Quinta-feira, 16 de Maio de 2013
monocromático verde

 

 

Em ausência de respiração absorvíamos ar com farinha

neve pura

as papas dos pobres de nós

(quando havia açúcar não havia café):

restos das cartilhas de racionamento metidos entre as mós do juízo

final

 

o linho da fome

tão branco

rodeava como um anel de Saturno as paredes do estômago

a fita dos chapéus de palha

 

e afeitos a morrer dia após dia

contemplávamos barro chícharos estrondos demolidores dentro

olhos como maletas nas que o mundo se dava por vencido

 

uma intuição de lágrimas escondidas nas rugas bimilenárias das anciãs

aturdidas e negras

como os seus vestidos de luto da idade do ferro.

Em ausência de amor

um saiote comido pela traça e pelo sol posto a secar na lareira

continha os últimos escritos de Simone de Beauvoir

e o aborto que matou nas profundezas do palheiro

a Benigna de Remígio.

 

Os seus lábios amorados que nunca vi

flutuam no meu pensamento

engancha-se-me o coração

querida toda

nunca correspondida

pasto da eternidade que não há

em ausência de amor.

 

Em ausência de História

escrevíamos em cadernos de lousa que se apagavam com cuspo

e voam formando círculos no observatório de Greenwich

pois em nenhum mapa aparece este nome venenoso

Vilarmao Vilarmao ao pé de nenhum santo padroeiro

na merda da diocese do nada

só há um pátio redondo

a elipse espiritual por onde saem os porcos do cortelho

e um tractor

Lu-Ve 34576 para delimitar o espaço.

 

Em ausência de Saber

a casa da professora jaz como um cadáver exposto à chuva

com as vigas tentando ainda sustentar a tabuada do três

um problema de aritmética que nunca resolvemos

mas há dias em que uma linha recta traçada num quadro negro antigo

resplandece na sua estrutura óssea

e todo o nosso pequeno mundo grunhe pobrezinho ele

como se rezasse um rosário digno da existência de Deus.

 

Em ausência de palavra

abundou-nos o berro denunciador que é a noite do mocho

em ausência de pão

em ausência de leite

em ausência de trigo

contra o dia cabrão que se erguia mais cedo que ninguém.

 

Em ausência de futuro

rangeram as rodas dos carros ou seriam acaso metáforas deterioradas

aves de mau agoiro que ostentam o poder.

O resto dos animais

vomitam sobre os prados

os restolhos de milho com que se criaram

em sinal de dó

sim porque em ausência de futuro

só há ausência

e talvez isto que digo:

 

Em ausência de ti

de tanto morder ervas para conter o espasmo

digo o teu nome até que a língua seque

e fico toda igual a ti antes e depois do tempo

fazendo a fotossíntese do amor

na vanguarda do nada

 

onde só se pode viver pintada como um monocromático verde

 

***

 

olga novo

 

*

 

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Sábado, 27 de Abril de 2013
concerto para cromossoma e cordas

 

(CANTO FRATERNO PARA CARLOS NOVO)

 

 

I

 

Como aranhas que se abraçam

as minhas pestanas encontram-se na noite

 

e mesmo ao fechar os olhos

vejo a tua bola de couro

lançada ao infinito da nossa eira de cima

circulando entre os trevos e o arame da roupa

e os teus olhos de menino a calcular a parábola exacta

descrita pela bola entre as margaridas e o ar.

 

Acaricias tal qual um clavecino

mas tu não o sabes.

 

Como a porta do Inferno de Rodin

fecho o ferro forjado da vista

e mesmo ao encontrar-me cara a cara com a retina

 

vejo a tua bicicleta humilde

que circulava à velocidade de um astro

sem freios nem pneumáticos e algum raio partido

mas tu partias o espaço pelo tempo

e a fórmula consentia com ternura

levar-te lá onde tu quisesses.

 

A tua bondade é artesanal

como o pão da casa

ou a música de um órgão rústico

mas tu não o sabes.

 

Deixa as vacas comerem os medos infantis

deixa-as remoer entre ferrã e carolos o frio

que passaste enquanto velavas para que comessem o pasto

e engordassem com flores

foram-se com os cornos abertos ao horizonte

levando com elas aquele que foi o nosso mundo.

 

Dormiam as cifras a sua soma nos teus cadernos de contas

cansados de trabalhar

com as tuas mãos pequeninas

 

as crostas dos teu joelhos feridos

brilham como a casca de um sol infantil

 

e a tua inteligência tornava-se maior entre cerejas maduras

e calças curtas

tocavas com um dedinho um número que treme como uma borboleta

e sabias que o seu coração podia dividir-se em três partes.

Olhavas talvez os cântaros do leite

e revelava-se a eterna forma do cilindro

ninguém sabia que três catorze dezasseis era um número pi

e tu

brincavas com ele no meio dos grilos.

Regressavas da tua mente brilhante

tão humilde como quem ficou em branco

no meio da neve

 

mas tu não o sabes.

 

Aprendi a contar com favas que me davas

a saber que um peão branco perdia a vida facilmente

perante uma rainha negra

que a combinatória é uma arte sagrada

que se a dez grãos-de-bico lhe tiro três

estou subtraindo e o resultado é sete.

 

Regressavas da tua delicadeza

como quem regressa de semear milho e não sabe

que faz um milagre

 

porque tu não o sabes.

 

 

II

 

Ah partilhar contigo o mesmo sistema linfático

o código que nos frisou o cabelo e decidiu

curvar-nos a coluna como uma cobra

 

Ah ir correr pelos campos uterinos

carregar –me às costas regressando do rio

dar-me a mão quando choro e a transfusão da paz.

 

Irmão meu igual o teu coração aos meus gametas

Irmão meu igual a partitura do nosso concerto

      para cromossoma e cordas.

Irmão meu igual

meu irmão.

 

 

III

 

Teorema:

Tu és o velho

eu a criança.

 

Despejas o dia com uma equação

saio ao sol para ver-te

integra como a maçã que desperta segura da sua semente

 

Eu sou a criança

tu és o velho.

 

 

IV

 

Cúmplice amigo contemplo contigo

o arco da velha das nossas vidas

a álgebra da liberdade

as raízes profundas do polinómio do humor

o amor contido em partes idênticas no ácido nucleico.

Chove suavemente

o corço cruza-se contigo na chã

e reconhece em ti o meu próprio açúcar

o meu próprio nitrogénio

o meu próprio fosfato

o corço cruza-se comigo e parte com uma parte de ti

para o fundo do bosque

onde ainda somos capazes de dormir em posição fetal

entre campânulas e a bosta sagrada do bezerrinho.

 

E a mesma cicatriz do apêndice adorna a nossa pele

como um relâmpago perfeito de sete pontos de sutura

sobre o céu.

 

E se acaso não te disse que te quero

escrevo este concerto para cromossoma e cordas

para que se um dia perder a memória e não lembrares

que éramos um sendo dois

maravilha da matemática

enigma da metafísica

evidência da vida.

 

***

 

olga novo

 

*

 

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Segunda-feira, 15 de Abril de 2013
pai

 


 

Mãos

 

O frio trabalhou nas tuas mãos como um operário inverno após inverno. Acarretou toneladas de graus abaixo de zero à tua sombra. Lavrou a artrose dos teus dedos como um artesão maldito. Meteu-se tão dentro de ti que mal distinguimos a geada de ti. Sopra entre as rosas que os teus dedos plantaram no subsolo do mundo. As tuas mãos de estopa que arrancam ervas daninhas as tuas mãos potentes que acarinham minerais antigos como se fossem o cão da casa, que extraem seixos debaixo do sonho, as tuas mãos que cortam em pedaços castanheiros de madrugada e trazem bezerros ao mundo desde o ano mil. Não se sabe se foram as tuas mãos ou as cicatrizes. Não se sabe se começaste a crescer pelas mãos e depois continuaram os órgãos a completar-te a vida. O teu coração cava com as mãos agarradas à terra. O teu cérebro ama os cereais com tuas mãos de menino pobre. As tuas mãos cheias de calos enxertam macieiras com a minha pele papá. Brilham-me na noite como o cobre. Sabem ir ao monte conduzindo o dia com uma aguilhada. As tuas mãos infantis que quase choravam ao tocar num naco de toucinho rançoso. Aquelas mãos que desconhecem a ortografia passam humildes pela lã duma ovelha sem arrabunhar o dia. Os meus olhos analfabetos observam atónitos as linhas das tuas mãos como carreiros sagrados. As tuas mãos afumadas são de madeira e papas. Põe-se-me o espírito como um bilhó pequeno quando estendes as tuas mãos como um mapa antiquíssimo que desorganiza a geografia humana. As tuas mãos que existem como o logaritmo decifrado pelo teu filho. As tuas mãos que não figuram na História de Heródoto. As tuas mãos instrumentais como um engaço de vento. As tuas mãos bárbaras como um povo limítrofe. As tuas mãos que não rezam mas crêem nas estrelas e no poder de uma nuvem carregada de água. Estão-me florescendo as tuas mãos. Estão nos meus estames. O sol é um heliotrópio que obedece felizmente às tuas mãos. A terra sabe meter-se-te entre as unhas para passar a noite ao quente. Está a minha mente em pleno degelo. A terra das tuas unhas é a única herança que desejo. As tuas mãos papá as tuas mãos anciãs de ouro e de farinha. As tuas mãos nas minhas.

 

Segredo

 

Sou dúctil e podem ferir-me com facilidade. Este é o meu segredo mais mal guardado.

 

Corvo à terra

Quando não te tenho ao lado tremo como uma espiga. Mas faço-me forte e a minha fertilidade canta aos teus tubérculos. Na noite troncal Faz-te de noite, pai. Estás cada vez mais perto de ti: a gravidade pousa como um pássaro no teu ombro. Descendo da tua genética que ordena: Corvo à terra.

 

Barro

 

Mantenho os pés num barro arcaico. Eu própria sigo o meu rasto… O vulcão vulnerável o Fragmento lítico Estou-me encadeando com uma flor Estou entrando no pensamento mágico Estou saindo de mim Cantam os meus ossos a canção do anti Édipo Está o barro minando-me Estou chorando plutónio  Peço ao demónio que me leve à feliz idade. Pai. Durmo no meu quarto   Crescente   Atravesso   entre troncos este transe

No quietismo total bastam-me os olhos para ver-te   Está o canto do colesterol entupindo-me as artérias   Estou lavando sozinha os meus glóbulos brancos   ai

E aquele teu povo sem terra é agora a minha terra sem povo

Pai.



***

 

olga novo


*


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Quarta-feira, 3 de Abril de 2013
o cordeirinho morto

 

Aprendi

desde pequena

a separar o carinho da lã

chegado o momento

aprendi

que podia brincar e vê-lo saltar e pastar

e dar-lhe mesmo um biberão feito

com uma velha garrafa de cerveja

 

mas chegado o momento

sabia

que devia

não saber

não perguntar por que não raiava já

aquele círculo do prado

e só havia ali a sombra do ar na erva…

 

Mamei a lição

da lei predadora.

 

Agora o teu sangue canta nos meus ossos.

 

Aprendi

a não esperar nem pedir mais

que o dia que se dava

e aceitar depois

um sentimento carnívoro

 

Aprendi a comer-te

 

e agora o teu sangue canta nos meus ossos.

 

Aprendi a não chorar sequer

a desaparecer discretamente entre as bonecas

no instante em que sabia

que tinha de fazê-lo.

 

Aprendi a ver o sangue no avental da mãe

a ver lavar a faca na torneira da cozinha

o cheiro da morte das mãos

do meu progenitor

aprendi a deixar que essas mãos me acariciassem

 

a saber que também tremem quando te enganam

e te chamam com voz doce

para o pátio

                      onde ainda ronca

o tractor do nada.

 

Aprendi a saber que também aprenderam

a não perguntar

a não ouvir os berros da ovelha sozinha como uma máter triste

no fundo do cortelho.

 

A compreender que o cão lambesse

o pouco que restava de ti no chão

as vísceras

que ainda conservam a memória das cócegas

que te faziam os meus dedos no teu pequeno ventre    cordeirinho.

 

Mas agora o teu sangue canta nos meus ossos

a noite expurga-me

ovídeos que nunca vi

parecem-se com os meus glóbulos

vermelhos

do teu sangue

 

Pois a mim

ensinaram-me a ser

aprendendo a comer-te.

 

***

 

olga novo

 

*

 

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Sexta-feira, 22 de Março de 2013
dom da extinção

 

 

 

À memória de Ramona Pardo, da Casa de Casumira

 

Em algum momento me foram distribuídos os sentidos

para ver eu a manhã que esfria

e come a pintura verde da tua janela

que agora só dá para o nada.

 

Estava sentada na estação da pobreza

e de repente pensei em ti

a mulher que levo por fora

suporta a duras penas a fera da introspecção

 

porque passo diante do teu casebre em ruínas

e parece

que ainda espero que a memória extinta duma aldeã

que usou o teu nome

para passar tanta fome

assome a essa janela verde

e me acene com a mão para confirmar que existo.

 

Velhinha que te vais

tens o dom da extinção

e a chave para decifrar

o alicate que retorce o céu como um ferro

e o faz chover até chorar    isso

que faz de nós

uma estrutura acabada

de portas para dentro.

 

Vais

pelo avesso da miséria

sem roupa nenhuma

falando com doçura a um pote cheio de carvão

e a sombra vai-se-te pelos caminhos

falando sozinha

quanto tens que dizer

 

***

 

olga novo

 

*

 

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013
a primeira canção

 

 

teu nome sobe cada manhã

aquece o mundo e põe-se

só no meu coração

sol no meu coração

 

Juan Gelman

 

Para Toño

 

A voz pré-natal lançou-se contra a macieira

e ecoou no valejo e nos meus dentes de leite.

Estatelou-se meu coração contra o milho-miúdo

e ainda te amo exactamente da mesma maneira

substância de mim

meu primo carnal

trinta anos depois.

 

Não importa que me leves tantos anos

sais e entras pela entrada do pátio como outrora

fazes-me um aceno para me oferecer um figo fazes-me

cócegas

apareces de súbito no dia da cozedura

e a mim incham-se-me as pequenas glândulas do amor

como a massa do molete pequeno

sentas-te à mesa diante da lareira

não importa que me leves tantos anos

pegas-me ao colo

como se te prendesse na palma da mão um meteorito

e faço-me crescer sozinha

sussurro ao meu esqueleto no escuro da noite fecha peço-lhe

leveda leveda:

quando for grande hei-de ser a tua noiva pequena.

 

Tinha três anos.

inventei a primeira canção para ti.

Ouviram-ma cantar os piscos de peito-ruivo

o incêndio ouviu-ma

cantei-a na raposeira

no campo no corredor da casa na horta

ouviram-ma o escaravelho e a traça

e não tive vergonha.

 

Não importa que me leves tantos anos

que ames outra

que já não nos vejamos

que não te lembres do que te cantava

pouco importa

ainda te amo exactamente da mesma maneira

meu primo carnal

nas minhas veias vives como um vendaval para sempre

porque não importa

inclusive

que tivesses morrido há anos

e não me desse tempo

a crescer o suficiente.

 

***

 

olga novo

 

*

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Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013
a poldra do apocalipse

 

Meu doce amor dos três anos

 

vamos brincar aos índios sobre a erva da eira

a falar de Plutão que ainda era um planeta

as minhas pupilas são dois tambores na neve

 

a tua bola gira no espaço melhor que os meteoritos

passam os teus berlindes rugindo por veias coronárias

passam lágrimas rodando como berlindes azuis

quero ir dormir à toca dos grilos

quero ir contigo

 

meu amor dos dez anos

 

sou a menina que assistia ao enterro duma flor na tarde

a que dava o biberão aos cordeirinhos

em garrafas de estrela de Galicia

e aguardava que chegasses

como o melro pousado no último galho do dia

 

meu doce amor dos quinze anos

 

viste-me travestida de corvo descalça sobre montes de gelo

viste-me ceder como a madeira de buxo entre as lições de latim

entre equações de resultado incerto

entre raízes quadradas que davam flor no inverno

ainda me parece dormir enlaçada à tua apendicite

como uma magnólia da noite

 

meu doce amor dos vinte anos

 

vou pelo teu braço como pela clareira dum bosque

a campânula do tempo explode-me na cara

dou um salto mortal para me agarrar à vida

roubo lume nas hortas no canto de uvas negras

perdão se fiz mal   perdão

de baixo das árvores que vão rumo ao subsolo

estou apreendida de memória pela mente de Dioscórides

classificada entre a lavanda e as plantas venenosas

se me vês fico cega

se me falas faz-se-me um eco na garganta

deito-me na tua cicatriz como uma gaze

tudo passa

 

meu doce amor dos trinta anos

 

vou pelo teu braço como por um braço de mar

à aventura

a minha vida é fruto do acaso

entre ruas de limoeiros e canelhas de chuva

entre megálitos absortos e lendas milenárias

sinto que me cantam em babilónia e bretanha

que a poldra do apocalipse me está esperando à porta

 

meu doce amor da idade do ferro

 

entre lanças e sentimentos campaniformes

 

o meu eu vai pelo teu braço como por um traço

inscrito numa tégula de bons augúrios

 

o meu amor vai pela tua mão

como o cão que é

 

meu doce amor dos trinta mil anos

o ar arranha

ulula nesta fissura

sinto que me cantam em babilónia e bretanha

que a poldra do apocalipse me está esperando à porta…

 

enquanto

o meu eu atónito

sobre um banco de peixes sentado

sente ainda talvez a candura

do doce amor dos três anos.

 

***

 

olga novo

 

*

[vertido por BlogNi, Poma Fidiró e Dria]


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Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013
análise de sangue

 

Falta-me ferro. Sobra-me música e potássio.

 

Ninguém me entende visto-me com a saia da montanha

choro por qualquer coisa

espero uma carícia

como um milagre de pão de ouro e vitaminas.

 

Como carne de égua. Escuto passos nas minhas veias

e invade-me a alegria de um novo amor como um exército bárbaro.

 

Esta sou eu.

 

Metade árvore

metade escada de caracol

 

Metade tigela

metade beco duma vida à beira do Adriático

 

Metade abóbada metade sombra

metade contemplação metade auspício

 

Metade mofo metade pureza

 

Metade fonte metade varanda

metade horizonte metade estrutura mecânica

 

Metade flor de cerejeira

memória cortada pela metade

metade monte metade eu

metade madona metade neve.

 

A mim ninguém me entende.

Deixo tirar – me sangue e maçãs

minha tormenta

deixo que me auscultem vozes do outro mundo

dirijo a minha tensão como se fosse uma orquestra

tiram água de mim como de um poço cardíaco

às vezes

escuramente

inclusive sei o que digo.

 

Dizem que me falta ferro a mim

mas esta garganta minha

é um metal de transição entre a palavra e o peito.

 

E em contacto com a ternura posso adquirir um leve timbre oxidado.

 

No meu sonho ando pastando com as vacas no meio dum campo magnético.

Na minha vida real

sou a filha pequena dum pastor do fim do mundo.

Metade abóbada metade sombra

metade contemplação metade auspício

 

Metade mofo metade pureza

 

Metade fonte metade varanda

metade horizonte metade estrutura mecânica.

 

Metade flor de cerejeira

memória cortada pela metade

metade monte metade eu

metade madona metade neve.

 

Tiram-me sangue

Tiram-me

a mim

ninguém me entende.

 

***

 

olga novo

 

*

 

[virado do galego por BlogNi]


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Terça-feira, 1 de Janeiro de 2013
três

 

Necessitaria que o corpo me seguisse

e vivesse três vezes sendo eu mesma

 

Que amasse com ardor as coisas que adoro:

 

o pó sobre um velho móvel

as tuas olheiras

de rerum natura de Aristóteles

a espiga que entrega a vida nas mãos do meu pai como no Gólgota as tuas olheiras

o pelo negro e liso do espírito da cadela Perla

a tua mão no meu ventre

a comunicação com o mais além deste poema    a matéria

o último olhar de um ruivo

a massa do pão quando leveda e neva

sobre a densidade e a forma das tuas memórias

um tango

um telescópio para olhar-me ao espelho

as amoras   os ciganos   as mãos da minha mãe   a agulha da modista

um velho combatente doente que perdeu a guerra pensando que a ganhara

aquele que se espanta de ver o amanhecer

e é tocado pela sua guitarra como por um anjo

uma mulher que caminha em direcção a si mesma

e me leva pela mão

ao seu próprio destino

 

uma goma de três pesetas

o estômago duma vaca e a reverberação do trevo

o cérebro do meu irmão

que brilha como uma flor entre os números

o úmero do poeta amado

o meu sangue vivo   o meu canibalismo

a gota que encheu o meu copo

e tu

contando pelos dedos

a minha vida três vezes

três

a minha vida.

 

***

 

olga novo

 

*

 

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Sábado, 1 de Dezembro de 2012
lobo

 

Em miúda

quando me perguntavam de que tinha medo

eu sempre respondia:

de parir e do lobo

 

O lobo veio uma vez

à noite

voltávamos para casa atravessando o monte

o meu pai apontou-o com o dedo  ia só  como perdido

esquecido o instinto algures

retrocedida a fome a outra época

 

nem sequer nos olhou

absorto no seu sangue  na sua cavilação

talvez

a noite evidenciava-lhe em seu pinar

a gangrena da sua espécie

 

Lembro bem as suas patas espartilhando a geada

o silêncio tenso com que a evolução assistiu a tal cena

a tosca indiferença da coruja  do granito  ou da massa do pão

que continuou a levedar as suas moléculas de farinha

atreitos de tal modo à extinção que não repararam um hiato…

 

Desde aí o meu medo é um guru que uiva na noite

a ti e a ti e a ti

embora me oiçam agora  embora me vejam a falar

pondo a língua no ponto exacto a que obriga a mãe fonética

não sou eu

esta voz

que grunhe

garanto que não sou

eu

este ruído côncavo que as vogais fazem com o sangue

essa terebintina negra em que se me tornou o cuspo ao engolir

maldita seja eu mesma

e a raça que me ensinou a noite como se fosse uma abreviatura de deus

 

Agora já sei

de certeza

que as tripas do último lobo me rondam a linguagem

e se algum dia o monte me atravessar para voltar a sua casa

apontarei com o dedo  aqui dentro

onde a voz de mim se apossa como de um réu

 

Que direi agora

se me perguntarem

de que tenho medo?

 

***

 

olga novo

 

*

 

[trad: alberto augusto miranda]


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