Domingo, 12 de Julho de 2009
a terra inteira

 

Corpos celestes , ventanias, poeira,

muros em ruínas, sabor de areia.

Lagoas que correm ao longo da estrada

como um mapa cheio de pontos desconhecidos

 

e luminosos. Uma geografia assim,

sobrevoando a cidade colonial e em ruínas,

os riscos de fumo nas montanhas, a poesia

mais afastada dos perigos, junto do riso,

 

tudo para que o deserto não se prolongue

e os animais da noite encontrem

os caminhos. Lagos. Insectos esvoaçando,

rios, arroios, aviões sobre a terra inteira

 

e sobre as águas da chuva, cidades

adormecendo antes da noite, uma mesa

onde aguardamos o vento, vindo do pátio,

da escuridão mais perto da luz.

 

***

Francisco José Viegas

 

*************************************

 


lido em: Se me Comovesse o Amor

publicado por carlossilva às 00:33
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Sábado, 11 de Julho de 2009
adolescente

 

 

Viera acompanhado pela mãe

Teria quinze ou dezasseis anos

 

Já não me lembro do motivo

Da consulta      apenas da

 

Perturbação que me causaram

Os seus olhos cor de violeta

 

***

Jorge Sousa Braga

 

**********************************

 

 


lido em: A Ferida Aberta

publicado por carlossilva às 05:05
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009
un tema que nun passou de moda

 

Amor puode ser pan ser madrugada

puode ser nuite sin acunhar ua uolho

ua cantiga un beiso ua mirada

un ombro ua palabra mano cuolho.

 

Amor para quedar nun puode mais que dar

para bibir deixa morrer sou mundo

buscar çcanso puode ser trabalhar.

 

Puode ser ua spera ne l camino

un géstio ua frol que mos naciu

puode ser un siléncio que s'arrame.

Nunca puode parar ye pelegrino

siempre a manar cumo se fura un riu

ten de star cheno i siempre tener fame.

 

**************************************

 

Amor pode ser pão ser madrugada

pode ser noite sem pregarmos olho

uma cantiga um beijo uma mirada

um ombro uma palavra mão e colo.

 

Amor para ficar é vagabundo

para ter não pode mais que dar

para viver deixa morrer seu mundo

buscar descanso pode ser trabalhar.

 

Pode ser uma espera no caminho

um gesto uma flor que nos nasceu

pode ser um silêncio que se espalhe.

Nunca pode parar é peregrino

sempre a manar como se fora um rio

tem que estar cheio sem perder a fome.

 

***

Fracisco Niebro

Sendin, Miranda de l Douro (1950)

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lido em: Cula Torna Ampuosta Quienquiera Ara

publicado por carlossilva às 08:52
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Quinta-feira, 9 de Julho de 2009
a faca não corta o fogo

 

a faca não corta o fogo,

não me corta o sangue escrito,

não corta a água,

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?

eu sim queria,

jogando linho com dedos, conjugando

onde os verbos não conjugam,

no mundo há poucos fenómenos do fogo,

água há pouca,

mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,

mais brotada, inerente, incalculável,

e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,

e a abre e fecha,

é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,

porque no mundo há pouco fogo a cortar

e a água cortada é pouca,

¡que língua,

que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,

e que pouca, incrível, muita,

e la poésie, c'est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,

que despropósito, que língua língua,

disse Maurice Lefèvre, e como rebenta a boca!

queria-a  toda

 

***

herberto helder

Funchal - 1930

 

*******************************

 

 


lido em: Ofício cantante

publicado por carlossilva às 05:00
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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009
a natureza

 

A natureza

esculpiu na rocha

o grito do vento

e o tempo ganhou raízes

no silêncio infinito das sombras

 

***

josé efe

Porto - 1960

**********************

 


lido em: seiva rugosa
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publicado por carlossilva às 09:02
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Terça-feira, 7 de Julho de 2009
imobilidade viajante

 

 

Rastreio a noite diurna do pensamento,

penumbra angelical toldada em ondas coloridas,

avalanche intemporal de formas indefinidas,

adocicadas sonoramente e pelo opiáceo temperamento,

caminhada aérea pelas montanhas infindáveis,

planagem pelas ondas das sensações imensuráveis.

 

Se sei onde estou,

não sei por onde vou.

 

Enalteço a efemeridade do voo rasante,

fugaz hegemonia que se deleita como orgasmo,

plenitude esplendorosa em que me apraz o teu espasmo,

brisa marítima afagante do momento extenuante,

esbelta e singela emancipação momentânea,

incessante catadupa de imensa emoção instantânea.

 

Se não sei o que fazer,

farei o que acontecer.

 

***

BM Resende
 

********************


lido em: Khaos Poeticum

publicado por carlossilva às 08:59
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Domingo, 5 de Julho de 2009
pássaros das lembranças

 

dilui-se na distância o teu olhar

em vão tento prendê-lo e não consigo

no corpo, na boca, o recordar

do jeito do teu corpo e meu abrigo

 

escuro, a esvoaçar-me, perseguido

o pássaro das lembranças; e no ouvido

o eco do impotente pensamento

 

só sombras, como as leves fugidias

carícias a aflorar, longas, macias

a pele acetinada do momento

 

loucura, oh, como o sei, toda esta louca

saudade a reviver-te em minha boca

parado no minuto o tempo imenso

 

e eis-me, assim e só, faminta e oca

de não guardar de ti a pele, a boca

e nem de ti sequer o olhar suspenso

 

 

***

Maria Virgínia Monteiro

Espinho - 1931

*******************************


lido em: as cinzas e as brisas

publicado por carlossilva às 00:33
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Sábado, 4 de Julho de 2009
a tua voz

 

a tua voz

resiste às marquises dos prédios

 

a tua voz

é capaz de calar os escapes

 

a tua voz

embeleza o grafitti disforme

 

a tua voz

é um espaço para além do visível

 

a tua voz

é a tradução do ruído

 

á tua voz

é a arquitectura perfeita

 

***

José Carlos Dias

Lisboa - 1972

*****************************

 


lido em: zero

publicado por carlossilva às 05:29
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Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
sem sinais

 

normas de conduta desespero e falas de bem querer

malmequeres enviados em dias de festa

numa esperança de concretização de poder

o alarme é lançado pelo ar fora

de boca em boca chegado aos ouvidos

tão cheios de arquejo e asas de palmas

dadas por um público imenso

continuam os ritmos de tambor

nos rituais tão sagrados na religião pagã

formas de festejar pelos montes

com a alma alegre e cheia de verdejantes prados

às nuvens eclipsam por vezes o sol

a lua não alcançará tanto o seu objectivo

comparada com estes pássaros que retornam à terra

 

***

Cristina Benedita

Algés - 1966

****************************

 


lido em: A Boca Perfumada

publicado por carlossilva às 05:19
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Quinta-feira, 2 de Julho de 2009
entre quem é

 

Olho este vento frio, debaixo do sol,

que não concede sentir-se, deste regresso

ao areal

 

do sul.

 

Nem uma palavra, sinal de resposta,

ficou escrita no caminho.

 

Nem a voz, o espanto,

algum segredo de temor

 

azul.

 

Dessa imensidão escrita e guardada,

 

que é ainda o amor.

 

Nada.

 

Apenas e ainda, este cantar arrojado de sal

e de dor.

 

Alguém me bate à porta do corpo e eu amedronto-

me.

 

Não por ser alguém, que não há alguém.

 

Nem música, nem vento,

 

nem aves

 

até.

 

Eu respondo como sempre,

não com a garganta, os lábios,

 

as palavras inúteis.

 

Entre quem é!

 

***

Rogério Carrola

Tortosendo - 1947

****************************

 


lido em: Noor

publicado por carlossilva às 09:51
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