Terça-feira, 10 de Junho de 2008
ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos

E para mais me espantar

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos-

Cuidando alcançar assim

O bem tão malordenado

Fui mau mas fui castigado.

Assim que, só para mim,

Anda o mundo concertado.

 

in Primeiro Livro De Poesia
selecção de Sophia de Mello Breiner Andresen
ilustrações de Júlio Resende
 

***

Luís de Camões (1524(?) - 1548)

Lisboa - Portugal

 


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Segunda-feira, 9 de Junho de 2008
instante

A cena é muda e breve:

Num lameiro,

Um cordeiro

A pastar ao de leve.

 

Embevecida,

A mãe ovelha deixa de remoer

E a vida

Pára também, a ver.

 

in Primeiro Livro De Poesia

selecção de Sophia de Mello Breiner Andresen

ilustrações de júlio Resende

 

***

 Miguel Torga(1927 - 1995)

S. Martinho de Anta (Vila Real) - Portugal


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Domingo, 8 de Junho de 2008
o pastor

Pastor, pastorinho,

onde vais sozinho?

 

Vou àquela serra

buscar uma ovelha.

 

Porque vais sozinho,

pastor, pastorinho?

 

Não tenho ninguém

que me queira bem.

 

Não tens um amigo?

Deixa-me ir contigo.

 

in Primeiro Livro De Poesia
selecção de Sophia de Mello Breiner Andresen
ilustrações de Júlio Resende
 

***

Eugénio de Andrade (1923 - 2005)

Fundão - Portugal

 


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Sábado, 7 de Junho de 2008
a gaivota

«Quantas vezes já viajei

à roda do mundo? Cinco?

Seis? Sete?

Sim, foram sete!

Fascinante vida

Fascinante aventura!

Agora estou velha

e doente.

 

No topo deste guindaste

na Ribeira

contemplo

quem sabe pela última

vez

a Ponte de D. Luís

e o Mosteiro da Serra

do Pilar.

 

Será este o meu último

sono? O sono da morte?»

 

Depois

quando acordou

ei-la voando

veloz sobre a Meia Laranja

a Cantareira e a Foz.

Ia em busca

do Grande-Mar-Oceano

para enfim descansar.

 

***

Papiniano Carlos (1918)

Lourenço Marques (Maputo) - Moçambique

 


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Sexta-feira, 6 de Junho de 2008
sereia

A Sereia nunca mente

quando, cantando, se mexe.

Pra cá da cintura é gente

pra lá da cintura é peixe.

 

Se alá da cintura é peixe

e acá da cintura é gente,

canta, e se ao cantar se mexe,

a sereia nunca mente.

 

Nem eu cuido que haja guerra

nessa maneira de estar

com a voz lançada à terra

pelos caminhos do mar.

 

Os caminhos são do mar

sim, mas a voz é da terra

e nessa forma de estar

tudo haverá menos guerra

nem aberta, nem secreta,

por ter sido ou por achar

 

é tudo a voz do poeta

quando se põe a cantar.

 

***

Mário Castrim (1920 - 2002)

Ílhavo - Portugal

 


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Quinta-feira, 5 de Junho de 2008
dois irmãos

Eu conheço dois meninos

que em tudo são diferentes

Se um diz: «Dói-me o nariz!»,

o outro diz: «Ai, meus dentes!»

 

Se um quer brincar em casa,

o outro foge para o monte;

e se este a casa regressa,

já o outro foi para a fonte.

 

É difícil conviver con tanta contradição,

Quando um diz:«Oh, que calor!»

«Que frio!» - diz o irmão.

 

Mas quando a noitinha chega

com suas doces passadas,

pedem à mãe que lhes conte

histórias de Bruxas e Fadas.

 

E quando o sono esvoaça

por sobre o dia acabado,

dizem «Boa noite, mãe!»

e adormecem lado a a lado.

 

***

Maria Alberta Menéres (1930)

Vila Nova de Gaia - Portugal

 


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Quarta-feira, 4 de Junho de 2008
onde está o gato?

Os burros tocam viola,

Os ratos varrem a rua,

As meninas usam barba,

Eu vivo sempre na lua.

 

Os carapaus têm lã,

As galinhas têm espinhas,

As vacas dão coca-cola

E chocolates as vinhas.

 

os gatos calçam sapatos,

Olha a trança das serpentes,

As moscam falam francês,

Os galos lavam os dentes.

 

As casas voam no ar,

As nuvens dormem no chão,

Os olhos fazem chichi

E crescem rosas na mão.

 

Miúdo que estás a ouvir-me,

Pois tens orelhas de rã,

Diz lá o que está errado

Ou faço queixa à mamã.

 

***

Luísa Ducla Soares (1939)

Lisboa - Portugal

 


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Terça-feira, 3 de Junho de 2008
guarda-roupa de nuvens

Há nuvens para tudo

para todos os gostos.

Ou barcos parados

no céu ondulado

dastardes de Agosto

ou lenços rasgados

pelos nervos do vento

dum maio indisposto.

 

Há nuvens para tudo

em nuvens havendo.

Ou damas rosadas

pisando azinhagas

dos fins de Setembro

ou velhos barbaças

deitando fumaças

por todo o dezembro.

 

Há nuvens para tudo

rolando nos olhos.

Comboio correndo,

camisas de folhos,

leões indolentes,

corujas, serpentes,

cascatas, torrentes,

rochedos e escolhos.

 

Há nuvens para tudo

e, às vezes, sem querer,

um céu branco e mudo,

cortina em veludo,

que não deixa ver

as nuvens desnudas

que ensaiam e mudam

o ser e o patecer

para o baile de entrudo

do nosso prazer.

 

***

António Torrado (1939)

Lisboa - Portugal

 


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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008
rosas bravas

São pedras, tantas pedras

amontoadas.

De heras e muito musgo

forradas.

E as telhas, tantas telhas

escaqueiradas

cobrem aquelas pedras alinhadas.

Tem duas janelas

esburacada

e duas portas

empenadas.

E à beira dessas pedras

amontoadas

de heras e muito musgo

forradas

crescem duas rosas bravas

 

***

António Mota (1957)

Vilarinho - Ovil - Baião - Portugal


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Domingo, 1 de Junho de 2008
pedra filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso,
em serenos sobressaltos
como estes pinheiros altos


que em verde e ouro se agitam
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma. é fermento,
bichinho alacre e sedento.
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel.
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança.,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som televisão
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre a mãos de uma criança.

 

***

 

António Gedeão



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