Domingo, 27 de Novembro de 2011
Gorges du Dadés

 

ainda o lacre cor de sangue de bovino; a henna nas unhas das mulheres (um cão)

a rua sunmersa pela noite do Rif traz sempre o teu cheiro (arromba portas)

levanta as folhas do chão e planta árvores ao longo do meu caminho de regresso

("nunca se contam histórias sem mentir um pouco"); já de costas voltadas

a tua voz regressa  de todas as partes do céu: maquilhada  de simpatia e pudor

uma vermelha torrente de silêncios - as bancas expondo cabeças de carneiros

(e seus corações)

 

a espera pela muito demorado correio enviado por mim para este lugar

como a pele da cabra abandonada no chão (acabada de abater)

e odores de almíscar (a Teogonia pousada e a mostarda a colar-se-me aos olhos)

as mãos demasiado bem tratadas ante meus calcanhares fendidos

 

ali vendedores de uma felicidade sempiterna no coração e no retiro das virilhas;

circulam desde a memória da tua imagem: lambretas de escape solto - o atropelamento

abro os olhos e a gasolina incendeia-se por todo o meu corpo e pela traqueia abaixo

enquanto te vejo chegar nua pintada de um azul majorelle entre a cintura e o umbigo

 

tudo sob uma água de anel e índigo (que te levarei por prenda no meu silêncio)

a caixa de rapé - escolhida entre as demais por seus signos berberes

irá também empacotada; no malão, a demasiada roupa (que regressará limpa)

uma melopeia à beira dos caminhos (não te encontrei em curva alguma;

nem na esquina da Rue des Souks) porque chove na praça  - agora vazia

 

na charuteira de cabedal as minhas canetas, os lápis e um termómetro sem préstimo

O Rio do Céu a prometer para a tarde de amanhã O Caminho de Santiago - um cão

o verde inteiro da margem a derreter-se dos teus olhos para os espaços fechados;

agradeço a Deus por mais este dia: não te vi no teu lugar (de cinzas) sexta-feira

um cão morto na berma da estrada: escarlate e azul nas esvaziadas miudezas

 

("nota que os trazem limpos os calcanhares são os que mais rezam")

o quarto vazio onde ainda assim nos descalçávamos - o teu pescoço arranhado;

oxalá irei (só eu) pelo deserto pisando as areias que (ainda) te arrepiam os pés;

uma oração por cabeça: já o cão ao ombro do pastor num alforge  da cor dos teus olhos

 

***

 

alexandre sarrazola

coimbra, 1970

 

*


lido em: Publico

publicado por carlossilva às 16:29
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