Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2013
relevo

 

O ritmo dos movimentos
o olhar soalheiro
É com ele que me alinho na marcha
com gigos ao alto das costas

Será talvez o que suspende a tecnologia
talhado para a prova dura
sob a erupção

Em exercício sensual
desgovernado assoma
à varanda das montanhas

Do balcão assiste
à labuta das mãos

Um fio de suor
escorre das órbitas.


***


marília miranda lopes


*

(in “Castas” – Q de Vien Cadernos de A Porta Verde do Sétimo Andar)



publicado por carlossilva às 00:09
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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013
a primeira canção

 

 

teu nome sobe cada manhã

aquece o mundo e põe-se

só no meu coração

sol no meu coração

 

Juan Gelman

 

Para Toño

 

A voz pré-natal lançou-se contra a macieira

e ecoou no valejo e nos meus dentes de leite.

Estatelou-se meu coração contra o milho-miúdo

e ainda te amo exactamente da mesma maneira

substância de mim

meu primo carnal

trinta anos depois.

 

Não importa que me leves tantos anos

sais e entras pela entrada do pátio como outrora

fazes-me um aceno para me oferecer um figo fazes-me

cócegas

apareces de súbito no dia da cozedura

e a mim incham-se-me as pequenas glândulas do amor

como a massa do molete pequeno

sentas-te à mesa diante da lareira

não importa que me leves tantos anos

pegas-me ao colo

como se te prendesse na palma da mão um meteorito

e faço-me crescer sozinha

sussurro ao meu esqueleto no escuro da noite fecha peço-lhe

leveda leveda:

quando for grande hei-de ser a tua noiva pequena.

 

Tinha três anos.

inventei a primeira canção para ti.

Ouviram-ma cantar os piscos de peito-ruivo

o incêndio ouviu-ma

cantei-a na raposeira

no campo no corredor da casa na horta

ouviram-ma o escaravelho e a traça

e não tive vergonha.

 

Não importa que me leves tantos anos

que ames outra

que já não nos vejamos

que não te lembres do que te cantava

pouco importa

ainda te amo exactamente da mesma maneira

meu primo carnal

nas minhas veias vives como um vendaval para sempre

porque não importa

inclusive

que tivesses morrido há anos

e não me desse tempo

a crescer o suficiente.

 

***

 

olga novo

 

*

[vertido por BlogNi]


lido em: Cráter
tags:

publicado por carlossilva às 08:10
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Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013
domingo no corpo

 

as tardes de domingo, começam

sair de casa, como se fora para longe...

e voltar a ela, sem vontade de fazer nasa.

 

tenho o domingo no corpo

 

minha mãe prepara a feijoada com solas para o almoço

 

meu pai dorme na tarde para a semana inteira

e ressona alto

 

as vacas e seu cheiro entranham-se-me

minha mãe tira leite, mais cedo que o habitual

 

e adormeço num silêncio quente

 

gosto de não existir neste tempo

 

meu pai, abeira-se da minha mãe. todos quietos.

 

eu não entendo nada.

 

talvez, por isso, pereça

a poesia.

 

***

 

aurelino costa

 

*


lido em: DOMINGO NO CORPO

publicado por carlossilva às 00:02
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Segunda-feira, 25 de Fevereiro de 2013
cirúrxica morfina

 

pousei a miña boca na palma das túas mans

e dixen dáme alento preciso de saber

que aínda sigo vivo que van os días novos

camiño dos estíos levando un voo de noites

de tardes consteladas que habían de murchar

pois todo murcha e deixa sabor de hortensia escura

e dixen cando vén que hora está marcada

que prazo teño agora e como se presenta

e ti como unha sombra deixáchesme pousado

nun leito que se erguía que daba para o mar

e viñas a sentir que a vida andaba lenta

que a morte debuxaba camiños de penumbra

leváronme daquela por longos corredores

por páxinas que lera por fíos que deixei

vertendo dun novelo de líquidos e sombra

e souben que eran días caendo para atrás

reloxos que soaban a pan de trigo verde

a ponte inacabada

e díxenme dicíndoche que noite máis estraña

que tarde se nos fixo que lonxe fica o mar

que lástima de cuartos de hotel ensanguentado

quen limpa tantas horas caídas por aquí

quen enche con lixivia os baldes e as cisternas

 

***

 

manuel forcadela

 

*


lido em: Sales do ano doce

publicado por carlossilva às 00:59
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Domingo, 24 de Fevereiro de 2013
subtileza

 

quão subtil pode ser o espinho que sinto cravar-me os olhos,
a indelicadeza de uma não palavra no teu poema desesperado,
o pôr-do-sol derramado no longe a que te votas.
a subtileza é um gesto demorado,
como câmara lenta de uma imagem que nasce no centro das mãos,
estames que inspiram olfactos de terra,
ínfimas pétalas que se sobrepõem numa disputa da tua mirada.
mas não sou eu que me ofereço, são elas!
eu, serei subtil como o silêncio interior dos teus pensamentos
que te rondam nos segundos vagos
e te ocupam o desejo.


***

 

luisa azevedo


*


lido em: http://inatingivel.wordpress.com/tag/luisa-azevedo/

publicado por carlossilva às 00:46
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Sábado, 23 de Fevereiro de 2013
pospoloa / fósforos

 

 

Pospolo bizitza daramazu

pospolo heriotza baten esperoan

 

Zuk zerorrek zeniostan

hiltzea baino latzagoa dela

ez jakitea zertarako bizi garen

 

Eta atzamar puntak erre dizkidazu

nahita edo nahi gabe

zeure burua erre duzunean

 

***

 

leire bilbao

 

*

 

Levas uma vida de fósforo

esperando uma morte de fósforo.

 

Tu próprio me dizias

que mais cruel que morrer

é viver sem saber para quê.

 

E me queimaste as polpas dos dedos

querendo ou sem querer

quando pegaste fogo a ti mesmo.


[trad: cas]

a partir da versão em castelhano

 


lido em: https://sites.google.com/site/leirebilbaosite/

publicado por carlossilva às 00:32
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Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2013
no 1986 tivemos que cavar unha tumba

 

no 1986 tivemos que cavar unha tumba

para que nacera a nena azul

 

daquela eu aínda pensaba

que para que viñese unha

era necesario que marchara outra;

como un intercambio de humanas

que pasan dun mundo a outro

 

co sol batendo na figueira

dilatáronsenos as barrigas,

as das avoas por inercia

e a miña por imitación

 

alá polo mes de xullo,

azul abriu a boca para berrar

nun hospital de camas grandes

 

pero en lugar da voz

saíulle de dentro unha perla

con forma de estrela mariña

 

***

 

ledicia costas

 

*

 



lido em: (De Xardín de Inverno. Everest 2012)

publicado por carlossilva às 00:21
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Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013
[a ignição dos interesses]

é mais antigo o que vem da cinza dos incêndios
mapas que parecem mal desenhados propositadamente
contas dos ábacos trocadas umas pelas outras
discursos de navios de ouro destinados afinal ao
comércio dos naufrágios
e depois é isto a
discussão estéril sobre estratégias de combate
como se isto fosse uma guerra
como se as guerras não devessem resolver-se num
tempo anterior ao da deflagração
ao da ignição dos interesse

 

***

 

josé carlos barros

 

*


lido em: http://casa-de-cacela.blogspot.pt/

publicado por carlossilva às 08:47
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Quarta-feira, 20 de Fevereiro de 2013
libertad del existir


“A los momentos que rodaron eternos y desaparecieron…”

 

 

Libertad del existir

 

Las nubes alzan su vista,

                          nos dan su espalda oscura,

se alarga el pasto húmedo,

crea senderos el sol limpio,

y uno se baña en la belleza del primer amor…

 

Brillan las nubes hechas de gotas

de agua,

como ropa blanca en un tendal

después de llover…

 

Los olores nos recuerdan,

construyen nuestro rostro.

 

Jugamos a vernos desde lejos.

                                     Ojala me vieras…

 

Se pasan solas las páginas

               de lo que ves…

Viajamos….

casi sin movernos

 

***

 

jorge pascual blanco

 

*


lido em: http://lafanzine.blogspot.pt/2011/01/un-poema-de-jorge-pascu

publicado por carlossilva às 08:39
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Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013
bébese o océano aos mortos

 

Bébese o océano aos mortos,

un a un, como negros caramelos de miseria;

baleira no seu estómagoo cal dos ósos

que aínda non foi capaz de roubar a fame,

e a ninguén lle resulta estraña

a súa longa dixestión desmemoriada,

o seu empacho de quenlla caníbal,

o fúnebre obrar do seu intestino

cando devolve á praia

o resíduo máis mudo do silencio.

 

Quen pechou con chave o horizonte?

Quen teceu a forca das ondas?

Quen empuxou á mar o cayuco ou a patera?

 

Bébese o océano aos mortos,

os tritura con saña no seu corazón de sal,

os mastiga con dentes de xigante

e os reboza en biles inhumana.

 

E ninguén di nada.

E ninguén sabe nada.

E ninguén sente nada.

E o peor: Ninguén fai nada.

 

Bébese o océano aos mortos

e aquí seguimos todos, empeñados

en coser fronteiras de arame,

cavar tumbas sen lápida

e negar o paso á madrugada.

 

***

 

fernando luis pérez poza

 

*


lido em: dezaoito

publicado por carlossilva às 08:16
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