem ideias

 

sábado levanto e calo

domingo acordo e falo, sempre com algum atraso

é tarde no meu buraco

faço de conta que esqueço

aquilo que não mereço

 

sinto-me tal e qual

uma velha canção

sinto-me tal e qual

um refrão que odiei

 

à segunda aperto o laço

do garrote que a mim faço

à terça espero que passe

à quarta uso disfarce

na quinta ponho um vestido

à sexta perco o sentido

 

a dias me sinto suja

o que lavo vira negro

não sei porque continuo

esta malha em segredo

faço de conta que esqueço

aquilo que não conheço

 

sinto-me mal qual

uma velha canção

sinto-me mal qual refrão que odiei

 

***

Ana Deus

 

************************

 


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publicado por carlossilva às 08:53
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Quinta-feira, 8 de Outubro de 2009
princesa prometida

 

Há um véu no meu olhar

Que a brilhar dá que pensar

Nos mistérios da beleza

Espelho meu que aconteceu

Do que é teu e do que é meu

Já não temos a certeza

 

A moldura deste espelho

Espelho feito de oiro velho

Tem os traços duma flor

Muitas vezes foi partido

Prometido e proibido

Aos encantos do amor

 

Espelho meu diz a verdade

Da idade da saudade

A mulher envelhecida

Segue em frente na memória

Mata a glória dessa história

Da princesa prometida

 

***

Aldina Duarte

 

***********************

 

 



publicado por carlossilva às 08:17
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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009
de estrelas nada sei

 

De estrelas nada sei

Nem mesmo os nomes

Bizarros

Com que as usam baptizar

 

Prefiro fitar

A negra que passa

Altiva

De nádegas espetadas

 

A beleza bamboleante

Feita de carnes rijas, africanas

Fremindo

No balanço das passadas

 

Ou, melhor ainda

A tímida magrebina

Aviltada

no lenço que a quer suprimida

 

No escuro dos seus olhos

Arpeja um ódio selvagem

Febril

De lascívia apenas pressentida

 

De estrelas nada sei

A não ser, talvez, a imensidão

Profunda

Deste olhar

 

***

Adolfo Luxúria Canibal

Luanda - 1959

 

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publicado por carlossilva às 11:59
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
o vestido cor de salmão

 

Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão

no primeiro baile a que fui

durante o baile fiquei sentada numa cadeira

ninguém me convidou para dançar

a uma rapariga importuna

que me perguntou porque é que eu

não dançava

respondi eu não sei dançar

ela insistiu comigo para que eu

bebesse uma taça de champagne

eu acedi

mas não foi dessa vez que bebi champagne

pela primeira vez

porque a rapariga entornou a taça

no meu colo

julgo que propositadamente

com a nódoa o vestido deixou de ser para bom

passou a ser para bater

durante uma viagem curta de comboio (que era a lenha)

queimou-o num punho

foi fácil substituir o punho

porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado

o corte de tecido cor de salmão

ainda havia esse tecido cor de salmão

mas durante um passeio à praia

sentei-me numa rocha

e rasgou-se irremediavelmente

ao despi-lo vi que o vestido tinha já

a forma do meu corpo

rasguei-o em pedaços

e guardei os pedaços

na cesta dos trapos

de um dos pedaços fez-se um vestido

para a boneca da minha irmã mais nova

e deste mais tarde fez-se um vestido

para a filha da boneca da minha irmã mais nova

que era uma boneca mais pequena

que caiu a um poço

 

***

Adília Lopes

 

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publicado por carlossilva às 13:49
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009
vinte e oito promessas fundamentais para o ano de dois mil e nove

 

cortar os pulsos passando por cada veia,

inundar a cama, voltar a cosê-los em apenas

alguns minutos, aperfeiçoar todas

as técnicas de ressuscitar. depois, ser para sempre

com a ganância distinta da felicidade.

 

***

valter hugo mãe

 

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publicado por carlossilva às 08:24
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Domingo, 4 de Outubro de 2009
erva ruim

Não poderás desc er o mesmo rio duas vezes,

porque  outras  são as águas que nele correm.

                                                                                     Heráclito de Éfeso

 

 

 

I

eu rio

tu rrr

ele frui

ela ui

nós roemos

vós ruís

eles rolls

elas royce

 

 

II

Eu te convido, Heráclito, à minha mesa

para um quase banquete de melancolia.

 

De um eco a que dantes chamei rima

trouxe um certo vocábulo curto e grosso

um quase ruído, uma quase ruína,

uma esmola a mendigo mal disposto.

 

Sem dó fustugarás os comensais

e já agora também te desafio

a rilhar com caninos desiguais

os restos deste prato quase frio.

 

Aquilo que foi limo será margem

e o rio é sempre outro em seu fluir.

Na fonte busco o ponto de focagem

que o fluxo não permite discernir.

 

Se no rio a cidade se reflecte

e em sua torrente ele se afunda,

desdenho o que Heráclito promete:

as mãos não lavarei em água imunda.

 

Eu te convido, pensador, à minha noite

para um quase passeio junto ao mar.

 

 

III

 

     U

R        I

      R

 

 

***

Regina Guimarães

Porto - 1957

 

******************************

 



publicado por carlossilva às 08:04
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Sábado, 3 de Outubro de 2009
estudos de cor: dores RGB

 

As dores da minha amiga sabem a loas:

Em torno de Saturno - o velho deus que se agarra

Ao bordão sobraçando um vaso de ouro - Giram loucas.

E ela, feita elegia ardente,

crepita e em faúlhas de yellow, green, blue,

Red, white, cyan & magenta. A seguir, morre.

E logo brota, crioula.

 

***

Maria Estela Guedes

 

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lido em: geisers

publicado por carlossilva às 12:36
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Sexta-feira, 2 de Outubro de 2009
fulgor

 

caiu-me o céu em cima da cabeça

e andei toda uma vida debaixo do guarda-chuva

com as gotas da memória a passar-me ao lado

 

para não me constipar

 

a minha ignorância gosta mais da limpeza a seco

assusta-se com a humidade por causa dos fungos vitais

 

os fungos impressionam qualquer dona de casa

 

dois bocados de céu deixaram duas marcas vermelhas

no alto couro da cabeça

e deram-me o sinal de partida

 

vou agora cair ao contrário

olear os circuitos do corpo e depois logo se vê

 

respirar respirar ligar a ogiva vital

ligar os circuitos

 

em modo infinito

 

***

Paulo Condessa


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publicado por carlossilva às 10:29
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Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009
até ao fim

 

Mas é assim o poema: construído devagar,

palavra a palavra, e mesmo verso a verso,

até ao fim. O que não sei é

como acabá-lo; ou, até, se

o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:

puxo o teu corpo

para o meio dele, deito-o na cama

da estrofe, dispo-o de frases

e de adjectivos até te ver,

tu,

o mais nu dos pronomes. Ficamos

assim. Para trás, palavras e versos,

e tudo o que

não é preciso dizer:

eu e tu, chamando o amor

para que o poema acabe.

 

***

Nuno Júdice

 

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publicado por carlossilva às 12:36
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