Sábado, 26 de Janeiro de 2013
leonor

 

A Leonor continua descalça

o que sempre lhe deu certa graça.

 

Pelo menos não cheira a chulé

e tem nuvem de pó sobre o pé.

 

Digam lá se as madames do Alvor

são tão lindas como esta Leonor.

 

Um filhito ranhoso na mão,

uma ideia j´podre no pão.

 

Meia dúzia de sonhos partidos,

a seus pés, como cacos de vidros.

 

Digam lá se as madames do Alvor

são tão lindas como esta Leonor.

 

***

 

antónio cabral

 

*


lido em: http://daliedaqui.blogspot.pt/2012/04/antonio-cabral-poesia.

publicado por carlossilva às 13:23
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Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010
quando o silêncio reverdece

 

Ter-te-ei no pensamento por muitos anos,

ó corpo que eu igualei à flor da esteva,

bravia mas crescente, flor fecunda

quando o silêncio reverdece.

 

Não me peçam palavras de palavras

ou corpo rarefeito, som estéril.

Fiz um contrato com o vento oeste;

o meu espanto provi-o de asas suficientes.

 

Vou contigo no absurdo de existires,

mas sei que vou, hasteando a minha culpa

de não ser bem digno dos olhos

que se habituaram à companhia dos outros.

 

Detesto o isolamento como princípio,

porque vivo em comunidade.

Quando me bloquearem os olhos,

começa por favor a tecer uma estrela.

 

Gosto das noites quentes da minha terra,

quando os lavradores sonham coisas impossíveis.

Gosto de ti, porque me enraiveces

e fazes clamar, embora no deserto.

 

Fiz um contrato com o vento oeste.

Empresta-me o teu olhar de flor bravia.

Alguma coisa hei-de ter de novo,

quando o silêncio reverdece.

 

***

antónio cabral

castedo do douro, 1931 - 2007

 

******************************


lido em: quando o silêncio reverdece

publicado por carlossilva às 12:00
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
a palavra futura

O futuro começa na palavra

bem pregada na tábua ou terra

e osso dos dias. Meu prego, meu pulso

do tamanho exacto do meu país.

 

***

António Cabral

 

*************************


lido em: quando o silêncio reverdece

publicado por carlossilva às 23:39
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Terça-feira, 9 de Setembro de 2008
descalça vai para a fonte


I

Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura:
Vai formosa e não segura.

II

Se tivesse umas chinelas
iria melhor...; mas não:
com dinheiro das chinelas
compra um pouco mais de pão.
Virá o dia em que os pés
não sintam a terra dura?
Leonor sonha de mais:
vai formosa e não segura.

Formosa! Não vale a pena
ter nos olhos uma aurora
quando na vida – que vida! –
o sol se foi embora.
Se os filhos se alimentassem
com a sua formosura...
Leonor pensa de mais:
vai formosa e não segura.

Há verduras pelos prados,
há verduras no caminho;
no olmo de ao pé da fonte
canta, livre, um passarinho,
Mas ela não canta, não,
que a voz perdeu a doçura.
Leonor sofre de mais:
vai formosa e não segura.

Porque sofre? Nunca soube
nem saberá a razão.
Vai encher a talha de água,
só não enche o coração.
Virá um dia... virá...
Os olhos voam na altura
Leonor não anda: sonha.
Vai formosa e não segura.

 

***

António Cabral (1931 - 2007)

Castedo do Douro (Alijó)


lido em: Antologia dos Poemas Durienses

publicado por carlossilva às 11:17
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Quinta-feira, 8 de Maio de 2008
pensamento animal

Pensamento animal,

com agudas ideias a vará-lo

e que fique depois finando-se no chão,

com moiscas ou abutres a acabá-lo.

 

As palavras, é claro, são precisas,

(aí ficam trinta e três)

tão precisas

como pagar a renda ao fim do mês.

 

Mais preciso, no entanto, é que eu vos diga

o que hoje sucedeu

aquià minha porta, em pleno dia,

enquanto Apolo 11 ia pró céu.

 

- O senhor acredita na justiça?

- O que é preciso é ter dinheiro.

- Se o não tiver?

- Arranje-o primeiro.

 

Eram dois entre muitos.

E eu fico-me pràqui a meditar

naquela solução, bem maia difícil

que a descida lunar.

 

Pensamento animal,

unhas e cornos ensanguentados

de tanto lutar, de tanto,

com os fados.

 

in quando o silêncio reverdece

Razão Actual (1971)

 

 

***

 

António Cabral (1931 - 2007)

Castedo do Douro (Alijó) - Portugal



publicado por carlossilva às 00:01
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