Sábado, 27 de Abril de 2013
concerto para cromossoma e cordas

 

(CANTO FRATERNO PARA CARLOS NOVO)

 

 

I

 

Como aranhas que se abraçam

as minhas pestanas encontram-se na noite

 

e mesmo ao fechar os olhos

vejo a tua bola de couro

lançada ao infinito da nossa eira de cima

circulando entre os trevos e o arame da roupa

e os teus olhos de menino a calcular a parábola exacta

descrita pela bola entre as margaridas e o ar.

 

Acaricias tal qual um clavecino

mas tu não o sabes.

 

Como a porta do Inferno de Rodin

fecho o ferro forjado da vista

e mesmo ao encontrar-me cara a cara com a retina

 

vejo a tua bicicleta humilde

que circulava à velocidade de um astro

sem freios nem pneumáticos e algum raio partido

mas tu partias o espaço pelo tempo

e a fórmula consentia com ternura

levar-te lá onde tu quisesses.

 

A tua bondade é artesanal

como o pão da casa

ou a música de um órgão rústico

mas tu não o sabes.

 

Deixa as vacas comerem os medos infantis

deixa-as remoer entre ferrã e carolos o frio

que passaste enquanto velavas para que comessem o pasto

e engordassem com flores

foram-se com os cornos abertos ao horizonte

levando com elas aquele que foi o nosso mundo.

 

Dormiam as cifras a sua soma nos teus cadernos de contas

cansados de trabalhar

com as tuas mãos pequeninas

 

as crostas dos teu joelhos feridos

brilham como a casca de um sol infantil

 

e a tua inteligência tornava-se maior entre cerejas maduras

e calças curtas

tocavas com um dedinho um número que treme como uma borboleta

e sabias que o seu coração podia dividir-se em três partes.

Olhavas talvez os cântaros do leite

e revelava-se a eterna forma do cilindro

ninguém sabia que três catorze dezasseis era um número pi

e tu

brincavas com ele no meio dos grilos.

Regressavas da tua mente brilhante

tão humilde como quem ficou em branco

no meio da neve

 

mas tu não o sabes.

 

Aprendi a contar com favas que me davas

a saber que um peão branco perdia a vida facilmente

perante uma rainha negra

que a combinatória é uma arte sagrada

que se a dez grãos-de-bico lhe tiro três

estou subtraindo e o resultado é sete.

 

Regressavas da tua delicadeza

como quem regressa de semear milho e não sabe

que faz um milagre

 

porque tu não o sabes.

 

 

II

 

Ah partilhar contigo o mesmo sistema linfático

o código que nos frisou o cabelo e decidiu

curvar-nos a coluna como uma cobra

 

Ah ir correr pelos campos uterinos

carregar –me às costas regressando do rio

dar-me a mão quando choro e a transfusão da paz.

 

Irmão meu igual o teu coração aos meus gametas

Irmão meu igual a partitura do nosso concerto

      para cromossoma e cordas.

Irmão meu igual

meu irmão.

 

 

III

 

Teorema:

Tu és o velho

eu a criança.

 

Despejas o dia com uma equação

saio ao sol para ver-te

integra como a maçã que desperta segura da sua semente

 

Eu sou a criança

tu és o velho.

 

 

IV

 

Cúmplice amigo contemplo contigo

o arco da velha das nossas vidas

a álgebra da liberdade

as raízes profundas do polinómio do humor

o amor contido em partes idênticas no ácido nucleico.

Chove suavemente

o corço cruza-se contigo na chã

e reconhece em ti o meu próprio açúcar

o meu próprio nitrogénio

o meu próprio fosfato

o corço cruza-se comigo e parte com uma parte de ti

para o fundo do bosque

onde ainda somos capazes de dormir em posição fetal

entre campânulas e a bosta sagrada do bezerrinho.

 

E a mesma cicatriz do apêndice adorna a nossa pele

como um relâmpago perfeito de sete pontos de sutura

sobre o céu.

 

E se acaso não te disse que te quero

escrevo este concerto para cromossoma e cordas

para que se um dia perder a memória e não lembrares

que éramos um sendo dois

maravilha da matemática

enigma da metafísica

evidência da vida.

 

***

 

olga novo

 

*

 

[vertido do galego por BlogNi]

 

 


lido em: Cráter
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publicado por carlossilva às 08:05
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