Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2013
a poldra do apocalipse

 

Meu doce amor dos três anos

 

vamos brincar aos índios sobre a erva da eira

a falar de Plutão que ainda era um planeta

as minhas pupilas são dois tambores na neve

 

a tua bola gira no espaço melhor que os meteoritos

passam os teus berlindes rugindo por veias coronárias

passam lágrimas rodando como berlindes azuis

quero ir dormir à toca dos grilos

quero ir contigo

 

meu amor dos dez anos

 

sou a menina que assistia ao enterro duma flor na tarde

a que dava o biberão aos cordeirinhos

em garrafas de estrela de Galicia

e aguardava que chegasses

como o melro pousado no último galho do dia

 

meu doce amor dos quinze anos

 

viste-me travestida de corvo descalça sobre montes de gelo

viste-me ceder como a madeira de buxo entre as lições de latim

entre equações de resultado incerto

entre raízes quadradas que davam flor no inverno

ainda me parece dormir enlaçada à tua apendicite

como uma magnólia da noite

 

meu doce amor dos vinte anos

 

vou pelo teu braço como pela clareira dum bosque

a campânula do tempo explode-me na cara

dou um salto mortal para me agarrar à vida

roubo lume nas hortas no canto de uvas negras

perdão se fiz mal   perdão

de baixo das árvores que vão rumo ao subsolo

estou apreendida de memória pela mente de Dioscórides

classificada entre a lavanda e as plantas venenosas

se me vês fico cega

se me falas faz-se-me um eco na garganta

deito-me na tua cicatriz como uma gaze

tudo passa

 

meu doce amor dos trinta anos

 

vou pelo teu braço como por um braço de mar

à aventura

a minha vida é fruto do acaso

entre ruas de limoeiros e canelhas de chuva

entre megálitos absortos e lendas milenárias

sinto que me cantam em babilónia e bretanha

que a poldra do apocalipse me está esperando à porta

 

meu doce amor da idade do ferro

 

entre lanças e sentimentos campaniformes

 

o meu eu vai pelo teu braço como por um traço

inscrito numa tégula de bons augúrios

 

o meu amor vai pela tua mão

como o cão que é

 

meu doce amor dos trinta mil anos

o ar arranha

ulula nesta fissura

sinto que me cantam em babilónia e bretanha

que a poldra do apocalipse me está esperando à porta…

 

enquanto

o meu eu atónito

sobre um banco de peixes sentado

sente ainda talvez a candura

do doce amor dos três anos.

 

***

 

olga novo

 

*

[vertido por BlogNi, Poma Fidiró e Dria]


lido em: Cráter
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publicado por carlossilva às 11:25
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