Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009
recordação

 

O rosto erecto

 

Dá impressão de inclinado

Por certa graça esplendente

De nobreza

 

Rio lindo chama pura

Aparição convergida

Pelos astros espantosos

Deixas-me o corpo o teu corpo

E o desenho da tua alma

Nas minhas mãos escultoras

Deixas-me a voz essa voz

Que guarda vozes no fundo

Dos seus véus de maravilha

Deixas-me véus maravilhas

A confiança na vida

e dois lábios esmagados

insuportáveis felizes

 

***

Alberto de Lacerda

Ilha de Moçambique (1928 - 2007)

 

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publicado por carlossilva às 12:28
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Quarta-feira, 9 de Setembro de 2009
homem transportando o cadáver de uma mulher!

 

Quis-te tanto que gostei de mim!

Tu eras a que não serás sem mim!

Vivias de eu viver em ti

e mataste a vida que te dei

por não seres como eu te queria.

Eu vivia em ti o que em ti eu via.

E aquela que não será sem mim

tu viste-a como eu

e talvez para ti também

a única mulher que eu vi!

 

***

Almada Negreiros

 

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publicado por carlossilva às 12:16
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Terça-feira, 8 de Setembro de 2009
como posso eu amar-te, se nem sei

 

Como posso eu amar-te, se nem sei

como à porta te chamam os vizinhos,

nem visitei a rua onde nasceste,

nem a tua memória confessei.

Que vaga rima me permite agora

desenhar-te de rosto e corpo inteiro

se só na tua pele é verdadeiro

o lume que na língua se demora...

Não deixes que te enganem os recados

na infernal gazeta publicados

que te dão já por escultura minha;

nocturno frankenstein, em vão soprei

trompas de criação, e foste tu

quem me criou a mim quando quiseste.

 

***

António Franco Alexandre

Viseu - 1944

 

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publicado por carlossilva às 21:55
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Segunda-feira, 7 de Setembro de 2009
tudo se muda:

 

Tudo se muda: o génio unicamente
Em ser constante nos mortais porfia,
Connosco a vir ao mundo principia,
Connosco morre, e nunca se desmente.

Ele as paixões na idade mais florente,
Ele as acende na velhice fria:
É sempre o mesmo, e em nada se varia
Por mais que à vida a duração se aumente.

Dissimula-se sim, mas qualquer hora,
Apesar da mais rígida cautela,
Nos entrega cruel, e as faces cora.

Assim o antigo ardor, que me atropela,
Assim me incita, ó Nize, a que inda agora
Te adore amante, e te celebre bela.

 

***

Abade de Jazente

 

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publicado por carlossilva às 13:10
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Domingo, 6 de Setembro de 2009
seria o amor português

 

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,

longas manhãs te esperei tremendo

no patamar dos olhos. Que me importa

que batam à porta, façam chegar

jornais, ou cartas, de amizade um pouco

- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

 

Se não és tu, que me pode importar?

Alguém bate, insiste através da madeira,

que me importa que batam à porta,

a solidão é uma espinha

insidiosamente alojada na garganta.

Um pássaro morto no jardim com neve.

 

Nada me importa; mas tu enfim me importas.

Importa, por exemplo, no sedoso

cabelo poisar estes lábios aflitos.

Por exemplo: destruir o silêncio.

Abrir certas eclusas, chover em certos campos.

Importa saber da importância

que há na simplicidade final do amor.

Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.

"Que me importa que batam à porta..."

Sair de trás da própria porta, buscar

no amor a reconciliação com o mundo.

 

Lomgas manhãs te esperei, perdi a conta.

Ainda bem que esperei longas manhãs

e lhes perdi a conta, pois é como se

no dia em que eu abrir a porta

do teu amor tudo seja novo,

um homem uma mulher juntos pelas formosas

inexplicáveis circunstâncias da vida.

 

Que me importa, agora que me importas,

que batam, se não és tu, à porta?

 

***

Fernando Assis Pacheco

 

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publicado por carlossilva às 09:20
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Sábado, 5 de Setembro de 2009
assim o amor

 

Assim o amor

Espantado meu olhar com teus cabelos

Espantado meu olhar com teus cavalos

E grandes praias fluidas avenidas

Tardes que oscilam demoradas

E um confuso rumor de obscuras vidas

E o tempo sentado no limiar dos campos

Com seu fuso sua faca e seus novelos

 

Em vão busquei eterna luz precisa

 

***

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

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publicado por carlossilva às 09:14
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Sexta-feira, 4 de Setembro de 2009
soneto de amor

 

Não me peças palavras, nem baladas,

Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.

 

Na tua boca sob a minha, ao meio,

Nossas línguas se busquem, desvairadas...

E que os meus flancos nus vibrem no enleio

Das tuas pernas ágeis e delgadas.

 

E em duas bocas uma língua..., - unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,

Sentindo o nosso sangue misturar-se.

 

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!

Enterra.os bem nos meus; não digas nada...

Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

 

***

José Régio

 

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publicado por carlossilva às 09:00
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Quinta-feira, 3 de Setembro de 2009
vinham rosas na bruma florescida

 

Vinham rosas na bruma florescida

rodear no teu nome a sua ausência.

E a si se coroavam, e tingiam

e apenas sombra de sua transparência.

 

Coroavam-se a si. Ou no teu nome

a mágoa que vestiam madrugava

até que a bruma dissipasse o bosque

e ambos surgissem só lugar de mágoa.

 

Mágoa não de antes ou de depois. Presente

sempre actual de cada bruma ou rosa,

relativos ou não no espelho ausente.

 

E ausente só porque, se não repousa,

é nome rodopio que, na mente,

embruma a brisa em que se aviva a rosa.

 

***

Fernando Echevarría

 

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publicado por carlossilva às 12:38
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Quarta-feira, 2 de Setembro de 2009
litania

 

O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;

 

o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito easo, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece

 

navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso de uma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror,

 

são a grande razão, a única razão.

 

***

Eugénio de Andrade

 

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publicado por carlossilva às 11:59
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009
poema de amor

 

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com o receio de que ele não

                           te coubesse no dedo

 

***

Jorge de Sousa Braga

 

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publicado por carlossilva às 13:28
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