Sábado, 31 de Março de 2012
há dias

 

Há dias que escaldam,
dias de fogo posto na brancura da neve,
dias devoradores de carne
em sangue sobre o orvalho da pele;

Há dias em que dói o milagre
na cabeleira de um querubim
escorregando Alvão abaixo
sem medo;

Há dias sem tempo
no negro musical do espaço
que se encarrega de mim.

 

***

 

marília miranda lopes

 

*


lido em: http://cosmoscripto.blogspot.pt/

publicado por carlossilva às 01:42
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Sexta-feira, 30 de Março de 2012
voz de jeremy irons

 

 

 

(e=71)

 

tenho todo um tempo de juventude

polido no vazio

(em deserto)..........................

 

talvez tal exceção

me dê direito a um voucher

com um temporada num hotel

do lido de veneza

um desses

com praias exclusivas

onde até o clima deve ser mais fresco

e as brisas aquecidas

 

em todo o caso

esse tempo assim precioso

pretendo usá-lo no céu

como um diamante de sangue

 

não porque os sofrimentos sejam comparáveis

é mas é o céu

que é bem menor do que o mediterrâneo

e os que nele se perdem não conhecem

a raça da sua infância

a classe do seu anseio

[ou orientação de dor]

 

***

 

pedro ludgero

 

*


lido em: http://cabodaboatormenta.blogspot.pt/

publicado por carlossilva às 13:05
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Quinta-feira, 29 de Março de 2012
sem ti tudo é mais tranquilo e doce


Sem ti tudo é mais tranquilo e doce.
asperge o sovaco um perfume raro
e teu pescoço de sardão másculo
derrete-se de tanto linguado

subtraído e alheado o testículo anelar
sob e desce consoante a súbita garganta
o pássaro que tem na bota

molha a casta santidade eréctil a passagem
de uma malha sacrílega à ceia
enquanto o apostolado em orgia branqueia o vinho

os congregados adormecem num eterno repouso.

 

***

 

aurelino costa

 

*


lido em: http://aurelinocosta.blogspot.pt/

publicado por carlossilva às 02:48
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Quarta-feira, 28 de Março de 2012
radiografía

He visto el esqueleto de mi alma,
y no he tenido miedo.

Yo no he visto los huesos
que calmarán el hambre de los buitres,
o encontrarán su tumba bajo el agua,
entre la sal y los naufragios.
No todavía.

Tampoco he visto en ellos cicatrices:
quizá no he estado nunca en la batalla,
siguiendo las estelas de los tanques,
golpeando otros huesos con mis huesos.
No todavía.

He visto el esqueleto de mi alma:
era una catedral del siglo XIII,
sólo nervios y vanos,
y nada alrededor, clara y oscura.

 

***

 

maria m. bautista

 

*

 

Vi o esqueleto da minha alma,
e não tive medo.

Não vi os ossos
que acalmarão a fome dos abutres,
ou encontrarão seu tumulo debaixo de água,
entre o sal e os naufrágios.
Ainda não.

Também não vi neles cicatrizes:
talvez nunca tenha estado na batalha,
seguindo os rastos dos tanques,
golpeando outros ossos com os meus ossos.
Ainda não.

Vi o esqueleto da minha alma:
era uma catedral do século XIII,
só nervos e vãos,

e nada à volta, clara e escura.

 

*

[trad: cas]


lido em: http://lacegueradepiero.blogspot.pt/

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Terça-feira, 27 de Março de 2012
un die
un die, apuis la termienta,
deste cuntigo an sítio ermo,
lhebado na mundiada cumo broça,
cansado, zupiado, fruita que cai
pocha de l'arble sien campo
para mais amadurar, ancapaç
d'aguantar un filo de nabalha,
sorbido l çumo até la carunha.

refazes l mapa de ls dies antigos
i nun dás culas gatunhas que
sgadunhado te deixórun de punto
an branco, solo necras ne l bolso
te quedórun nada al modo
para nuobo mosaico quelorido:
i ampeças a atrabessar la nuite
talbeç de l outro lhado inda te speres.
***
amadeu ferreira
*

lido em: http://lhengua.blogspot.pt/

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Domingo, 25 de Março de 2012
a miña nai na praia

 

A miña nai na praia, tarde turba

de ondas a ferver.

A miña nai quebrada, figura de latón

contra os muros do mar. Que non se entende

a música do tempo, onde estarei

cando o meu fillo poña neste verso

aquela tarde cova, o vento escuro

no terror da luz cóncava. Os avós

cantaban por enriba do balbordo

da escuma. Mar adentro

a perderse nun erro da memoria.

A miña nai, sen cabo, sen peirao,

regresa aqui setenta anos despois

e permanece tráxica

fronte aos muros do mar.

 

 

***

 

 

xosé maria álvarez cáccamo

 

 

vigo (galiza), 1950

 

*

 

 


lido em: http://martelo.com.sapo.pt/incomunidade_04.htm

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Sábado, 24 de Março de 2012
fedra o los indicios vehementes


 

For the country of death is the heart’s size

Dylan Thomas

 

sólo sé existirme si te sufro

perdona que te muestre el corazón

 

no es éste el hilo musical del cisne

y sus lacrimaciones pero

en la deflagración de mis batallas secretas

y hasta el erial más íntimo de mis derrotas

yo quiero dedicarte esta excelsa tragedia

la necesaria tragedia del amor

 

amasijazos en la sombras de la carne

en esa geométrica arteria

que suma angustia y trepidaciones ahí están

ahí están los indicios vehementes

 

la voz parece hermosa en las últimas palabras

amándote estoy te estoy

y siempre así

así que me duela

 

más allá de una mera transgresión retórica

sin eros de poetas que intercedan

me complazco y me sublimo tan perniciosamente

que persigo amarte

aun en contra de mis pobres virtudes

y a favor de toda disponible muerte

 

 

***

 

tina suárez

 

las palmas, 1971

 

*

 

 

 

 

 

 

 

FEDRA OU OS INDÍCIOS VEEMENTES

traducción al portugués: alberto augusto miranda

For the country of death is the heart’s size

Dylan Thomas

 

só sei existir a sofrer-te

perdoa que te mostre o coração

 

não é este o fio musical do cisne

o seu lacrimejar mas

na deflagração das minhas batalhas secretas

até ao baldio mais íntimo das minhas derrotas

quero dedicar-te esta excelsa tragédia

a necessária tragédia do amor

 

amassados nas sombras da carne

nessa geométrica artéria

que soma angústias e trepidações aí estão

aí estão os indícios veementes

 

a voz parece linda nas últimas palavras

estou a amar-te estou-te

e sempre assim

que assim me doa

 

mais do que uma mera transgressão retórica

sem eros de poetas que intercedam

comprazo-me e sublimo-me tão perniciosamente

que persigo amar-te

mesmo contra as minhas pobres virtudes

a favor de toda a morte disponível

 

*


lido em: http://martelo.com.sapo.pt/incomunidade_04.htm

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Sexta-feira, 23 de Março de 2012
siete poemas

 

0

Apocalítica

Desde que existe Ray-Ban no hay Faetontes

 

1

Ícaro

Con el amasijo de cera se hicieron tablillas

Que se grabaron con las plumas caídas

 

2

Dédalo

Los planos no eran otra cosa que el mapa estelar.

Pêro a quién se le va a ocurrir consultar el cielo

Cuando el olor de la bestia se hace tangible?

 

3

Tengo una neurona vestida de azul...

 

4

Nobleza obliga

Entre tus dedos de sangre azul

los anillos parecen profundos

sumergidos como restos de una hermosa ahogada.

Al escribir tu nombre,

 

Serenisima,

las curvas son difíciles para las cuchillas.

 

5

No tengas miedo de recordar el pasado:

Aunque te convirtieras en estatua de sal,

Te lamería hasta morir de deshidratación.

 

6

Lot

(Por lo menos, Yahve tuvo el detalle

de hacer subir el precio de la sal.)

 

7

Lo encarcelaron

Por agredir el património artístico

Al sorprenderle acariciando con limones el David de Miguel Ángel

 

(A ella la detuvieron exactamente por el mismo delito

Porque al frotarse desnuda contra la escultura

No tuvo en cuenta el Ph ácido de su vientre.)

 

 

***

 

sofia gonzález

 

madrid, 1978

 

*

 

 

 

 

 

SETE POEMAS


 

0

Apocalítica

Desde que existem os Ray-Ban já não há Faetontes

 

1

Ícaro

Com a massa da cera fizeram-se outdoors

Gravados com as penas caídas

 

2

 

Dédalo

Os planos eram simplesmente o mapa estelar.

Mas quem se lembrará de consultar o céu

Quando o cheiro da besta se torna tangível?

 

3

Tenho um neurónio vestido de azul...

 

4

Noblesse oblige

Entre os teus dedos de sangue azul

os anéis parecem profundos

submersos como restos de uma formosa afogada.

Ao escrever o teu nome,

 

Sereníssima,

As curvas são difíceis para as navalhas.

 

5

Não tenhas medo de recordar o passado:

Mesmo que te convertesses em estátua de sal,

Lamber-te-ia até morrer de desidratação.

 

6

Lot

(Pelo menos Iavé teve o detalhe

de fazer subir o preço do sal.)

 

7

Prenderam-no

Por agredir o património artístico

Foi apanhado a acariciar com limões o David de Miguel Ângelo

 

(A ela detiveram-na exactamente pelo mesmo delito

Porque ao esfregar-se nua contra a escultura

Não teve em conta o ph ácido do seu ventre.)

 

*

 

[traducción al portugués: alberto augusto miranda]

 



publicado por carlossilva às 12:09
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Quinta-feira, 22 de Março de 2012
cidade irreal


 

1

Entre dois espelhos

corre, o escasso dia, e ninguém

com ele corre.

 

2

Envelhecida

noiva, em cada esquina cai

de sono, a Lua Nova.

 

3

Exumadas rusgas,

lassas sombras que o medo

enlaça ao pé da escada.

 

4

Lívidos espasmos

prolonga então no sangue

a faca escura.

 

5

Um só desejo

espera pela demora de

outra chegada morte.

 

6

Frio lagarto,

o Sol acama a febre:

lodo, vento, cais.

 

7

A horas mortas,

vingam a luz nos saguões:

raro desgarro, cio.

 

8

Na mão ausente,

outro cigarro vago de

todo se fumou.

 

 

9

Nunca atendidas

ao balcão, glosam naufrágios

de cana, e cantochão.

 

10

Postos em linha

sobre carris forçam a malha

fugida do destino.

 

11

Olhos nos olhos

enchem: vazios favos,

fulvos, de ternura.

 

12

Siderados mortos

de sede, bebem a noite

noivada do sepulcro.

 

13

De borco ao relento

sonham prender-se a tempo

a cauda de um cometa.

 

14

Em menos dum ‘nstante

rastros de estrela ajusta a si

a face do archeiro.

 

15

Águas passadas

ponte que a avalanche de neve

carbónica atolou.

 

16

De rua em rua, já

nas mãos do florista se fez

noite a flor do absynto.

 

17

Sob pálpebras

de chumbo volta a ser chaga:

o fósforo do olhar.

 

18

Exaurida prece

esfriam as vozes, de arco em

arco, p’lo céu da boca.

 

19

A não ser que a chama

ateie o coração, ficam-se:

o sorriso de lacre.

 

***

 

vergílio alberto vieira

 

amares, 1950

 

*

 

 


lido em: http://martelo.com.sapo.pt/incomunidade_04.htm

publicado por carlossilva às 02:06
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Quarta-feira, 21 de Março de 2012
intropoética

 

Poesía para vivir. Non para ser alguén. Poesía para ser. Ser poeta é non ter decidido selo. Escribir é non poder non escribir. Como un acto fisiolóxico. Poesía como ter fame. Natural coma toda secreción. Cántico corporal. Trallazo de algures. Incógnita que se manifesta. Instinto que se resolve. Resolución espasmódica. De dentro cara fóra. Unha memoria que pide canle. Tambor que se toca por dentro da pel. Chuvia que se chove a si mesma. Rotación do caos. Terminacións nervosas do Pracer. Castro da inmensidade. Intelixencia introspectiva. Acto de amor.

Da poesía non pode esperarse nada. A poesía non se estorsiona. Contorsiónase ela. O acto de escritura non se provoca: é el quen provoca. E o que el revela, rebela sempre. Entregáse por nada. Dáse. Déixase comer. Abandóase.

Apátrida. Viva en exilio permanente. En disolución. Desintegrada. Remota no centro do mundo. Central na periferia. Nunca casual e sempre cáustica. Verdade que só aspira a ser verdade. Pobre de pedir. Bestia descomunal. Nena furiosa. Método inductivo. Piollosa. Criminal sincera.

Non se produce poemas: supúranse. Non creo pensamento ó redor da miña propia supuración: non teño autopoética. Nin quero tela. Non sei qué di cando digo. Só percibo escuramente o seu gurgullar impredecible: a miña é talvez non unha autopoética senón unha intrapoética. Escoito a súa ecuación coma unha bomba.



Que ninguén se engane: a poesía é unha ciencia exacta. Chea de goma2 e amor.

 

***

 

olga novo

 


*


lido em: http://lasafinidadeselectivas.blogspot.pt/2007/03/olga-novo.
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