Sexta-feira, 25 de Março de 2011
41 ramos na vidraça

 

1
Está uma pessoa feminina deitada na cama. Só é possível ver o lado dela da cama. Não sabemos se há outro lado. Não sabemos se ela ocupa sozinha a cama. A luz varia entre o azul e a prata. A cabeça sangra uma hemorragia de cabelo. O rosto é bonito. A luz é lateral. São três horas da manhã.

2
Não sabemos se há outras pessoas em casa. Sabemos que ela dorme. Não sabemos se dorme só. Sabemos, só, que dorme. Agora, ela acorda de repente por causa dos ramos na vidraça.

3
Há uma árvore do exacto tamanho da casa junto à casa. A casa é grande. A árvore também é grande. Foram semeadas no mesmo dia – a árvore e a casa.

4
Às vezes, o depois vem primeiro do que o antes. Por isso vai e volta o Tempo. Por isso ficam árvores e casas. A diferença é o nascimento mortal. A rapariga nasceu naquela casa. E naquela casa dorme. Dorme – até que acorda com o raspar dos ramos na vidraça.

5
“Há quanto tempo nasceste?” – ouvimos nós uma voz dizendo. E outra voz – “E há quanto tempo morreste?” A rapariga acorda – abre os olhos no azul, abre os olhos na prata.

6
Devem ter soltado o cão, alguém deve ter soltado o cão. A voz dele picota a madrugada de roucas reticências. O vento faz “vim, vão, vêm…” Ela não vai. A rapariga acorda e fica.

7
São os ramos na vidraça. A casa é enorme. O vento é enorme também. Também a casa. A rapariga dormia. Agora, já não. Os ramos raspam. O cão existe. Os olhos do cão fosforescem como os olhos da rapariga. Os mundos cruzam-se como se o cio fosse a única razão.

8
Uma árvore é sempre solteira. Os arbustos são promíscuos, sim, mas as árvores não. Que diferença faria, ao mundo, se uma árvore recusasse a ordem natural do mundo?

9
A casa é grande, a vida não é grande. Há maneiras de falar. Nós sabemos que estar acordado é outra coisa. A rapariga acordou por causa dos ramos na vidraça. É outra coisa.

10
Lá fora, a manhã nasce como se fosse a primeira vez. Um calhau rola nos espaços. A rapariga aproveita para se levantar. Abre a janela. Não há nada a recear. Está ali a árvore, está ali o dia, está ali o cão. Olha, diz adeus ao cão.

 

***

 

daniel abrunheiro


coimbra, 1964

 

*

 


lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

publicado por carlossilva às 15:16
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
agenda
18 de abril 2013 19 de abril 2013
Junho 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
14
15

18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

fogo e água

pára-me de repente o pens...

si digo mar

infância

trapo de voz representa o...

nana para gatos a punto d...

sou uma coluna crematória

dois poemas

nacín vello de máis

uelen

arquivos

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

a m pires cabral(4)

adelia prado(5)

adilia lopes(8)

al berto(6)

alba mendez(4)

albano martins(4)

alberte moman(8)

alberto augusto miranda(9)

alexandre teixeira mendes(11)

alfonso lauzara martinez(8)

alice macedo campos(13)

alicia fernandez rodriguez(5)

almada negreiros(4)

amadeu ferreira(8)

ana luísa amaral(6)

ana marques gastao(4)

andre domingues(5)

andreia carvalho(4)

antonio barahona(5)

antonio cabral(5)

antonio gedeao(5)

antonio ramos rosa(7)

anxos romeo(4)

ary dos santos(5)

augusto gil(4)

augusto massi(4)

aurelino costa(11)

baldo ramos(6)

bruno resende(5)

camila vardarac(9)

carlos drummond de andrade(5)

carlos vinagre(13)

cesario verde(4)

concha rousia(4)

cristina nery(5)

cruz martinez(9)

daniel filipe(5)

daniel maia - pinto rodrigues(4)

david mourão-ferreira(6)

elvira riveiro(8)

emma couceiro(4)

estibaliz espinosa(7)

eugenio de andrade(8)

eva mendez doroxo(8)

fatima vale(10)

fernando assis pacheco(4)

fernando pessoa(5)

fiamma hasse pais brandão(5)

florbela espanca(7)

gastão cruz(5)

helder moura pereira(4)

ines lourenço(6)

iolanda aldrei(4)

jaime rocha(5)

joana espain(10)

joaquim pessoa(4)

jorge sousa braga(6)

jose afonso(5)

jose carlos soares(4)

jose gomes ferreira(4)

jose luis peixoto(4)

jose regio(4)

jose tolentino mendonça(4)

jussara salazar(6)

luis de camoes(5)

luisa villalta(4)

luiza neto jorge(4)

maite dono(5)

manolo pipas(6)

manuel alegre(6)

manuel antonio pina(8)

maria alberta meneres(5)

maria do rosario pedreira(5)

maria estela guedes(7)

maria lado(6)

maria teresa horta(5)

marilia miranda lopes(4)

mario cesariny(5)

mia couto(8)

miguel torga(4)

nuno judice(8)

olga novo(17)

pedro ludgero(7)

pedro mexia(5)

pedro tamen(4)

raquel lanseros(9)

roberta tostes daniel(4)

rosa enriquez(6)

rosa martinez vilas(8)

rosalia de castro(6)

rui pires cabral(5)

sophia mello breyner andressen(7)

suzana guimaraens(5)

sylvia beirute(11)

tiago araujo(5)

valter hugo mae(5)

vasco graça moura(6)

virgilio liquito(5)

x. m. vila ribadomar(6)

yolanda castaño(10)

todas as tags

links
leitores
pesquisar
 
visitas
Free counter and web stats
blogs SAPO
subscrever feeds