Quinta-feira, 3 de Novembro de 2011
quatro poemas

 

Degrau a degrau
verso a verso
o poema
a escada

 

***

 

No metro
cruzam-se as pessoas
como cartas de jogar
postas sobre a mesa

 

***

 

Dia
sem poesia
não é dia
é noite escura

Mas a poesia
é noite escura

 

***

 

Mesmo
uma linha
recta
é o labirinto
porque
entre
cada dois pontos
está o infinito

 

***

 

adília lopes

 

*


lido em: http://bibliotecariodebabel.com/geral/quatro-poemas-de-adili

publicado por carlossilva às 03:46
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Sábado, 21 de Maio de 2011
diário lisboeta

 

1 de Abril de 2011, 6ª feira

Vi um cão abandonado.

2 de Abril de 2011, sábado

Vi dois papagaios verdes no alto de um choupo.

3 de Abril de 2011, domingo

Vi uma rosa cor-de-rosa no quintal do 14.

4 de Abril de 2011, 2ª feira

Arrumei o casacão no guarda-fato.

6 de Abril de 2011, 4ª feira

A Bé gostava de ter um macaquinho.

9 de Abril de 2011, sábado

Quero escrever frases, tagarelar e dançar.

Gosto de solinho. Ver o barómetro.

10 de Abril de 2011, domingo

Descomplicar.

A Leonor tem roupa à janela.

 

***

 

adília lopes

 

*


lido em: Público

publicado por carlossilva às 12:23
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Terça-feira, 26 de Abril de 2011
50 anos

 

Talvez escreva

poemas

que já li

que outros já escreveram

que eu mesma já escrevi

esqueço-me

da minha vida

 

***

adília lopes

 

*


lido em: resumo a poesia em 2010

publicado por carlossilva às 19:01
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Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011
fedra está apaixonada

Fedra está apaixonada
por Hipólito
Hipólito não está apaixonado
por Fedra
Fedra enforca-se
Hipólito morre
num acidente

 

Dido está apaixonada
por Eneias
Eneias não está apaixonado
por Dido
Dido oferece uma espada
a Eneias
Eneias esquece-se da espada
quando se vai embora

 

Dido suicida-se
com a espada esquecida
por Eneias

 

Um desgosto de amor
atirou-me para um
curso de dactilografia
consolo-me
a escrever automaticamente
o pior são os tempos livres.

 

***

adília lopes

lisboa, 1960


lido em: http://orgialiteraria.com/?p=1482

publicado por carlossilva às 13:32
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Terça-feira, 13 de Abril de 2010
a domadora de crocodilos

 

Todos os dias

meto a cabeça

na boca

do crocodilo

 

O meu feito é feito

de paciência

 

Já meti

a cabeça

no forno

estava farta

dos crocodilos

e dos amantes

 

Não tenho tido amantes

tenho tido crocodilos

 

Com os crocodilos

ganho o pão

e as rosas

 

Morrer é um truque

como tudo o mais

 

Dobrada

entre os crocodilos

dobrados

arrisco a pele

 

A pele é a alma

 

***

 

adília lopes

(lisboa, 1960)

 

*************************



publicado por carlossilva às 12:45
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Terça-feira, 6 de Outubro de 2009
o vestido cor de salmão

 

Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão

no primeiro baile a que fui

durante o baile fiquei sentada numa cadeira

ninguém me convidou para dançar

a uma rapariga importuna

que me perguntou porque é que eu

não dançava

respondi eu não sei dançar

ela insistiu comigo para que eu

bebesse uma taça de champagne

eu acedi

mas não foi dessa vez que bebi champagne

pela primeira vez

porque a rapariga entornou a taça

no meu colo

julgo que propositadamente

com a nódoa o vestido deixou de ser para bom

passou a ser para bater

durante uma viagem curta de comboio (que era a lenha)

queimou-o num punho

foi fácil substituir o punho

porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado

o corte de tecido cor de salmão

ainda havia esse tecido cor de salmão

mas durante um passeio à praia

sentei-me numa rocha

e rasgou-se irremediavelmente

ao despi-lo vi que o vestido tinha já

a forma do meu corpo

rasguei-o em pedaços

e guardei os pedaços

na cesta dos trapos

de um dos pedaços fez-se um vestido

para a boneca da minha irmã mais nova

e deste mais tarde fez-se um vestido

para a filha da boneca da minha irmã mais nova

que era uma boneca mais pequena

que caiu a um poço

 

***

Adília Lopes

 

**************************

 



publicado por carlossilva às 13:49
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Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008
a propósito de estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz

por ele se interessar por estrelas

se me interessei por estrelas por me interessar

pelo rapaz hoje quando penso no rapaz

penso em estrelas e quando penso em estrelas

penso no rapaz como me parece

que me vou ocupar com as estrelas

até ao fim dos meus dias parece-me que

não vou deixar de me interessar pelo rapaz

até ao fim dos meus dias

nunca saberei se me interesso por estrelas

se me interesso por um rapaz que se interessa

por estrelas já não me lembro

se vi primeiro as estrelas

se vi primeiro o rapaz

se quando vi o rapaz vi as estrelas

 

***

Adília Lopes (1960)


lido em: Um Jogo Bastante Perigoso

publicado por carlossilva às 00:01
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Terça-feira, 8 de Julho de 2008
o vestido cor de salmão

 

Ai de mim estreei o meu vestido cor de salmão
no primeiro baile a que fui
durante o baile fiquei sentada numa cadeira
ninguém me convidou para dançar
a uma rapariga importuna
que me perguntou porque é que eu
não dançava
respondi eu não sei dançar
ela insistiu comigo para que eu
bebesse uma taça de champagne
eu acedi
mas não foi dessa vez que bebi champagne
pela primeira vez
porque a rapariga entornou a taça
no meu colo
julgo que propositadamente
com a nódoa o vestido deixou de ser para bom
passou a ser para bater
durante uma viagem curta de comboio
uma faúlha do comboio (que era a lenha)
queimou-o no punho
foi fácil substituir o punho
porque no Penim onde a minha mãe tinha comprado
o corte de tecido cor de salmão
ainda havia esse tecido cor de salmão
mas durante um passeio à praia
sentei-me numa rocha
e ao levantar-me precipitadamente
por ver que ia rebentar uma trovoada
o vestido ficou preso à rocha
e rasgou-se irremediavelmente
ao despi-lo vi que o vestido tinha já
a forma do meu corpo
rasguei-o em pedaços
e guardei os pedaços
na cesta dos trapos
de um dos pedaços fez-se um vestido
para a boneca da minha irmã mais nova
e deste mais tarde fez-se um vestido
para a filha da boneca da minha irmã mais nova
que era uma boneca mais pequena
que caiu a um poço

 

***

Adília Lopes (1960)

Lisboa (Portugal)


lido em: O Decote da Dama de Espadas

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