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Vinha meio nu Vila Verde (Braga) |
| Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto |
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Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto Lisboa (Portugal) |
Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço
***
Adília Lopes (1960)
Lisboa (Portugal)
A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.
***
Pedro Mexia (1972)
Lisboa (Portugal)
O poema são fogueiras levantadas na garganta
ou um sono inclinado sobre as facas.
Alguém diz, a prumo
todos os nomes queimam,
e há uma deflagração assombrosa,
a palavra acende-se
com uma árvore de sangue ao centro.
***
Jorge Melícias (1970)
São plátanos palmeiras castanheiros
jacarandás amendoeiras e até as
oliveiras que
quando a noite cai na infância formam uma
cortina escura na estrada frente à casa
árvores apagando os dias que a memória
avidamente esconde
no corpo do seu gémeo Penetra inutilmente
na terra essa raiz do branco plátano
adolescente
e o campo do tempo onde as palmeiras eram
pilares do corpo nu símbolo de
si mesmo, à luz
do dia fixo, já se estende
na húmida manhã dos castanheiros
Esquecimento que tudo enfim possuis
e geras
a ofuscante luz igual à da
memória, do tempo como ela
filho, construtor da ausência,
em vão te invoco Tu
que mudas a roxa amendoeira
em brancas flores do jacarandá
entrega a minha vida às árvores
que foram na manhã e no crepúsculo
no meio-dia e na noite, palavra
clara que traz o dia em si fechado
***
Gastão Cruz (1941)
Faro (Portugal)
Se me comovesse o amor como me comove
a morte dos que amei, eu viveria feliz. Observo
as figueiras, a sombra dos muros, o jasmineiro
em que ficou gravada a tua mão, e deixo o dia
caminhar por entre veredas, caminhos perto do rio.
Se me comovessem os teus passos entre os outros,
os que se perdem nas ruas, os que abandonam
a casa e seguem o seu destino, eu saberia reconhecer
o sinal que ninguém encontra, o medo que ninguém
comove. Vejo-te regressar do deserto, atravessar
os templos, iluminar as varandas, chegar tarde.
Por isso não me procures, não me encontres,
não me deixes, não me conheças. Dá-me apenas
o pão, a palavra, as coisas possíveis. De longe.
***
Francisco José Viegas (1962)
Pocinho (Vila Nova de Foz Coa)
estou escondido na cor amarga do fim da tarde. sou castanho e verde no campo onde um pássaro caiu. sinto a terra e orgulho por ter enlouquecido. produzo o corpo por dentro e sou igual ao que vejo. suspiro e levanto vento nas folhas e frio e eco. peço às nuvens para crescer. passe o sol por cima dos meus olhos no momento em que o outono segue à roda do meu tronco e, assim que me sinta queimado, leve-me o sol as cores e reste apenas o odor intenso e o suave jeito dos ninhos ao relento *** Valter Hugo Mãe (1971) Angola
existia uma rua de onde observava o mar
as ondas desaparecidas já, apenas os rochedos
seus mexilhões e anémonas
a ligeira brisa
levantei-me de madrugada, tinha dez anos
balbuciei uns passos até á janela
hoje termino esse passeio pela sala
como se sentisse a água salgada
por entre os dedos
e novamente o mar, abraçando a felicidade
junto às areias
***
Jorge Reis-Sá (1977)
Vila Nova de Famalicão (Portugal)
São como sombras tristes, são como o outono.
pode olhar-se para dentro das cruzes ao longo
das estradas, são como poços, são como filhos
perdidos. As cruzes ao longo das estradas estão
cobertas por flores de plástico, secas, desbotadas
pela luz que, nos campos, brinca com os rostos
e com a memória. Existem linhas traçadas entre
o céu e as cruzes ao longo das estradas, são elas
que seguram uma parte do mundo, só os pais são
capazes de as ver
Agora, enquanto falamos de papagaios de papel,
elas estão lá, onde sempre estiveram.
As cruzes ao longo das estradas são diferentes
de nós porque se nós somos vento e passamos,
as cruzes ao longo das estradas também são o vento,
mas há muito tempo que conseguiram chegar lá.
***
José Luís Peixoto (1974)
Galveias - Portalegre (Portugal)
19 de abril 2013
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