Sábado, 5 de Janeiro de 2013
circolando em linha recta

 

está orvalhada a rotunda memória como o leito
os corpos mudaram na desfolhada
traficaram-se na sociedade
a casa derrocada areja-se de primavera
e o olho cúmplice do sol atravessa o tempo

o pensamento revoluciona

quando só o mesmo se pode manifestar

 

o azul continua leve

os glóbulos vermelhos

carecem de furtos silvestres

 

o pé escorrega lentamente pela perna
que desliza para dentro do poço
o ouvido segue o voo do foguete
e estoura as mãos de saudade

 

despeja-se o rubor das pétalas no peito
e sai-se de bicicleta
circolando em linha recta

 

o mundo é um balão

marioneta colorida

na mão esquerda de um feto

 

***

 

fátima vale

 

*


lido em: 'spabilanto

publicado por carlossilva às 02:22
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Quarta-feira, 19 de Setembro de 2012
andam agitadas as serpes

 

andam agitadas as serpes
enroladas aos meus ossos
fêmeas prestes a explodir
com os gritos populares

é fálica esta revolta
que se ergue

logo incendiarão
o pútrido trono
e ao lento rolar das cabeças
soltar-se-á a dança da fertilidade

a feminilidade de todos os seres
porá em liberdade os beijos exilados

o silêncio osculado
será o manifesto
da queda patriarcal

 

***

 

fátima vale

 

*


lido em: raposagalante.wordpress.com

publicado por carlossilva às 00:36
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Domingo, 1 de Julho de 2012
aos pés do horizonte

 

nesta sensação de queda em que o meu corpo mutável se encontra

existe uma suspensão de tempo

 

dentro da cabeça falam-me várias línguas

raramente as entendo por fora

 

faço vida num rés do chão por conta d'outrém

não conheço nenhum dos fantasmas que dançam à minha volta

nem creio que eles me percebam pois estou sempre a surgir e moro num silêncio galopante

 

os sonhos fugiram-me por cima do telhado

deixaram um rasto de gosma brilhante sobre as ondas de barro

e dentro dos livros

das chávenas

das gavetas mal fechadas

aparecem-me nereidas de várias cores

que dobram os panos amontoados ao lado da cama

dançando

 

fico possuída de desejo ao vê-las tão deslumbrantes dentro dos meus olhos

que me envolvo a remendar peúgas inteiras para os pés do horizonte

 

***

 

fátima vale

 

*


lido em: https://www.facebook.com/notes/f%C3%A1tima-sapetiveoatl-vale

publicado por carlossilva às 12:16
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Domingo, 27 de Maio de 2012
do siêncio das flâmulas

 

abro os braços para as cinzentas alamedas do cárcere
e como  escrava vou medindo o vacilante silêncio das flâmulas

dentro do ventre da voz contida sento-me  enquanto descanso
com o mono mais barato da família sagrada entre os pés

à passagem da lâmina pela superfície do abandono
escorrem fios do meu  sangue sobre as costas do dogma

eis a maravilha reposta ao volante dos lábios
circulam-me pelas artérias todos os milagres do universo

 

***

 

fátima vale

 

*



publicado por carlossilva às 12:09
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Domingo, 4 de Março de 2012
alatropia da dor

 

"é a morte que faz falta à vida"

húmus, raúl brandão

 

 

percorre o corpo que se alonga dourado sobre a cor

púrpura

e resvala no abc de um ismo entontecido

ciclone infante

vadio

um sopro hidrogenado de um não metal amarelo

atravessa a fenda das sinapses

desdobra a brancura no papel e dá conservação ao

vinho

afunda-se na terra como toupeira vulcânica

ave tenra em fotossíntese

 

desregula o passo que desidrata nas salinas

e a curva da casa multiplica-se

no tráfego aéreo arbitrário

no grito aerofágico

o corte das artérias debrua o desespero

oscularia a vista de uma nova paisagem

nua

desavinda

sem memória

imoral

órfica

 

as mãos sonham a lira de apolo

 

o cérbero treme de insónia

sobre um telhado de lágrimas de ferro

 

***

 

fátima vale

 

*


lido em: 'spabilanto

publicado por carlossilva às 03:14
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Quinta-feira, 19 de Janeiro de 2012
la face de l riso eutanásico ó l speilho anfeitado de paixarinas

 

« e agora corroborando algo embrionário de que se falou
e se volta a falar com outra força »
melusine de mattos
 
 


Beija-me a alvorada na face do riso eutanásico
favos de mel
 
da lua derrama-se leite sobre o meu seio novo
planta que germina da boca silvestre
chama acesa
o mundo surge no despertar das trevas
vida nova se esculpe dentro de mim
enquanto as aves aquecem o repouso em que se recriam
pares de mãos erguidas intercedem
à infinitude do universo
incontáveis trabalham a talha única
que desperta
 
uma floresta longínqua no nevoeiro invernoso
flutua na abstracção do olhar
os espíritos dançantes dispersam-se dela
aproximam-se  da água doce
que yonifica o vale
nos fluídos da geografia antíqua
surgem na clarificação dos sentidos
 
véus do paraíso são rasgados pela loucura
força dolorosa
mensageira perdida
de palavra façoila
gritada pela máscara trágica
no teatro secreto
 
com nó apertado está o enforcado tarológico
sobra tudo ao começo da vida
 
a floresta longínqua é agora derrubada
pelos madeireiros em acção aproximada
morte enxuta da criança
que nunca será notícia na dispersão da terra
 
sacodem-se roupas de oração no varal
entre dois picos que dançam ao vento
polidos pelos espíritos negros
desenhados pelo sol
 
acorda a natureza com o sopro morno
que sobe ao alto
 
tocarão os tambores da noite
a marcha da nova esfera
a diáspora da necrosfera
 
camadas de átomos desconhecidos
formam-se sobre mim
 
adormecerei ao centro da colmeia
para ser sonhada pela abelha mestra
que me trará o pólen
do nome
geleia real do porvir
 
forma-se finalmente
o princípio do 'spabilanto pelo coro dourado
do manto celeste
infinita nebulosa
do planeta inviolável
adonde ls caçadores ténen penas
al redror de la cloaca
i las pitas
spingardas de caramelo
 
pun!

 

***

 

fátima vale

 

*



lido em: https://www.facebook.com/notes/sapetiveoatl-vale/la-face-de-

publicado por carlossilva às 01:42
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011
estava o corpo alvo e nu

 

estava o corpo alvo e nu

no cimo da mais alta montanha

onde se via azul turquesa

a confluência de dois rios

 

o vento quente fecundou-o

de mantras budistas

único som da natureza naquele instante

 

a atmosfera foi a dança

de infinitas pétalas vermelhas

sangue polinizado em voo aleatório

 

a cinza vivificada

espaço do amor absoluto

voltaria ao ventre da terra

 

germinar para o centro

até à libertação prateada do peixe

 

***

 

fátima vale

 

*


lido em: azimute

publicado por carlossilva às 12:58
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Quinta-feira, 15 de Setembro de 2011
tens danças adiadas no salão de uma estrela

 

tens danças adiadas no salão de uma estrela

tens o sorriso cativo e torturado - na masmorra da ausência

não tentes a fuga - pois a parede sangra - e a janela é um

grito onde não cabes

incendiarás as vísceras se necessário - até o fogo sair pelo

olhar

a grade que te encerra - tornar-se-á líquida

para a travessia das horas - portal da vida  - onde a alegria

se não penhora

morres tanto na margem do corpo que desmaias - subiu

tanto a maré dos teus olhos

tens nas mãos o amor absoluto - escolhe o caminho

pois o tempo está de partida - o eco é surdo e esconde-se

no horizonte

o esqueleto que abandonas à superfície - entrega-se ao vento que se prega vocal

o espírito vai no azimute das violetas - do riso multicolor

saudade do futuro

tens danças adiadas no salão de uma estrela

seguirás o rasto das flores de sal

 

***

 

fátima vale

 

*


lido em: Pegadas - Q de Vian Cadernos

publicado por carlossilva às 09:29
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Terça-feira, 21 de Junho de 2011
eclipse

 

no colo imaginário funde-se o tempo e o sonho
porque rasgas a fenda do espaço sináptico
pai

 

o antiquíssimo impulso dilacera
virás partilhar a espuma do mar na palavra inaudível dos olhos
pergunto
virás

 

as mãos cheias de mundo
soltarão juntas a melíflua dádiva

 

dá-me esse dia que eu entrego-te o brilho da criação
que sono dormes agora na inerte inquietude do corpo
renasces alado na curva do sopro
não existem pegadas no peito celeste das aves
todos nascem quando acordam
mestres de si

 

a alegria é a empresa que temos adiada
desprivatiza o silêncio e o pelourinho do sangue

 

a madrugada acende o canto de fogo
rego a horta por ti
crescem teus
inéditos risos nas folhas
que todos os dias se alongam verdejantes
guarda o sol dentro de ti

 

ansiolítica a noite quebrará o espelho
o lago renascentista fluirá suspenso
salgado
merífico na esfera azul

 

vou ajaezar o caracol
saio de coração às costas
já te abraço principalmente

***

fátima vale

 

*


lido em: http://www.spabilados.net/

publicado por carlossilva às 09:45
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Segunda-feira, 28 de Março de 2011
queria-te como aos frutos

 

queria-te como aos frutos

dando cor à casa

 

e comer-te no momento da fome

 

queria-te lobo

e eu loba no cimo do monte

livres como a lua

 

o uivo ejacularia estrelas

 

queria-te agora

montanha de desejo

raposa poema

 

um animal nunca está só

 

***

 

fátima vale

oshakati (namíbia), 1975

 

*


lido em: azimute

publicado por carlossilva às 16:36
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