Terça-feira, 9 de Setembro de 2008
descalça vai para a fonte


I

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
Vai formosa e não segura.

II

Se tivesse umas chinelas
iria melhor...; mas não:
com dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.

Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura...
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.

Há verduras pelos prados,
há verduras no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
canta, livre, um passarinho,
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.

Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia... virá...
Os olhos voam na altura
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.

 

***

António Cabral (1931 - 2007)

Castedo do Douro (Alijó)


lido em: Antologia dos Poemas Durienses

publicado por carlossilva às 11:17
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Segunda-feira, 8 de Setembro de 2008
a tua roca

Quando te vejo à noitinha
Nessa cadeira sentada,
Xaile cruzado no peito,
Na cinta a roca enfeitada.

Os olhos postos na estriga,
Volvendo o fuso nos dedos,
Os lábios contando ao fio
Da tua boca segredos.

Eu digo, sem que tu oiças,
Pondo os olhos na tua roca:
Se eu um dia fosse estriga,
Beijaria aquela boca!

Que eu nunca te vi fiando
Sem invejar os desvelos
Com que desfias do linho
Os brancos, finos cabelos!

E aquela fita de seda
Com que enleias o fiado,
Irmã do lencinho verde
Que trazes no penteado?

Parece aquilo um abraço
De um amor que é todo nosso,
A trança do teu cabelo
Em volta do meu pescoço!

É por isso que eu murmuro
Vendo a fita que se enreda:
Quem me dera ser a estriga,
E ela a fitinha de seda!

Eu já sei o que sinto,
Se tristeza, se ventura,
Mal que suspendes a roca
Da tua breve cintura!

Penso que fias nos dedos
Os dias da minha vida,
Ao pé de ti sempre curta,
Ao longe sempre comprida!

Pareces-me um ramalhete
Sentada nessa cadeira,
E a fita da tua roca
A silva de uma roseira.

Meu amor, quando acabares
De espiar a tua estriga
E ouvires por alta noite
Soluçar uma cantiga,

Sou eu que estou a lembrar-me
Da tua divina boca,
E penso que em mim são dados
Os beijos que dás na roca!
 

***

José Simões Dias (1844 - 1899)

 Benfeita - Arganil (Portuga)



publicado por carlossilva às 03:25
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Domingo, 7 de Setembro de 2008
cleópatra

Como a concha de nácar luminoso
Em que Vénus surgiu, risonha e nua,
A Galera vogava ao sol radioso
Com a graça dum Cisne que flutua.

Soltas ao vento as velas de brocado,
Ao som das Liras, sobre o rio imenso,
Dos remos de oiro e de marfim sulcado,
O destino do Mundo ia suspenso!

Como nuvens correndo, as horas passam;
Já se divisa o porto; o Sol declina,
E enquanto as velas, marinheiros, cassam,
Ela que um sonho de poder domina,

Diante do espelho, a reflectir, perscruta
Do seu corpo a beleza profanada,
Como o rufião nocturno, antes da luta,
Examinando a lâmina da espada!
 

***

António Feijó (1859 - 1917)

Ponte de Lima (Portugal)



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Sábado, 6 de Setembro de 2008
eu cantarei um dia da tristeza

Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.

Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.

Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.

Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inutilmente.
 

***

Marquesa de Alorna (1750 - 1839)

Lisboa (Portugal)



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Sexta-feira, 5 de Setembro de 2008
ditoso o que em paternas, poucas jeiras

Ditoso o que em paternas, poucas jeiras
seus desejos encerra e seus cuidados,
e respira, contente, o ar nativo
em terra sua!

Seus gados lhe dão leite; pão seus campos;
seus rebanhos vestido; pelo Estio,
acha nas próprias árvores a sombra;
de Inverno, o lume.

Correm-lhe em um desleixo abençoado
suavemente as horas, dias e anos:
com saúde no corpo, paz no espírito
vela tranquilo.

A sono solto dorme; o estudo e cómodo
possui unidos – lícito recreio -
e com a meditação mais saborosa
goza o retiro.

Deixem-me assim viver, desconhecido;
deixem-me assim morrer, sem ser chorado,
do mundo homiziado e sem que a campa
diga onde jazo.
 

***

Anastácio da Cunha (1744 - 1787)

Lisboa (Portugal)



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Quinta-feira, 4 de Setembro de 2008
se apartada do corpo a doce vida

Se apartada do corpo a doce vida,
Domina em seu lugar a dura morte,
De que nasce tardar-me tanto a morte
Se ausente da alma estou, que me dá vida?

Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano, venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.

Ah! suspirado ausente, se esta morte
Não te obriga querer vir dar-me vida,
Como não ma vem dar a mesma morte?

Mas se na alma consiste a própria vida,
Bem sei que se me tarda tanto a morte,
Que é porque sinta a morte de tal vida.
 

***

Soror Violante do Céu (1602 - 1693)



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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008
a um rouxinol cantando

Ramalhete animado, flor do vento,
Que alegremente teus ciúmes choras
Tu, cantando teu mal, teu mal melhoras,
Eu, chorando meu mal, meu mal aumento.

Eu digo minha dor ao sofrimento
Tu cantas teu pesar a quem namoras,
Tu esperas o bem todas as horas,
Eu tenho qualquer mal tudo o momento.

Ambos agora estamos padecendo
Por decreto cruel do deus mínimo;
Mas eu padeço mais só porque entendo.

Que é tão duro e cruel o meu destino
Que tu choras o mal que estás sofrendo,
Tu choro o mal que sofro e que imagino.
 

***

Francisco de Vasconcelos (1665 - 1723)

Funchal (Portugal)

 



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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008
a uma ausência

Sinto-me, sem sentir, todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem, que me entretém, me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado;
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta;
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio;
No mor risco me anima á confiança;
Do que menos se espera estou mais certo.

Mas se de confiado desconfio,
É porque, entre os receios da mudança,
Ando perdido em mim como em deserto.
 

***

António Barbosa Bacelar (1610 - 1663)

Lisboa (Portugal)



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Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008
soneto V

Eu cantarei de amor tão novamente,
Se me ouve aquela de quem sempre canto,
Que de mim dor e magoa, e dela espanto
Terá a mais fera, inculta e dura gente.

E ela que assi tão crua e indinamente
Dura aos meus choros é, surda ao meu canto,
Algüa parte crerá (se não for tanto
Como eu desejo) do que esta alma sente.

Mas como esperarei achar piedade
De mim nem em mim mesmo, se ela nega
(Não peço brandos já) duros ouvidos?

Se nega um volver de olhos com que cega
A luz e dá só escuro claridade,
Como serão meus danos nunca cridos?
 

***

Pêro de Andrade Caminha (152? - 1589)

Porto (Portugal)



publicado por carlossilva às 13:44
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