Domingo, 30 de Setembro de 2012
lobos


Se me ocurre
que vagas detrás de los perros
porque te sientes uno más,
y que zarandeas los árboles
cuando el viento ya es potente
porque te gusta lo insalvable
y la presencia de Dios.

 

Se me ocurre
que las damas duermen sin ropas
porque esperan la humedad
y que saben, aunque esperan,
que la humedad sólo saldrá de los ojos.

 

Se me ocurre
que las niñas vienen por el monte
porque anoche aulló el lobo.

 

No es cualquier cosa
marchar al frente en la fila primera
ni descubrir que sobre el horizonte
alguien ha plantado un fusil
y nos ha quitado el sol.

 

Desde el subsuelo lloroso
llegan los lamentos cruzados
de los que perdieron la última batalla
y de los que elevan las uñas rascando la tierra
para mostrarnos que ya no llueve
y polvo es lo único que queda.

 

Desde el fuego de una mirada
hasta lo gélido del futuro,
no es cualquier cosa
vivir un día y otro día y otro.
Sin héroes ya
ni leyendas a las que echar mano cuando no hay luna.

 

***

 

pilar adón

 

*

 

 

Penso
que vagueias atrás dos cães
porque te sentes um mais,
e que abanas as árvores
quando o vento sopra forte
porque gostas do intransponível
e da presença de Deus.

 

Penso
que as damas dormem sem roupas
porque esperam a humidade
e que sabem, ainda que esperem,
que a humidade só sairá pelos olhos.

 

Penso
que as meninas vêm pelo monte
porque à noite uivou o lobo.

 

Não é qualquer coisa
marchar à frente na primeira fila

nem descobrir que sobre o horizonte
alguém plantou uma espingarda
e nos tirou o sol.

 

Do subsolo choroso
chegam os lamentos cruzados
dos que perderam a última batalha
e dos que mostram as unhas rasgando a terra
para nos mostrarem que já não chove
e pó é só o que resta.

 

Do fogo de um olhar
até ao gelo do futuro,
não é qualquer coisa
viver um dia e outro dia e outro.
Sem heróis
nem legendas a que deitar a mão quando não há lua.

 

*

 

[trad: cas]


lido em: http://www.pilaradon.com

publicado por carlossilva às 00:29
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Sábado, 29 de Setembro de 2012
395


Quem se eu gritasse, me ouviria pois entre as ordens

dos anjos? 

 

o dia clareado recorda-me que não dormi.

os ossos estagnam plúmbeos no interior do corpo cansado,

enquanto as pálpebras, presas por uma membrana de sangue seco,

simulam a obscuridade inexistente.

 

a Primavera surge abrupta como antecipação do Verão

e o Verão como corvo de densas asas, portador da morte.

resisto eficazmente à dor  sempre que a urgência dos dias me anula o pensamento;

chego a esquecer os rostos lançados ao vazio – ou, pelo menos, a deixar de os sentir.

 

para lá da memória, o meu reflexo avança negro no espelho velho da sala de jantar.

o medo será sempre mais forte, as reacções tempestuosas,

elaboradas artimanhas que me  permitam permanecer o mais absolutamente só.

 

sobre os lençóis mornos, a pele lívida expõe as veias carregadas de veneno.

nem os sonhos mais altos que me reservo resistem à fulgência das manhãs.

cubro-me de negro e preparo-me para a viagem:

reservo a existência a um lugar feito de nevoeiro.

 

***

 

marlene jabouille

 

*


lido em: http://dascoisasinvisiveis.blogspot.pt

publicado por carlossilva às 00:39
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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2012
sutura

 

As dobras e redobras de um corpo sem órgão:
lindo bebê deformado,
do nascimento só me sobrou a viscosidade da placenta
a linha-curvatura-do-fora-cartografia-escalas-estrias
de uma catástrofe cotidiana - memória palato fendido

no retrovisor sua imagem é uma abstração que não pode ser codificada
a subjetivação sem sujeito
nasci assim, órfão, despencado da cloaca de Deus
nos templos o homem exibe nuas cabeças decepadas

o pódium é o lugar da não-ocupação
e eu sou um homem de corpo coalhado.

 

***

 

márcia barbieri

 

*


lido em: http://www.avidanaovaleumconto.blogspot.pt/

publicado por carlossilva às 05:26
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2012
sondo o teu olhar!

 

sondo o teu olhar!
há nele o silêncio marítimo dos fundos oceânicos,
o cântico gemido das baleias
e o movimento das correntes aparentemente perdidas.
mergulho, se permites que te emerja
ou se paras os olhos num futuro que sonhas!
procuro-me no horizonte em que te fixas,
e observo um destino onde o azul é tão longínquo!

 

***

 

luísa azevedo

 

*


lido em: www.rtp.pt/blogs/programas/umpoemaporsemana/

publicado por carlossilva às 08:18
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Quarta-feira, 26 de Setembro de 2012
os noticiários da manhã

 

Os noticiários da manhã abriram com essa imagem

fabulosa: dois poetas construíam um edifício.

Não era um edifício abstracto. Não

era o utópico edifício do coração das obras.

Era um edifício verdadeiro: alicerces,

paredes, telhado; pedra, tijolos,

cimento. Em vez do exercício habitual

de poetas procurando destruir os edifícios

todos da cidade, um a um, disparando canhões

de pólen, estes dois poetas erguiam

um edifício verdadeiro, concreto,

tangível. E isto é de uma humanidade

comovente. E isto chego a pensar

que quase merecia um poema.

 

***

 

josé carlos barros

 

*


lido em: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/78197.html

publicado por carlossilva às 10:09
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012
cosas extrañas que sin embargo ocurren

 

 

Salgo de casa dejando bajadas todas las persianas. Huele a cebolla. Respiro lo mínimo arrugando la nariz consciente de que ya no hiervo en esta sopa. Desayuno dos cafés, uno detrás de otro. El segundo lo tomo con mi madre; ella moja unos churros mientras lamenta todo. Más tarde aso cuatro sardinas y perfumo mi calle con aroma marino de sal gorda. Mi hija esconde debajo del flequillo un saco de contradicciones y no come hasta mucho después, cuando el hambre es mayor que la pelea. Voy a ver a mi padre, está sentado en el sofá, no levanta cabeza, le digo que me mire y alaba mis zapatos para evitar el esfuerzo de erguirse. Al salir de su casa, mi corazón se suelta, se me cae a los pies con un sonido hueco. La gente me mira reprochando mi falta de cuidado. Recojo los trozos desperdigados y continúo el camino que no se ha dibujado aún. Por la noche mi sobrina me dice que un tigre me está esperando. Hago balance inútil de estas cosas extrañas que sin embargo ocurren.

 

***

 

inma luna

 

*

 

 

COISAS ESTRANHAS QUE NO ENTANTO ACONTECEM

 

Saio de casa deixando fechadas todas as persianas. Cheira a cebola. Respiro o mínimo enrugando o nariz consciente de que já não fervo nesta sopa. Tomo dois cafés, um atrás do outro. O segundo tomo-o com minha mãe; ela molha uns churros enquanto lamenta tudo. Mais tarde asso quatro sardinhas e perfumo minha rua com aroma marinho de sal gordo. Minha filha esconde debaixo da franja um saco de contradições e não come até muito depois, quando a fome é maior que a luta. Vou ver o meu pai, está sentado no sofá, não levanta a cabeça, digo-lhe que me olhe e elogia os meus sapatos para evitar o esforço de erguer-se. Ao sair de sua casa, meu coração se solta, cai-me aos pés com um som oco. As pessoas me olham reprovando a minha falta de cuidado. Recolho os pedaços espalhados e continuo o caminho que não se desenhou ainda. Pela noite minha sobrinha diz-me que um tigre me está esperando. Faço um balanço inútil destas coisas estranhas que no entanto acontecem.

 

*

[trad: cas]


lido em: http://www.espacioluke.com/2011/Diciembre2011/luna.html
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publicado por carlossilva às 15:03
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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2012
deslizam por um rosto antigo

 

Deslizam por um rosto azul
ígneas nuvens que obscurecem o sul
como cabelos de anjos longos
O olhar poisa suave na linha da mão
e quebra o feitiço que na distância vive
Implacável o destino que se alimenta
                                                         da possibilidade
e ocupa-me o pensamento a impossibilidade de o ser
Sabes vou-te dizer que o amor
coisa que não faço ideia o que seja
acontece num pormenor que súbito
clareia a origem azul de tudo
É isto digo e chamo-lhe amor
ou árvore ou rio ou mulher
Dou-lhe nome para clarear a minha cegueira
E estranho é acreditar nisso
agora que o meu olhar não encontra objecto

 

***

 

fernando martinho guimarães

 

*


lido em: http://www.gargantadaserpente.com

publicado por carlossilva às 12:05
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Domingo, 23 de Setembro de 2012
com palavras

 

Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
E saio para a rua.
Com palavras — inaudíveis — grito
Para rasgar os risos que nos cercam.

 

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
Em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
Para dormir o cansaço.

 

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
Roxas de silêncio. De que servem
Asfixiadas em saliva, prisioneiras?

 

Possuímos, das palavras, as mais belas;
As que seivam o amor, a liberdade…
Engulo-as perguntando-me se um dia
As poderei navegar; se alguma vez
Dilatarei o pulmão que as encerra.

 

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
E faltam-me palavras para contar…

 

***

 

egito gonçalves

 

*


lido em: http://recreiodasletras.wordpress.com

publicado por carlossilva às 18:15
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Sábado, 22 de Setembro de 2012
interótico


 

"algures pela rua no nenhures da vida"

 


o crepúsculo fecha-me pelas mãos

na sua lucífera têmpora está o céu

um óvulo machado na sua cor ilegal

um pinhal de luas num invólucro de desejos involuntários

brumas de sonhos que sangram pela lâmina da luz

 

um punhal de poente com cabelos de rosas

e névoa na pele da tarde

 

esse céu rosado

ferido de clarões proféticos

essa trévoa que danifica as vértebras 

e clarifica como uma fibra menstrual

o protesto da carne arbórea

o místico óvulo que transmigra pela saliva

a chuva que transita pela água do indefinido

 

o alimento incandescente em pétalas

a cadeira intangível das recordações

a extinção da alba pelo rosto do tempo

o rio que se esconde na casa do inverno.

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: http://carlosvinagre.blogspot.pt

publicado por carlossilva às 03:56
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Sexta-feira, 21 de Setembro de 2012
XXIX

 

A noite
já não vem
a esta sala.

Todas as aves
partiram
para o fogo.

O Alentejo
acorda.

Gosto disto aqui.
Gosto destas casas.

Gosto desta árvores.
Gosto destas chaminés.

Gosto de ver
passar
o  mundo por esta rua

 

***

 

carlos mota de oliveira

 

*


lido em: http://carlosmotaoliveira.com.sapo.pt

publicado por carlossilva às 10:20
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