Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009
oh! liberdade!

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver, do cimo dos meus montes,
o quadro roxo
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor

Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhe romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!

 

***

Xanana Gusmão (1946)

Timor



publicado por carlossilva às 02:10
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Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009
ritmo para a joia daquela roça

Dona Jóia dona

dona de lindo nome

tem um piano alemão

desafinando de calor.

 

Dona Jóia dona

do nome de Sum Roberto

está chorando nos seus olhos

de outras terras saudades.

 

Dona Jóia dona

dona de tudo que é lindo:

do oiro cacaueiro

do café de frutos vermelhos

das brisas da nossa ilha.

 

Dona Jóia dona

dona de tudo que é triste:

meninos de barriga oca

chupando em peitos chatos;

negros de pezão grande

trabalhando pelos matos.

 

Ai! Dona Jóia,

dona de mim também –

Jesus, Maria, José

Credo! –

não me olhe assim-sim

que me pára o coração!

 

***

Francisco José Tenreiro (1921-1963)

S. Tomé e Príncipe



publicado por carlossilva às 00:19
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009
ninguém meu amor

Ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Podem utilizá-lo nos espelhos

apagar com ele

os barcos de papel dos nossos lagos

podem obrigá-lo a parar

à entrada das casas mais baixas

podem ainda fazer

com que a noite gravite

hoje do mesmo lado

Mas ninguém meu amor

ninguém como nós conhece o sol

Até que o sol degole

o horizonte em que um a um

nos deitam

 

vendando-nos os olhos

 

***

Sebastião Alba (1940-2000)

Portugal



publicado por carlossilva às 01:08
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Domingo, 18 de Janeiro de 2009
canção dos rapazes da ilha

 

Eu sei que fico.
Mas o meu sonho irá
Levado pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos frutos, nos colares
E nas fotografias da terra,
Comprados por turistas estrangeiros
Felizes e sorridentes.
Eu sei que fico mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Metido na garrafa bem rolhada
Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá ...

Eu sei que fico
Mas o meu sonho irá
Nos veleiros que desenho na parede.

 

***

Aguinaldo Fonseca (1922)

Cabo Verde


 



publicado por carlossilva às 04:58
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Sábado, 17 de Janeiro de 2009
corpo adentro

Teu corpo é canoa
em que desço
vida abaixo
morte acima
procurando o naufrágio
me entregando à deriva.

Teu corpo é casulo
de infinitas sedas
onde fio
me afio e enfio
invasor recebido
com licores.

Teu corpo é pele exata para o meu
pena de garça
brilho de romã
aurora boreal
do longo inverno.

 

***

Marina Colasanti (1937 - Asmara (Etiópia)

Brasil



publicado por carlossilva às 08:43
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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
batucada na noite

Bissau cresce

quando o sol desce

vem com o fio da noite

e só adormece

quando amanhece 
 

O álcool

e o week-end

inflamam corpos

cheios de adornos 
 

Na noite

há insónias

e sónias de muitos nomes

não é só o mote

aqui há funky

há merengada

e antilhesas na madrugada

Lufadas de amor

moldam corpos

suarentos de ardor

há um saracoteio

permanente

na passarelle da noite

sedas flutuantes

coxas remexendo

num sincopado

que dá síncope 
 

O odor

mastiga o ar

sem pudor mistura-se

confunde-se

catinga

chanel

paco rabane

água cheiro

suor

e dior

ça va comme ça…

O old scotch

dá o toque final

É fatal

afinal porque não… 
 

A batucada cresce

abre o espaço

a cidade não dorme

 

***

Tony Tcheka (1951)

Guiné Bissau



publicado por carlossilva às 09:29
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Quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
memória

Baloiçando nos escombros de teu itinerário    

saberás que os gados constroem estradas.

E quando a mão deslizar pela margem

das cicatrizes que se afundam na noite

saberás que a tua mão viaja para a

colina dos dias sem escombros

e saberás que no berço da noite jaz a luz

drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.

 

***

 

João Maimona (1955)

Angola



publicado por carlossilva às 17:20
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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009
ensaio de lágrimas

Se as nossas lágrimas

apagassem o ódio que nos cerca

e apagassem também o fogo que nos mata

mãe

eu pediria as lágrimas de todos

sangrando as pupilas.

 

Mas temo, mãe

que nos afoguemos um dia

dentro das nossas lágrimas.

 

***

Helder Muteia (1960)

Moçambique



publicado por carlossilva às 11:41
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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009
cantos do meu país

Canto as mãos que foram escravas
nas galés
corpos acorrentados a chicote
nas américas


Canto cantos tristes
do meu País
cansado de esperar
a chuva que tarde a chegar


Canto a Pátria moribunda
que abandonou a luta
calou seus gritos
mas não domou suas esperanças


Canto as horas amargas
de silêncio profundo
cantos que vêm da raiz
de outro mundo
estes grilhões que ainda detêm
a marcha do meu País


***

Julião Soares Sousa

Guiné-Bissau


 


lido em: Um novo amanhecer

publicado por carlossilva às 12:22
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Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009
não mais sob a árvore de bô

Não mais a pureza de Ramahyana
o incenso e o sândalo
os pés nus nas pedras do templo

enquanto eles comerem na minha mesa
na velha casa de Dili
não mais me sentarei sob a árvore de Bô

 

***

Jorge Lauten

Timor

 



publicado por carlossilva às 16:57
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