Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012
avanço rente ao solo

 

avanço rente ao solo

os músculos retesados.

(sobre a pele

o voo longínquo duma ave).

 

avanço. um coração ao alto.

as palavras avassalam

e o sol já não aquece.

 

este bater em hausto contra o muro.

 

a forma das mãos - triangular.

 

o desejo fechado numa gaveta

de ócio.

 

não digo que estou vivo.

 

como as palavras

sei que oscilo.

 

***

 

licastro

 

*


lido em: a morte prematura e outras poemas
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publicado por carlossilva às 00:01
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Domingo, 29 de Janeiro de 2012
as folhas caídas

 

Nada de muito diferente de há quarenta mil anos.

Estes alunos são ainda homens das cavernas.

Verdadeiramente totémicos,

os pré-históricos alunos

desenham falos em livros de encantar,

castigam as páginas de belos livros com

conspícuos e vigorosos membros

deteriorando os materiais, aviltando o texto,

sobrepondo à cândida ilustração

a sua leitura do mundo,

a sua arma de escolha.

 

As meninas ficam horrorizadas.

nem falam.

 

Às pinturas rupestres estão agora por todo o lado:

livros, carteiras, paredes

como nas paredes das cavernas há quarenta mil anos...

E em que é que estas diferem daquelas?

E o que é uma sala de aula senão uma caverna

e as paredes paredes?

Civilizações de permeio apenas,

a possibilidade da rinoplastia...

 

 

Eu olho-os com os seus occipitais protuberantes,

na depressão de testa e mento,

na fria latitude pleistocénica

desta caverna

onde Platão não tem lugar,

apenas o mamute que prenuncio lá fora,

gélido como um temporal,

proboscídeo, adventício,

anunciando a era do elefante.

 

As folhas caem. Os falos também...

Tudo está solto, caduco.

Estes alunos são os elefantes que o mamute anuncia.

E os genitais continuam a ser um modo de expressão,

de pôr trombas em todo o lado, epigramas

assomando nesta tarde cinzenta.

 

enquanto atiro o olhar

pelo ponto de fuga da janela,

o meu olhar irreprimível face aos lenhos,

vigorosamente inscritos

na paisagem.

 

***

 

daniel jonas

 

*


lido em: Publico

publicado por carlossilva às 09:41
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Sábado, 28 de Janeiro de 2012
me dices que te hable sobre mi vida

 

Me dices que te hable sobre mi vida.
Yo te propongo un poema sobre la locura.
Me propones una frase para desarrollar un poema.
Poema es momento presente, lo que me ocupa.
Me dices que me ponga en el lugar
de la que me hubiera gustado ser.
Yo te digo que una actriz de cine
famosa para vivir y ser amada por miles
que es como volar por encima de una playa
y saber que aquella gente me mira y me llama.
Eso es morir.
O suicidarse.
Vagar como un fantasma ausente
en la conciencia de miles sin cuerpo ni cara.
Para verlo tomar palco entre miles estupefactos
y llamarme.
Suelo volar como una paloma herida
en una playa interminable
y dejar rastros de sangre
ante el tin tin ausente
de tu teléfono,
llamarte es confrontarme con la realidad inexorable
de un fracaso

 

***

 

martha kornblith

 

lima (peru), 1959 - caracas (venezuela) 1997

 

*

 

Pedes-me que te fale sobre a minha vida.
Eu proponho-te um poema sobre a loucura.
Propões-me uma frase para desenvolver um poema.
Poema é o momento presente, o que me ocupa.
Dizes-me que me ponha no lugar
da que gostaria de ter sido.
Digo-te que uma actriz de cinema
famosa para viver e ser amada por milhares
que é como voar por cima de uma praia
e saber que aquela gente me olha e me chama.
Isso é morrer.
Ou suicidar-se.
Vaguear como um fantasma ausente
na consciência de milhares sem corpo nem rosto.
Para vê-lo ocupar o palco entre muitos estupefactos
e chamar-me.
Costumo voar como uma pomba ferida
numa praia interminável
e deixar rastos de sangue
perante o trrim trrim ausente
do teu telefone,

chamar-te é confrontar-me com a realidade inexorável
de um fracasso

 

*

 

[trad: cas]


lido em: http://dibujosalmargen.blogspot.com/2009/09/martha-kornblith

publicado por carlossilva às 15:45
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Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2012
o livro das tempestades


Fólios sonoros rasgados
ao vento girando os dias
assombrando a terra
(pianoforte) — árvore das mil estrelas qual livro aberto
e tudo e todas as páginas
ao vento também
dos poemas despedaçados
esfera marítima rumorejante
esfomeada
ondulando as roupas coloridas
de um varal aéreo
rodopiantes silfos
sufis, encantos ou Mary Poppins
com su umbrella bianca
— serei as duas almas de Hurricane
subterrâneo vício de Ulisses
no velo do abraço a tarde fria
espumando a boca
do cão com asas
do cão sem asas
guiando meu cego corpo
mar do olho pedregoso atirado à fuligem
sopro preso no sopro
na voragem
e de novo o corpo
em grifos
açoites
entrecortando cidades girando
aqui
meu pequeno vendaval
sobre
o tapete chinês

 

***

 

jussara salazar

 

*




lido em: http://asescolhasafectivas.blogspot.com/2008/10/jussara-sala

publicado por carlossilva às 18:41
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Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012
desparecer juntos

 

y vi tu cara entre las que no había visto antes.
y dije "por qué no desaparecemos juntos".
pero abrí los ojos tarde.
me dirigía hacia el callejón sin salida de la noche.
tengo que darle un nombre a la oscuridad
por no mirarte a los ojos


no deberías tener ojos. ni yo sueños.
así podría quedarme dormida como cualquiera.
más allá de nuestros espantos individuales, dormir como todos,
sin pensar en los párpados cerrados como distancia

*

 

natalia litvinova

 

*

 

desaparecer juntos

e vi teu rosto entre os que nunca tinha visto
e disse “por que não desaparecemos juntos”
mas abri os olhos tarde.
dirigia-me ao beco sem saída da noite
tenho que dar um nome à escuridão
por não te olhar nos olhos


não devias ter olhos. Nem eu sonhos
assim poderia ficar adormecida como outra qualquer
mais além dos nossos próprios medos, dormir como todos,
sem pensar nas pálpebras cerradas como distância

 

*

[trad: cas]


lido em: http://www.ciclopaenlabocadeunmudo.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 15:15
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Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012
a ilha do dia anterior

Havia um barulho de moedas
despencando na noite
e o bater de asas desarmônico das moscas
o azul terno das moscas moribundas.

Pareciam sinos entoando tristes melodias
e eu pensava em partir,
ouvindo o apito urgente dos navios,
embora não houvesse portos nos arredores
nem sonhos despedaçados de velhos marinheiros.

As coisas não acabam quando terminam – desterros,
precisam se acostumar  com a solidão dos relógios parados,
dos pêndulos desnudos – A crônica da casa assassinada
com a sublimação agonizante das naftalinas.

os objetos se desfazem antes ou depois
se espremendo numa verdade inventada,
Partida –ficção e traças...

Pinto o rouge et noir
dos morangos mofados
lagartas sem metamorfoses
queimando o oco do meu peito
- ensurdeço.

A gosma branca da solidão
anda feito lesma no meu dorso
um resto em retardo do seu gozo.

Hoje,
tétano nos meus olhos enferrujados
de tanto ver.
A dor é uma crosta espessa
falsos moluscos enrodilhando minha pele
Peixes estripados.


***

marcia barbieri

são paulo (brasil), 1979

 

*



lido em: http://www.o-bule.com/

publicado por carlossilva às 17:00
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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012
el yogurt de frutos rojos que regulará el transito intestinal de mi cuerpo


Esta noche mientras ingiero
el yogurt de frutos rojos
que regulará el tránsito intestinal de mi cuerpo
pienso en la gente que huye,
en la que se queda,
también en ti,
en por qué sigues en esta ciudad
si sabes que existen muchos sitios donde esconderse,
si sabes que los lugares oscuros son en realidad
los que dominan el mundo.

 

***

 

sonia fides

 

madrid, 1969

 

*

 

o iogurte de frutos vermelhos que regulará o trânsito intestinal do meu corpo

 

Esta noite enquanto ingiro
p iogurte de frutos vermelhos
que regulará o trânsito intestinal do meu corpo
penso nas pessoas que fogem,
nas que ficam,
também em ti,
e na razão por que continuas nesta cidade
se sabes que existem muitos sítios onde te esconderes,
se sabes que os lugares escuros são na realidade
os que dominam o mundo.

 

*

 

[trad: cas]


lido em: http://www.mademoisellejoue.blogspot.com

publicado por carlossilva às 20:00
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012
autobiografia

 

 

Não preciso mas tu sabes como eu sou

Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas

Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.

As pessoas quando acordam são outras, já sabias,

Essa névoa contemporânea do medo miudinho

Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste

Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o

Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha

Tu bem sabes.

Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.

E a minha vida mudou, a noite cresceu,

A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria

Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.

Na luta perdi um ou dois braços,

Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,

São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,

O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica

E profunda: sem braços e agora sem mais nada.

Não me percebeste, enchi-me de fúria.

É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e

Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,

Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.

O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.

Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida

Medonha e múltipla. E agora descanso

Deitado nestas mãos que mexem

Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos

P’la manhã.

 

***

 

rui costa

 

porto, 1972 - 2012

 

*

 


lido em: http://casadospoetas.blogs.sapo.pt/11220.html

publicado por carlossilva às 00:28
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Domingo, 22 de Janeiro de 2012
indignação

 

O horror calou tudo, declararam.

Depois de Auschwitz

Continuámos a falar, porém - sem ambição.

Reconhecendo o inalcançável,

Baixando o olhar.

Pois o que pode a fala? Por que dizem

Que, cantada, faz de arma?

Se com ela não nos municiamos.

Se, com a morte duma Grécia antiga,

Perdemos o condão de nomear

Deuses e sentimentos e até

As pequenas moléculas, enfim, nomear o real

Que, naquele caso, incluía o tremendo e a maravilha?

 

Esses, os que levavam para a praça

Quezílias, sim, projectos e também,

E, sobretudo, uma noção de polis

E de uma paridade vigiada,

Severamente vigiada.

Os Gregos, esses

Que narravam o medo para que o medo

Se tornasse visível, prisioneiro

Na teia do poema,

Se não compreensível, pelo menos

Transformado em espectáculo - essa Grécia,

Essa Atenas perfeita, mais perfeita

Que qualquer utopia, a rapariga

Inesperadamente transformada

Numa ruína,

Esses - que não existem

E nos deixaram assustados, sós,

Sob o sem-rosto, sós

Sem as ferramentas adequadas,

Sem pensamento,

Sem esses deuses temperamentais

Que tomavam partido nos combates,

Nós, os abandonados, os que não

Sabem sequer como aplacar

E a quem,

Nós os emudecidos,

Irmanados com os sem-terra, nós,

Os futuramente esfomeados,

Bárbaros com os pés no alcatrão,

Bebedores de petróleo, como pode

 

De novo a praça,

A Ágora, juntar-nos?

 

Transformados em porcos, por feitiço,

Pela malevolência,

Exactamente

Como na Odisseia,

Não sabemos

- e os Gregos esqueceram -

Como é que tal feitiço

Se desfaz?

 

***

 

hélia correia

 

*


lido em: Publico

publicado por carlossilva às 16:47
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Sábado, 21 de Janeiro de 2012
execução

 

executo-me

em cada frase que pronuncio

no enorme bosque de labaredas

há espelhos a partir as escamas

uma náusea a fiar os olhos

 

executo-me

e em cada pele que transmuta

um alerta excreta pela ponta do penhasco

uma sombra a espalhar-se pelo mundo

 

executo-me

e na execução da minha carne

na ascese do meu corpo

uma luz embacia o sonho

e no vidro do do rosto

cai a chuva pelos músculos

como um turismo sem forma

 

executo-me ininterruptamente

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: ranhura

publicado por carlossilva às 12:55
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