Quinta-feira, 10 de Julho de 2008
esse verão

 
 

Vinha meio nu
Trazia uma cesta de vime cheia de amoras
que colhera nas margens do rio
Passara a tarde toda de silvado em silvado
Na sua mão direita um pequeno arranhão
- Tão quente tão quente
esse verão

***

Jorge Sousa Braga (1957)

Vila Verde (Braga)



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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008
não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
 

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.


***
Maria do Rosário Pedreira (1959)
 

Lisboa (Portugal)

 


lido em: A Casa e o Cheiro dos Livros

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Terça-feira, 8 de Julho de 2008
o vestido cor de salmão

 

Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço

 

***

Adília Lopes (1960)

Lisboa (Portugal)


lido em: O Decote da Dama de Espadas

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Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
identidade

A identidade, como a pele,

renova-se, perde-se de sete

em sete anos, muda no mesmo

corpo, torna diferente

a permanência humana.

A identidade é a soma

das intenções, uma foto

instantânea para um propósito

imediato que não dura.

A identidade é um equívoco

para camuflar o coração.

 

***

Pedro Mexia (1972)

Lisboa (Portugal)

 

 


lido em: Duplo Império

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Domingo, 6 de Julho de 2008
O poema são fogueiras levantadas na garganta

O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.

Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,

a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro.

***

Jorge Melícias (1970)


lido em: A Luz nos Pulmões

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Sábado, 5 de Julho de 2008
árvores

 

São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde

no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende

na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu

que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado

***
Gastão Cruz (1941)
Faro (Portugal)

 

 



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Sexta-feira, 4 de Julho de 2008
se me comovesse o amor

Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia

caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer

o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.

Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
 

 

***

Francisco José Viegas (1962)

Pocinho (Vila Nova de Foz Coa)


lido em: Se me Comovesse o Amor

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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008
estou escondido na cor amarga do fim da tarde

 

estou escondido na cor amarga do
fim da tarde. sou castanho e verde no
campo onde um pássaro
caiu. sinto a terra e orgulho
por ter enlouquecido. produzo o corpo
por dentro e sou igual ao que
vejo. suspiro e levanto vento nas
folhas e frio e eco. peço às nuvens
para crescer. passe o sol por cima
dos meus olhos no momento em que o
outono segue à roda do meu tronco e, assim
que me sinta queimado, leve-me o
sol as cores e reste apenas o odor
intenso e o suave jeito dos ninhos ao
relento

***

Valter Hugo Mãe (1971)
Angola

 


lido em: Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde

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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
existia uma rua de onde observava o mar

existia uma rua de onde observava o mar

as ondas desaparecidas já, apenas os rochedos

seus mexilhões e anémonas

a ligeira brisa

 

levantei-me de madrugada, tinha dez anos

balbuciei uns passos até á janela

 

hoje termino esse passeio pela sala

como se sentisse a água salgada

por entre os dedos

 

e novamente o mar, abraçando a felicidade

junto às areias

 

***

Jorge Reis-Sá (1977)

Vila Nova de Famalicão (Portugal)


lido em: A Palavra no Cimo das Águas

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Terça-feira, 1 de Julho de 2008
as cruzes ao longo das estradas

São como sombras tristes, são como o outono.

pode olhar-se para dentro das cruzes ao longo

das estradas, são como poços, são como filhos

 

perdidos. As cruzes ao longo das estradas estão

cobertas por flores de plástico, secas, desbotadas

pela luz que, nos campos, brinca com os rostos

 

 

e com a memória. Existem linhas traçadas entre

o céu e as cruzes ao longo das estradas, são elas

que seguram uma parte do mundo, só os pais são

capazes de as ver

 

Agora, enquanto falamos de papagaios de papel,

elas estão lá, onde sempre estiveram.

 

As cruzes ao longo das estradas são diferentes

de nós porque se nós somos  vento e passamos,

as cruzes ao longo das estradas também são o vento,

mas há muito tempo que conseguiram chegar lá.

 

***

José Luís Peixoto (1974)

Galveias - Portalegre (Portugal)

 


lido em: Gaveta de Papéis

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