Sexta-feira, 4 de Novembro de 2011
porque os outros se mascaram mas tu não

 

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

 

***

 

sophia mello breyner andressen

 

*


lido em: http://www.astormentas.com/andresen.htm

publicado por carlossilva às 03:51
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Sábado, 4 de Dezembro de 2010
um homem de olhos fechados...

 

Um homem de olhos fechados procurando

Dentro de si memória do seu nome

Um homem na memória caminhando

De silêncio em silêncio derivando

E a onda

Ora o abandonava ora o cobria

 

Com vagos olhos contemplava o dia

Em seus ouvidos

Como um longínquo búzio o mar zunia

Líquida e fria

Uma mão sobre os seus ombros escorria

Era a onda

Que ora o abandonava ora o cobria

 

Um homem só n’areia lisa  inerte

Na orla dansada do mar

Nos seus cinco sentidos devagar

A presença das coisas principie

 

No branco nevoeiro a deusa o via

Solitário erguendo-se do mar

Os cabelos com algas misturados

Os ombros luminosos e molhados

 

O seu corpo era como uma coluna

Sustendo o equilíbrio dos espaços

Água e luz corriam dos seus braços

E uma onda quebrada percorria

O rasto que deixavam os seus passos

 

***

sophia mello breyner andressen

porto, 1919 - 2004

*****************************

 

 

[manuscrito publicado na Única - Expresso de 04.12.2010]


lido em: Revista Única - Expresso

publicado por carlossilva às 13:29
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Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010
eu me perdi

 

Eu me perdi na sordidez de um mundo

Onde era preciso ser

Polícia agiota fariseu

Ou cocote

 

Eu me perdi na sordidez do mundo

Eu me salvei na limpidez da terra

 

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar

E nunca

Um navio da costa se afastou

Sem me levar

 

***

sophia de mello breyner andresen

porto, 1919 - 2004

*****


lido em: Oobra Poética

publicado por carlossilva às 00:23
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Sábado, 14 de Novembro de 2009
apolo musageta

 

Eras o primeiro dia inteiro e puro

Banhando os horizontes de louvor.

 

Eras o espírito a falar em cada linha

Eras a madrugada em flor

Entre a brisa marinha.

Eras uma vela bebendo o vento dos espaços

Eras o gesto luminoso de dois braços

Abertos sem limite.

Erasa pureza e a força do mar

Eras o conhecimento pelo amor.

 

Sonho e presença

Duma vida florindo

Possuída e suspensa.

 

Eras a medida suprema, o cânon eterno

Erguido, puro, perfeito e harmonioso

No coração da vida e para além da vida

No coração dos ritmos secretos.

 

***

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

******************************************

 



publicado por carlossilva às 01:49
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Sábado, 5 de Setembro de 2009
assim o amor

 

Assim o amor

Espantado meu olhar com teus cabelos

Espantado meu olhar com teus cavalos

E grandes praias fluidas avenidas

Tardes que oscilam demoradas

E um confuso rumor de obscuras vidas

E o tempo sentado no limiar dos campos

Com seu fuso sua faca e seus novelos

 

Em vão busquei eterna luz precisa

 

***

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

*********************************

 



publicado por carlossilva às 09:14
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Quarta-feira, 5 de Agosto de 2009
os espelhos


Os espelhos acendem o seu brilho todo o dia
Nunca são baços
E mesmo sob a pálpebra da treva
Sua lisa pupila cintila e fita
Como a pupila do gato
Eles nos reflectem. Nunca nos decoram

Porém é só na penumbra da hora tardia
Quando a imobilidade se instaura no centro do silêncio
Que à tona dos espelhos aflora
A luz que os habita e nos apaga:
Luz arrancada
Ao interior de um fogo frio e vítreo

 

***

Sophia de Mello Breyner Andresen


***************************************************
 



publicado por carlossilva às 01:12
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Terça-feira, 25 de Março de 2008
a anémona dos dias

  

Aquele que profanou o mar

E que traiu o arco azul do tempo

Falou da sua vitória

 

Disse que tinha ultrapassado a lei

Falou da sua liberdade

Falou de si próprio como de um Messias

 

Porém eu vi no chão suja e calcada

A transparente anêmona dos dias.

 

Sophia de Mello Breyner Andressen

“No Tempo  Dividido e  Mar Novo”,

Edições Salamandra, 1985, p. 67



publicado por carlossilva às 00:01
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