Desde aqui
deste canto distante
onde o mar e a terra
pernoitam dia após dia
onde a água
tem o mesmo sabor
ao sal de teus lábios
onde a areia molhada
guarda a forma
de teu corpo
desde aqui te lembro
e ofereço esta canção tardia
a canção do meu amor
***
Fernando Rente (1933)
Penafiel (Portugal)
| Frutos |
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Quando a amada oferece Fundão (Portugal) |
Passaram anos e anos
sobre esta roda da vida,
farinha que foi moída,
vai-se a ver, são desenganos
Atou-me a sorte este nó,
cobriu-me com estes panos.
Ao peso dos meus enganos
sai a farinha da mó.
Na palma da mão estendida
leio um caminho de pó
lembranças do homem só
São as andanças da vida
Foram dias, foram anos,
foi uma sorte moída,
vida que tenho vivida,
(vai-se a ver são desenganos)
Foram dias, foram anos,
for a sorte apodrecida.
Dentro da roda da vida
sinto roer os fusanos
Lembranças da minha vida
perdem-se em nuvens de pó.
Bem me chamam Pedro Só,
(nome de roda partida)
***
Fernando Assis Pacheco (1937 - 1995)
Coimbra (Portugal)
Um anjo erra
nos teus olhos diurnos
humedecido do véu
(ao fundo, a íris entardece)
seguiu de cor a revoada das pombas
místico
um arroubo ascende a prumo
do plano em que me fitas
cisnes desaguam
do teu olhar em fio
e vogam ao redor, pelo estuário da sala
ao sol-poente
os vitrais das janelas
ardem na catedral assim erguida
colocamos um sonho
em cada nicho
e no círculo formado pelas nossas bocas
subentende-se com verve
a língua.
***
Sebastião Alba (1940 - 2000)
Braga (Portugal)
Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,
sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.
***
Victor Matos e Sá (1926 - 1975)
Maputo (Moçambique)
indecente rimar, uma criança a esbugalhar os olhos de pavor. uma cidade a arder. a governança do mundo a esquivar-se: a sua dança rima obscenamente com timor. indecente rimar. lua assassina. uma rajada e outra. um estertor. um uivo, um corpo, um morto em cada esquina. honra do mundo que se contamina no arame farpado de timor. indecente rimar sândalo e vândalo. sacode a noite apenas o tambor das sombras acossadas. tens o escândalo que te invadiu a alma, mas comanda-lo? onde te leva o grito por timor? indecente rimar pois também rimam temor, tremor, terror e invasor por mais hipocrisias que se exprimam enquanto de hora a hora se dizimam os restos do que resta de timor. indecente rimar: mas nas florestas nunca rimaram tanta raiva e dor a às vezes são precisas rimas destas, bumerangue de sangue com arestas da própria carne viva de timor. *** Vasco Graça Moura (1942) Porto (Portugal)
| Agora é diferente Tenho o teu nome o teu cheiro A minha roupa de repente ficou com o teu cheiro Agora estamos misturados No meio de nós já não cabe o amor Já não arranjamos lugar para o amor Já não arranjamos vagar para o amor agora isto vai devagar isto agora demora *** Manuel António Pina (1943) Sabugal (Portugal) |
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cai neve no cérebro vivo do imaculado - dizem Coimbra (Portugal) |
Nenhum de nós passeia impune
pelos retratos: fazem-nos doer
os recessos da memória.
Deles saltam, por vezes, sustos,
primeiras noites, secreta
loucura, lábios que foram.
Interditam-nos sempre.
Trepam-nos pelo torpor
mais desprevenido, subsistem.
A sua perenidade é volátil
e cheia de venenosos ardis.
Um sopro no acetato.
Distintos, os seus contornos
não são nunca
os que supomos.
***
Eduardo Pitta (1949)
Lourenço Marques (Moçambique)
19 de abril 2013
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