Segunda-feira, 14 de Novembro de 2011
dei-te o meu corpo como quem estende

 

Dei-te o meu corpo como quem estende

um mapa antes de viagem, para que nele

descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses

os dedos devagar, como fazem as aves

quando encontram o verão. Se me tivesses

 

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços

como uma escarpa pronta a desabar, ou

uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

 

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas

nas minhas mãos - tristes geografias,

labirintos de razões improváveis, tão curtas

linhas que a minha vida não teve tempo

senão para pressentir-se. Por isso, guardo

 

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,

muros e regressos - nem sequer feridas

ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,

as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

 

***

 

maria do rosário pedreira

 

*

 


lido em: O Canto do Vento nos Ciprestes

publicado por carlossilva às 00:04
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Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009
dizem, meu amor, que neste inverno os ventos

 

Dizem, meu amor, que neste inverno os ventos

passarão a mão pela seara e levarão o trigo;

que os dias serão escuros e frios - e tão curtos

que neles não caberá paixão alguma, por pequena

que seja. Contam que punhais de chuva se abaterão

sobre os pomares; e que as árvores crescerão

como feixes de serpentes, procurando ganhar

desesperadamente o céu. E acrescentam que

 

os pássaros adivinham tudo isto e que por isso

se calam de manhã - ouço-os bater as asas

num aceno triste; partem para o sul, dizem,

se dizem a verdade.

 

Só a casa ficará de pé a olhar a planície. E

dentro dela os sonhos e as recordações do verão -

retratos dos lugares que nunca visitámos, uma camisa

de linho no espaldar da cadeira, um livro para sempre

interrompido sobre a cama. Ouvíamos uma canção triste

na grafonola velha. Dançaríamos o ano inteiro, disseram

uma noite ao ver-nos atravessar a sombra da luar.

Ignoravam, então, o inverno.

 

***

Maria do Rosário Pedreira

 

*****************************

 



publicado por carlossilva às 21:05
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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009
na tua boca cantou subitamente uma voz

 

Na tua boca cantou subitamente uma voz.

E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,

o rio que outrora bordava o campo emudeceu

com as suas pedras lisas. Então, foi possível

 

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas

e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros

e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

 

Sobre a colina quente passou uma nuvem

e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte - 

por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

 

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão

escorregou pela inclinação do sol e veio contar

as sombras no meu decote.

 

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

 

***

Maria do Rosário Pedreira

 

**********************************

 


lido em: O Canto do Vento nos Ciprestes

publicado por carlossilva às 00:38
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Sábado, 25 de Outubro de 2008
lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse

em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia

na saia a mordedura quente, a ferida, a marca

de todos os enganos, faria quase tudo

 

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,

e guardaria calados os fantasmas do medo, que são

os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

 

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele

e negar que o amava, porque amá-lo era um engano

ainda maior que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

 

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre

a cair da folha, a prolongar o desencontro.

E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;

arabescos, ainda que só se lembrasse de serpertes.

 

***

Maria do Rosário Pedreira (1959)


lido em: A Casa e o Cheiro dos Livros

publicado por carlossilva às 00:01
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Quarta-feira, 9 de Julho de 2008
não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
 

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas húmidas e chãs
com que em casa se cozinham perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.


***
Maria do Rosário Pedreira (1959)
 

Lisboa (Portugal)

 


lido em: A Casa e o Cheiro dos Livros

publicado por carlossilva às 00:01
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