Sexta-feira, 20 de Junho de 2008
preia-mar

As ondas quebram na areia,

dizem segredos perdidos...

Saudades da maré-cheia,

de barcos e tempos idos...

 

Segredos tristes, lamentos,

que o mar não pôde calar...

E foi dizê-los aos ventos,

aos pescadores, ao luar...

 

As ondas dizem na areia

saudades dos tempos idos...

Segredos da maré-cheia,

de barcos tristes

                               - perdidos.

 

in Missiva

 

***

Daniel Filipe (1925 - )

Cabo Verde



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Quinta-feira, 19 de Junho de 2008
o velho palácio

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas,

Fundado numa rocha, à beira-mar...

Donde se avistam lívidas colinas,

E se ouve o vento nos pinhais pregar.

Houve outrora um palácio, hoje em ruínas.

 

Nesse triste palácio inabitável,

As janelas sem vidros, contra os ventos,

Batem, de noite, em coro miserável,

Lembrando gritos, uivos e lamentos.

Nesse triste palácio inabitável...

 

Só resta uma varanda solitária,

Onde medra uma flor que bate o norte,

Sacudida de chuva funerária,

Lavada de um luar branco de morte.

Só resta uma varanda solitária...

 

Como nessa varanda apodrecida

Em minha alma uma flor também vegeta...

Toda a noite dos ventos sacudida,

Íntima, humilde, lírica, secreta,

Como nessa varanda apodrecida...

 

***

Gomes Leal (1848 - 1921)

Lisboa (Portugal)



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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008
língua portuguesa

O povo menino

em seu presepe de palmeiras

aguardou as oferenda de Natal.

 

A nau primeira

trouxe o rei do Ocidente

que lhe deu o tesouro sem par

do Cantar de Amigo,

dos Autos de Gil Vicente

e da epopeia de Camões.

 

No navio negreiro

veio o Melquior do mocambo

talhado em azevinhe como ídolo benguela,

com a oferta abracadabrante e gutural

dod monossílabos de cabala.

 

Nos transatlânticos e cargueiros

o Rei Cosmopolita,

que tem as cores do arco-íris

e os ritmos de todos os idiomas,

trouxe-lhe o régio presente

das articulações universais.

 

Os três reis fizeram um acampamento de raças

e ensinaram o povo menino

a falar a língua misturada

de Babel e da América.

 

E assim nasceste,

ágil, acrobática, sonora, rica, fidalga

ó minha língua brasileira!

 

in Antologia da Poesia Brasileira

 

***

Menotti del Picchia (1892 - 1988)

São Paulo (Brasil)

 



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Terça-feira, 17 de Junho de 2008
mensagem do terceiro mundo

Não tenhas medo de confessar que me sugaste o sangue

e engravataste chagas no meu corpo

e me tiraste o mar do peixe e o sal do mar

e a água pura e a terra boa

e levantaste a cruz contra os meus deuses

e me calaste nas palavras que eu pensava.

Não tenhas medo de confessar que te inventaste mau

nas torturas em milhões de mim

e que me davas só o chão que recusavas

e o fruto que te amargava

e o trabalho que não querias

e menos da metado do alfabeto.

 

Não tenhas medo de confessar o esforço

de silenciar os meus batuques

e de apagar as queimadas e as fogueiras

e desvendar os segredos e os mistérios

e desrruir todos os meus jogos

e também os cantares dos meus avós.

 

Não tenhas medo, amigo, que não te odeio.

Foi essa a minha história e a tua história.

e eu sobrevivi

para construir estradas e cidades a teu lado

e inventar fábricas e Ciência,

que o mundo não pode ser feito só por ti.

 

in A Voz Fagueira de Oan Timor

 

***

Fernando Sylvan (1917 - 1993)

Díli (Timor)



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Segunda-feira, 16 de Junho de 2008
segredo

A noite estava escura

escura e fechada até à beira do mar

escura e fechada estava a noite.

 

E os langues

olhos dos dois encontraram

no céu o Cruzeiro do Sul XI-Ronga

e uma poalha de estrelas cobriu confidências

mundos de silêncio

o litúrgico frenesi dos dedos

e o desejo ardente de não ser

mais do que um.

A noite estava escura

E fechada à beira do mar.

 

Mas o beijo

Dos dois no tempo esquecido

Transformo a noite.

 

in Obra Poética

 

***

José Craveirinha (1922-2002)

Moçambique



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Domingo, 15 de Junho de 2008
descobrimento

Quando a tua mão macia e serena de branco

se estendeu fraternalmente para mim

e através Índicos de preconceitos

apertou com carinho meus dedos mulatos;

quando teus olhos inchados de compreensão

pousaram no mapa doloroso do meu rosto de África;

quando a piroga do teu amor se fez ao mar

e veio aportar ao meu peito ensanguentado e céptico;

ah, quando a tua voz doce e fresca como um lanho

me trouxe a bandeira branca da palavra "IRMÃ",

é que eu senti, profunda como um selo em brasa

verrumando a carne,

a força terrível e única do nosso abraço fraterno,

a inquebrável cadeia das nossas mãos enfim juntas,

a indestrutível resistência da muralha erguida

por nossas maravilhosas juventudes unidas.

 

Ah, amigo, quando a tua mão certa e serena de branco

Procurou o desespero da minha mão sem rumo...

 

in 50 Poetas Africanos -  (Plátano)

 

***

Noémia de Sousa (1926)

Moçambique



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Sábado, 14 de Junho de 2008
chamei-lhe amiga

Aquela rapariga de olhar triste...

Olhei-lhe os olhos

e vi que eram como os meus.

Olhei-lhe as mãos

e vi que eram como as minhas.

Sorriu

e vi que os dentes eram brancos como os meus.

Debrucei-me sobre a sua alma

ansioso

como quem se debruça da amurada de uma navio

para ver o mar.

 

E vi que era imensa

e livre

como o voo das águias.

Chamei-lhe amiga.

 

O semblante encheu-se-lhe de súbita alegria

e respondeu-me: "amigo!"

Entre nós só havia duas diferenças:

o sexo e a cor da pele.

 

in A Luta é a Minha Primavera

 

***

Vasco Cabral (1926)

Farim (Guiné)



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Sexta-feira, 13 de Junho de 2008
não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem achei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem,
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: <<Fui eu?>>
Deus sabe, porque o escreveu.

***
Fernando Pessoa



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Quinta-feira, 12 de Junho de 2008
navio errante

Navio errante,

atraquei ao cais do Amor.

 

Daí em diante

fui-me ao sabor

de ondas, pária

de incerto rumo, bússola perdida.

 

Onde a linha imaginária

do verde equador

da minha vida?

 

Navio errante,

sem leme nem comandante,

meu sonho é corcel sem rédea

a gravitar na linha média

entre o equador

e o cais do Amor!

 

in Entre a Pantera e o Espelho

 

***

Maria Eugénia Lima (1935)

Angola



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Quarta-feira, 11 de Junho de 2008
romance de tomasinho-cara-feia

Farto de sol e de areia,

que é o mais que a terra dá

Tomasinho-Cara-Feia,

Vai prà pesca da baleia,

Quem sabe se tornará?

 

Torne ou não torne, que tem?

Vai cumprir o seu destino,

Só nha Fortunata, a mãe,

que é velha e não tem ninguém,

chora pelo seu menino.

 

Torne ou não torne, que importa?

Vai ser igual ao avô.

Não volta a bater-me à porta;

deixou para sempre a horta,

que a longa seca matou.

 

Tomasinho-Cara-Feia,

(outro nome, quem lho dá?)

farto de sal e de areia,

foi prà pesca da baleia.

 

- E nunca mais voltará.

 

in Primeiro Livro De Poesia
selecção de Sophia de Mello Breiner Andresen
ilustrações de Júlio Resende
 

***

Daniel Filipe (1925 - 1964)

Cabo Verde

 

.

 


lido em: Primeiro Livro de Poesia

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