Domingo, 14 de Abril de 2013
IX


aniquilo-me no sopro das imagens, no bosque sanguíneo, a chuva intemperada, o corrosivo odor da angústia, dilatado pelas brechas da casa, o mundo alquímico do cérebro, a dor que fascina as gengivas, a estrada de neve, o solilóquio sináptico, ebulição da carne, o pó que resta na disfasia da vida, os acordes que estrangulam a voz, agitando a amnésia, o eclipse do mar, os livros descalcificados, a fibra da luz, uma musculatura de corpúsculos doentes, a ausência de plaquetas, o suicídio administrativo da vida.


deixar a cave ser a cama da pele, eis o sonho.


***


carlos vinagre


*

lido em: http://carlosvinagre.blogspot.pt/

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Sábado, 6 de Abril de 2013
transfusão



Encosto-me à parede, sem veias, como o temor.
escorro-o, o deserto das pálpebras.
num tremor que não tem nome
nem denominação, nem sede,
o vapor crava a carne até que o crepúsculo se evapore
num grito pelo vácuo.
no deserto, coberto de nuvens,
a escuridão percorre o infinito
e as nuvens circulam com os seus tentáculos
os olhos humedecidos pelo lago.
na penumbra escuta-se o precipício
e o sangue liquidado anestesia-se numa transpiração
pelos alvéolos da terra.

a água alimenta a transfusão

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: http://carlosvinagre.blogspot.pt

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Sábado, 22 de Setembro de 2012
interótico


 

"algures pela rua no nenhures da vida"

 


o crepúsculo fecha-me pelas mãos

na sua lucífera têmpora está o céu

um óvulo machado na sua cor ilegal

um pinhal de luas num invólucro de desejos involuntários

brumas de sonhos que sangram pela lâmina da luz

 

um punhal de poente com cabelos de rosas

e névoa na pele da tarde

 

esse céu rosado

ferido de clarões proféticos

essa trévoa que danifica as vértebras 

e clarifica como uma fibra menstrual

o protesto da carne arbórea

o místico óvulo que transmigra pela saliva

a chuva que transita pela água do indefinido

 

o alimento incandescente em pétalas

a cadeira intangível das recordações

a extinção da alba pelo rosto do tempo

o rio que se esconde na casa do inverno.

 

***

 

carlos vinagre

 

*


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publicado por carlossilva às 03:56
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Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2012
aberturas

 

O Corsário da vida é como os teus beiços a sobrevoar o meu corpo. O arco, na sua chama de clarinete, hospitalar, abunda numa boneca com farrapo e um vagabundo cristal. Tilintar das chaves, a tua pele a roçar. A boca para o principício - abundância do suor pela fechadura cíclica no feto trespassado pela cor - o orifício das borboletas.

Apaixono-me diante do que não posso. E transpiro pela fragância o imaginável.

A torrente das coisas suplanta-me. Abro o manancial.

- a perspectiva

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: ranhura

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Sábado, 21 de Janeiro de 2012
execução

 

executo-me

em cada frase que pronuncio

no enorme bosque de labaredas

há espelhos a partir as escamas

uma náusea a fiar os olhos

 

executo-me

e em cada pele que transmuta

um alerta excreta pela ponta do penhasco

uma sombra a espalhar-se pelo mundo

 

executo-me

e na execução da minha carne

na ascese do meu corpo

uma luz embacia o sonho

e no vidro do do rosto

cai a chuva pelos músculos

como um turismo sem forma

 

executo-me ininterruptamente

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: ranhura

publicado por carlossilva às 12:55
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Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011
o que não acontece é o meu nome

 

O que não acontece é o meu nome: sonho.
Gostava de te traduzir numa coisa intraduzível, esperar-te pelo cair da tarde nas bocas do irreconhecível e suspender-te nas mãos como um tocha sem forma. Gostava de acontecer-te de outra maneira. E o invisível que apalpa as formas às escuras, esculpisse o meu corpo como uma trepadeira torrada na atmosfera luminosa da cera - o Outono avança pela palavra.
Gostava que outros viessem. Sentissem esta desfiguração dos olhos. Por vezes é bom fechá-los num quarto, abrir o computador, olhar a janela e em seguida sentir que estamos emersos nos olhos que nunca mais acabam.
A neve é a luz das gotas.
A boca chama por ti como se a rosa fechasse o coração pelo Outono e a língua recolhesse ao que não está dito pelas vértebras do corpo.
Às vezes acontece-me o acidente do mundo, a transformação, o transporte para o invisível- o subjacente-diante da luz do que não há - as gotas descem os lábios até ao coração e as marés vivas traduzem-se numa inclinação para a tranquilidade.
Abraço novamente os olhos, reabro por acidente o intransponível.
Entretanto meti-me nos copos durante fases episódicas. E retomei o fôlego de escrever desconhecendo as coisas, ano passado organizei muita desorigem e esforcei-me por não me concluir na hipótese que tenho do mundo.
Acolhe-me o desejo de não ter e de não abrir os espelhos pelas faúlhas da realidade. Fecho os olhos, entretenho-me a imaginar-me, retiro a roupa pelas falhas e atiro-me empoeirado ao sol que se interpõe nos aromas florescentes do Estio. Estou feliz. E é bom estar vivo. E sinto-o como a hemoglobina.
Escrevo-me no texto.
***
carlos vinagre
*

lido em: http://www.carlosvinagre.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 14:12
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Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
as mãos cobrem a terra nos lábios

 

As mãos cobrem a terra nos lábios

rarefeitos - a ténue emoção do rosto

rarefeitas - as mãos cobrem a boca

na água nocturna

no sucalco

as mães gritam aos penhascos

com a barriga exangue

o húmus cavernoso

 

há o sal a pairar na terra

e a tocha abre o córtex

com um pedaço de sombra sobre o corpo

recôndito - um espasmo sobe as pernas

como a meia-noite em esperma

 

esquece-se a mênstrua saia do mundo

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: inédito

publicado por carlossilva às 12:18
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Quinta-feira, 24 de Março de 2011
língua do sol

 

o simbiótico lume de solidão é um lapso humano
nas regiões distantes do transe
como efeito do lusco-fusco
opera uma nítida inibição da alegria
como um magma que cobre a terra junto ao casco do húmus

o parto da vida é não haver parto nenhum
só uma recombinação de forças numa tarde de vénus na espuma
do tempo

as tristezas talvez existam...
as dores do corpo...
e tudo o mais...

prefiro esta terra de sonho e aguardar por uma princesa que é um peixe
de sal sobre a lua

a minha cara espreita na língua do sol

 

***

 

carlos vinagre

 

*

 

 


lido em: http://carlosvinagre.blogspot.com/2011/03/lingua-do-sol.html

publicado por carlossilva às 12:03
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2011
quiromancia sanguínea
o meu público esmaga-se com amoras
e uvas de sangue nas mãos e nas manhãs
e esta chuva, que irrompe como uma catástrofe e uma náusea,
reencontra o seu sentido num passeio de fogo e dióxido e petróleo
com as marés sobre os lábios
transito para o outro lado da ponte com as luzes apagadas
e amarro-me nas gretas
com as amoras presas sobre o tempo e a chuva
lanternas de negro submersas nas candeias
abismo de pulsos e gotas de sangue
que os meus vidros cristalizam uma outra dor
- a da vida -
e esta manhã irrompe-me a boca com amoras
e tonturas
adivinho a dor por entre os dentes
e as artérias
***

carlos vinagre

 

*


lido em: http://carlosvinagre.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 15:33
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Domingo, 9 de Janeiro de 2011
chaminés

 

adoro ruminar

as ruidosas superfícies arrancadas dos suspiros

a filosofia do grupo tem uma álgebra de diabretes

lambuzando os beiços

colam-se dias amontoados de lixo

as gavetas misturam inequações institucionais

nas rodelas do hospício

matam-se ideias ponderadas pela irracionalidade

das mandíbulas

 

fibra das relações bipartidas

cintos atados nas jóias matrimoniais

alimento sentado os marcos que compõem lúgubres

alegrias

e janton capas apimentadas de bruma nas chaminés

 

***

carlos pinto vinagre

espinho, 1988

 

*


lido em: Moluscos de Mântua

publicado por carlossilva às 14:29
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