Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009
uma mulher quase nova

 

Uma mulher quase nova

com um vestido quase branco

numa tarde quase clara

com os olhos quase secos

 

vem e quase estende os dedos

ao sonho quase possível

quase fresca se liberta

do desespero quase morto

 

quase harmónica corrida

enche o espaço quase alegre

de cabelos quase soltos

transparente quase solta

 

o riso quase bastante

quase músculo florido

deste instante quase novo

quase vivo quase agora

 

***

Mário Dionísio

Lisboa (1916 - 1993)

 

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publicado por carlossilva às 00:49
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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
vertigem

 

Quando sob o meu

está o teu corpo

e eu nado dentro

do desjo e enlaço

 

Os teus ombros as ancas

e o dorso

enquanto  espasmo se faz

num outro abraço

 

Desprendo a boca

depois

no grito solto

 

Mordo-te os pulsos

ambos

no orgasmo

 

Volto ao de cima

da água

do meu gosto

 

Bebo-te a vertigem

e em seguida o hálito

 

***

Maria Teresa Horta

 

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publicado por carlossilva às 01:11
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Domingo, 18 de Outubro de 2009
a inegualável

 

Ai, como eu te queria toda de violetas

E flébil de cetim...

Teus dedos, longos de marfim,

Que os sombreassem jóias pretas...

 

E tão febril e delicada

Que não pudesses dar um passo -

Sonhando estrelas, transtornda,

Com estampas de cor no regaço...

 

Queria-te nua e friorenta,

Aconchegando-te em zibelinas -

Sonolenta,

Ruiva de éteres e morfinas...

 

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -

Teus frenesis, lantejoulas;

E os ócios em que estiolas,

Luar que se desbarata...

 

Teus beijos, queria-os de tule,

Transparecendo carmim -

Os teus espasmos de seda...

 

- Água fria e clara nua noite azul,

Água, devia ser o teu amor por mim...

 

***

Mário de Sá Carneiro

 

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publicado por carlossilva às 02:59
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Sábado, 17 de Outubro de 2009
como a vida sem caderneta

 

Como a vida sem caderneta

como a folha lisa da janela

como a cadela violeta

- ou a violenta cadela?

 

Como o estar egíocio emudado

no salão do navio de espelhos

como o nunca ter embarcado

ou só ter embarcado com velhos

 

Como ter-te procurado tanto

que haja qualquer coisa quebrada

como percorrer uma estrada

com memórias a cada canto

 

Como os lábios prendem o copo

como o copo prende a tua mão

como seo nosso louco amor louco

estivesse cheio de razão

 

E como se a vida fosse o foco

de um baço, lento projector

e nós dois ainda fôssemos de cor

 

Um ao outro nos fôssemos pouco

meu amor meu amor meu amor

 

***

Mário Cerariny de Vasconcelos

 

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publicado por carlossilva às 02:45
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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009
o tempo passado

 

Houve tempos

Em que a mão erguia uma lanterna

E a noite se afastava um pouco, devagar.

Não se anulava.

A noite e o dia abriam sulcos para o silêncio como um rio

E a nosso lado caminhava sempre um espaço aberto.

 

Eu não recordo mas dizem

Que partíamos e voltávamos à casa

como o sangue parte e volta ao coração.

Mar não havia

Mas pisávamos violetas.

 

A cama em que dormíamos era a do parto e a da morte,

O pão era solene

E a aurora familiar.

 

Nossos corpos então eram como jacintos

Vindos da terra lenta,

Lentos sob o abraço do linho.

 

O amor era tão longo -

Tão curto o desvario.

Ah dêm-nos de novo

Aqueles corpos ignorantes e densos

E ouvidos para o silêncio

E boca para acreditar.

 

***

Maria da Saudade Cortesão

 

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publicado por carlossilva às 10:28
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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
esplanada

 

Naquele tempo falavas muito de perfeição,

da prosa dos versos irregulares

onde cantam os sentimentos irregulares.

Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

 

agora lês saramagos & coisas assim

e eu já não fico a ouvir-te como antigamente

até um sítio escuro dentro de mim.

 

O café agora é um banco, tu professora do liceu;

Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.

Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,

e não caminhos por andar como dantes.

 

***

Manuel António Pina

 

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publicado por carlossilva às 03:15
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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009
eco

 

É mais fácil partir quando o silêncio

transpõe a tua voz.

Mais simples celebrar a tão efémera

certeza de estares vivo.

 

A músico do ar esvai-se nas sombras,

tu sabes que é assim,

que os dias correm céleres, não tentes

perseguir o seu rastro - repara

como em abril as aves são felizes.

 

Sê como elas: não perguntes nada,

deixa que o sol responda à flor da tarde

e esquece-te do mundo.

 

***

Fernando Pinto do Amaral

 

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publicado por carlossilva às 11:14
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Terça-feira, 13 de Outubro de 2009
cuidado com as catenárias

 

A tristeza a urze,

as armas feridas

de ferrugem.

Esquecer com toda a

memória o seu corpo

molde de serpentes.

 

Queimada jaz a carne, o nervo

da electrocussão

e da voltagem

sem volta;

 

agora é o colírio

do morcego, o ocaso

de electrões,

 

agora um cipreste bruxuleia,

as bruxas chiam.

A sólida trave

apeia-se desolada de bravos cavalos

e desce ao povoado.

 

Agora esquecer:

aquecer a ciência do malte

e descurar

 

o seu corpo

cedro magnífico,

os seus olhos

miraculosas ampolas.

 

***

Daniel Jonas

Porto - 1973

 

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publicado por carlossilva às 08:06
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Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009
bailam as raparigas

 

Bailam as raparigas

as mãos nas mãos

das raparigas

nos cabelos das raparigas

dos pinhais

até aos seios.

 

Bailam as raparigas

a sós com a noite

com as ancas ondeadas

de raparigas

rente aos caules

pelos caminhos

curvos do vento

de ventre entrelaçados

derrubadas as tranças:

só manchas de pele na pele

anunciando levemente

o suor das sombras.

 

Bailam as raparigas

o círculo aberto seguindo

como uma veia

coreografia de saias e de cios -

golpes nenhuns por ninguém.

 

Bailam as raparigas

mães d'água.

E de manhã flutuam os remos

e amontoam os mastros

exangues.

 

***

Catarina Nunes de Almeida

Lisboa - 1982

 

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publicado por carlossilva às 08:04
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Domingo, 11 de Outubro de 2009
o princípio de arquimedes

 

Todo o corpo mergulhado num líquido

perde de si a noção,

o centro, a memória involuntária

que o faz erguer-se e gritar;

pernas, braços, olhos, língua,

são a mesma coisa indistinta

em que não se percebe o que é què

para que serve

que desígnio divino ilustram

e inventam,

por que andam, o que os faz espantalhos

na solidão da mais profunda noite,

o que vêem como espectros,

pálidas cintilações de outra luz

que não ousam enfrentar,

a função primordial do beijo

pelo qual as línguas se esquecem de falar.

Deve ser da água

ou da pressão da água,

ou talvez da ansiedade estranha por se sentir

na água

a inversa representação do nosso

mais terreno império:

ali não somos nada, pouco valemos,

nenhum pensamento nos vem,

ocupado o corpo em sofrer,

domar, gerir, sobreviver

à impulsão vertical de baixo para cima,

ao estranho secreto poder da água de mil águas,

gotas que só são gotas porque as podemos

inventar,

de resto,

mole imensa,

informe massa, ameaça difusa, perigo iminente,

o mais estranho meio onde ainda nos movemos

porque só nós sabemos aproveitar

a força que nos impele

igual

ao peso do volume do líquido

que o corpo, todo o corpo mergulhado num líquido,

comanda, desloca, agita, ocupa

e esgota,

no momento final

em tudo igual

ao que nos fez pela primeira vez

gritar.

 

***

António Mega Ferreira

Lisboa - 1949

 

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publicado por carlossilva às 08:16
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