Quinta-feira, 21 de Maio de 2009
eu podia escolher

 

Não tinha ideia.

Escolhi a paz.

 

A verdade e a beleza

deixei-as ir,

e também a sageza e a nostalgia - 

até o amor,

que tão embevecido me olhava,

negras nuvens com ele se deslocavam.

 

Paz, era paz.

E nos recônditos da minha alma

dançavam seres

de que nunca tinha sequer ouvido!

 

E no céu pendia um outro sol.

 

***

Toon Tellegen

Países Baixos (1941)

 

*********************************

 

[trad: fernando venâncio]



publicado por carlossilva às 07:23
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Quarta-feira, 20 de Maio de 2009
afo(li)rismos

 

Nas casas demasiado silenciosas

os móveis falam sozinhos.

 

Algumas portas fecham-se com tal estrépito

que parece que jamais se poderão abrir de novo.

 

As palmeiras envergonham-se, cada dia mais,

de se terem convertido em árvores míticas.

 

O deus Pã morreu. O pânico, porém, persiste.

Iço as velas do teu corpo

e parto nele para o mar.

 

***

Artur Lundkvist

Suécia (1906 - 1991)

 

**********************************

 

[trad: ana hatherly] 



publicado por carlossilva às 08:58
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Terça-feira, 19 de Maio de 2009
pastor

 

Aquela extensão que dilata as narinas,

aquela altura que se inclina para o teu lado.

A claridade espalhada pela brancura do leite.

E o cheiro da lã.

E o cheiro do pão.

 

E aos pés do rebanho e do homem atento

ao canto das línguas na água do bebedouro,

descalço,

na nudez dos seus cinco sentidos,

a manhã avança ao encontro do meio-dia.

 

Manhã de génese! Evapora nos campos

os orvalhos da erva. E o incenso da estrumeira.

De horizonte a horizonte: um homem - e um campo.

De horizonte a horizonte: o rebanho - e Abel.

 

***

Avraham Schlonski

Ucrânia (1900-?)

 

*****************************************

 

[trad: cecília meireles]



publicado por carlossilva às 12:52
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Segunda-feira, 18 de Maio de 2009
descendente

 

Não há quadros dos meus antepassados

nem livro de família,

não conheço os seu legados,

suas faces, almas,vida.

 

Mas sinto o pulsar ancestral,

nómada, impetuoso sangue.

Furioso, desperta-me do sono nocturno,

encaminhando-me ao primeiro pecado.

 

Talvez a minha bisavó de olhos negros,

calças de seda e turbante,

tenha fugido a meio da noite

com algum louro khan estrangeiro.

 

Talvez o trotar dos cavalos tenha ressoado

pelas planícies do Danúbio

e o vento, encobrindo seus vestígios,

os tenha salvo do vingador punhal.

 

Talvez por isso tanto ame

a estepe inatingível ao olhar,

o intempestivo voo dos cavalos

e a livre voz do vento.

 

Talvez seja falsa e pérfida

e pelo caminho me dome,

sou na realidade tua filha,

minha consanguínea mãe - terra.

 

***

Elissavéta Bagriana

Bulgária (1893 - 1991)

 

***********************************************

 

[trad: vítor tiago / j. c. gonzález]



publicado por carlossilva às 11:43
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Domingo, 17 de Maio de 2009
canção da verdade jovem

 

 

A verdade cantava no escuro

No cimo da tília sobre o coração

 

O sol há-de amadurecer dizia

No cimo da tília sobre o coração

Se os olhos o iluminarem

 

Troçámos da canção

Agarrámos prendemos a verdade

Cortámos-lhe a cabeça debaixo da tília

 

Os olhos estavam noutro sítio

Ocupados com outra obscuridade

E nada viram

 

***

 

Vasko Popa

Sérvia (1922 – 1991)

 

******************************+

 

 

[trad: eugénio de andrade]



publicado por carlossilva às 00:09
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Sábado, 16 de Maio de 2009
dava a última camisa por um poema

 

 

Dava a última camisa por um poema.

Domingo ao fim da tarde só restam cinzas.
Todos. Tudo inteiramente consumido. Tudo,o quê?
Segunda, sobrava alguma palavra intacta na lareira?

Terça
tão comprida como um ano

quarta, outra vez a esperança
Não, sem poema não se pode viver!

Quinta a memória entra em pânico
A pouca claridade que restava anoiteceu

também na sexta as vagonetas com o meu minério
perdem-se no túnel.

Sábado:
trabalho em vão!
Domingo tudo recomeça e voltava a dar
a última camisa por um poema

 

***

Jan Kostra 
Eslováquia (1910 - 1925)

 

*******************************


[trad: ernesto sampaio]



publicado por carlossilva às 00:01
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2009
piano

 

 

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;

Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo

Uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das cordas

E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri enquanto ela canta.

 

Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção

Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para pertencer

Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o universo lá fora

E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.

 

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor

Com o appasionato do grandioso piano negro. A magia

Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade

É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança pelo passado.

 

*** 

D. H. Lawrence

Reino Unido (1885 – 1930

 

*********************************** 

 

[trad: cecília rego pinheiro]



publicado por carlossilva às 00:36
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Quinta-feira, 14 de Maio de 2009
que silêncio, o das verdes florestas

 

 

Que silêncio, o das verdes florestas

Da nossa terra,

Da vaga cristalina

Morrendo contra um muro de ruínas,

E nós choramos durante o sono;

Deambulando com passos hesitantes

Ao longo da espinhosa sebe

Cantores no verão da tarde,

Na paz sagrada

Do reflexo distante de vinhedos;

 

Sombras agora no fresco seio

Da noite, águas carpindo.

Que silêncio o do raio lunar fechando

As marcas purpúreas da melancolia

 

*** 

Georg Traki

Áustria (1887 – 1914)

 

************************************

 

[trad: joão barrento]

 



publicado por carlossilva às 01:33
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Quarta-feira, 13 de Maio de 2009
fuga sobre a morte

 

 

Leite-breu d' aurora nós o bebemos à tarde
nós o bebemos ao meio-dia e de manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma cova grande nos ares
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e
                                                                                 [escreve
ele escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
                                                                     [ouro Margarete
ele escreve e aparece em frente à casa e brilham as estrelas ele
                                               [assobia e chama seus mastins
ele assobia e chegam seus judeus manda cavar uma cova na terra
ordena-nos agora toquem para dançarmos
Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos de manhã e ao meio-dia nós te bebemos à tarde
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem que brinca com as serpentes e
                                                                            [escreve
que escreve para a Alemanha quando escurece teus cabelos de
                                                                     [ouro Margarete
Teus cabelos de cinza Sulamita cavamos uma cova grande
                                            [nos ares onde não se deita ruim
Ele grita cavem mais até o fundo da terra vocês ai vocês ali
                                                            [cantem e toquem
ele pega o ferro na cintura balança-o seus olhos são
                                                                           [azuis
cavem mais fundo as pás vocês aí vocês ali continuem tocando
                                                                   [para dançarmos
Leite-breu d' aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e de manhã nós te bebemos à tardinha
bebemos e bebemos
Na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com as serpentes
Ele grita toquem mais doce a morte a morte é uma mestra
                                                                  [d' Alemanha
Ele grita toquem mais escuro os violinos depois subam aos
                                                          [ares como fumaça
e terão uma cova grande nas nuvens onde não se deita ruim

Leite-breu d'aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a morte é uma mestra d' Alemanha
nós te bebemos à tarde e de manhã bebemos e bebemos
a morte é uma mestra d' Alemanha seu olho é azul
ela te atinge com bala de chumbo te atinge em cheio
na casa mora um homem teus cabelos de ouro Margarete
ele atiça seus mastins contra nós dá-nos uma cova no ar
ele brinca com as serpentes e sonha a morte é uma mestra
                                                                     [d' Alemanha
teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinza Sulamita

 

***

Paul Cela

Roménia ( 1920 - 1970)

 

***************************************

 

[trad: Claudia Cavalcanti] 

 


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publicado por carlossilva às 01:51
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Terça-feira, 12 de Maio de 2009
in limine

 

Godi se il vento ch'entra nel pomario
vi rimena l'ondata della vita:
qui dove affonda un morto
viluppo di memorie,
orto non era, ma reliquiario.

Il frullo che tu senti non è un volo,
ma il commuoversi dell'eterno grembo;
vedi che si trasforma questo lembo
di terra solitario in un crogiuolo.

Un rovello è di qua dall'erto muro.
Se procedi t'imbatti
tu forse nel fantasma che ti salva:
si compongono qui le storie, gli atti
scancellati pel giuoco del futuro.

Cerca una maglia rotta nella rete
che ci stringe, tu balza fuori, fuggi!
Va, per te l'ho pregato,— ora la sete 
mi sarà lieve, meno acre la ruggine…


***

Eugénio Montale

Itália (1896 – 1981)

 

*************************************************

 

 

Folga se o vento sopra no pomar e o 
faz tremer na ondulação da vida; 
aqui se afunda um morto 
urdume de memórias, 
que horto já não é, mas relicário. 

Não é um vôo este adejar ao sol 
e sim a comoção do eterno seio; 
vê como se transforma um pobre veio 
de terra solitário num crisol.

Ímpeto desta parte do árduo muro. 
Se avanças, tens contatos 
(tu talvez) com o fantasma que te salva; 
aqui vão-se compondo histórias, atos 
riscados pelo jogo do futuro. 

Procura a malha rota nesta rede 
que nos estreita, e pula fora, escapa! 
Vai, por ti faço votos — minha sede 
será leve, a ferrugem menos áspera. 

[Trad: Ivo Barroso]

 



publicado por carlossilva às 03:25
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