Terça-feira, 31 de Maio de 2011
dias debaixo da força das raízes


.
dias debaixo da força das raízes.
sesteando
a lonjura de um infinito menor.
a gramática cresce para silêncio
e é a sensatez que encontra
o título da antítese.
um outro ser ganha o desejo
de um outro.
a sensibilidade é uma questão
de sim ou não.
os dias morrem em varandas
de não casas.
e eu sou um pouco de todos os nadas.
com o caroço de todo o capricho,
a ferramenta de todo o prazer.

 

***

.
sylvia beirute

 

*


lido em: http://sylviabeirute.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 16:21
link do post | comentar | favorito
|

Segunda-feira, 30 de Maio de 2011
bolo de milho

 

gosto de bolo de milho

e nada é mais simples que isto

 

a minha varanda vai aumentando todos os dias para o mar

não sei quantas outras varandas com velas cá chegaram

sei que as espero como um Índio de pernas cruzadas

que aceita trocar

posso entender olhos em caras muito longe

e na dúvida sei dobrar

as sobrancelhas à volta da terra

 

é que está tudo tão quieto aqui

depois de guerras se comerem sozinhas

pedras arderem no espaço

e células codificarem operações militares

que não me cabe a mim perguntar

só deixar o colapso acontecer

no que muito bem lhe apetecer

como este bolo de milho

tão simples de gostar

 

***

 

joana espain

 

*


lido em: http://avoltadascoisas.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 14:56
link do post | comentar | favorito
|

Domingo, 29 de Maio de 2011
paisagem com frutas

 

Duas peras sobre a mesa

esperam a tua fome.

O dia é verde

e o vento tem cores provisórias.

Sobre o muro

um pássaro mudo

de olhar escuro

perscruta a tua sombra

Ele sabe

que ninguém sabe

em que azul

ocultas

teu absurdo.

 

***

 

maria esther maciel

 

patos de minas (MG), 1963

 

*


lido em: http://asescolhasafectivas.blogspot.com/2006/09/maria-esther

publicado por carlossilva às 14:42
link do post | comentar | favorito
|

Sábado, 28 de Maio de 2011
lírios

 

Um dia deixarei para sempre o casaco no cabide da entrada

outras mãos que não as minhas haverá para o recolher

outros olhos pelos meus lhe hão-de fitar depois a ausência.

Depois, nem isso.

Há um momento em que se estende a toalha sobre a mesa dos mortos

como se tivesse sido sempre a mesa dos vivos. Esse dia virá.

Tudo então estará certo e limpo como o esquecimento.

Ou quase assim.

 

Dispo agora toda esta roupa e escrevo

- sem frio nem perda nem desastre -

a partir desse dia que virá, esse dia depois de mim:

 

lírios crescem no acaso vivo da relva

uma leve poeira se acrescenta ao ar que não respiro.

 

***

 

rosa maria martelo

 

vila nova de gaia, 1957

 

*


lido em: Público

publicado por carlossilva às 11:46
link do post | comentar | favorito
|

Sexta-feira, 27 de Maio de 2011
fagulhas

 

Algo que me envolve
e me embala em ti
encanta-me quando me não sentes
Clareza da alma
para a vida

A minha outra face ainda é defeito,
trovão sobre as estrelas
extinguindo-se em tua luz.
A filha que me habita
eterniza-te

Tenho o amor que me emprestas,
escuridão grávida de luz
embrião de sangue no mar,
segreda-se
sempre que o teu barco respira
para mim.

 

***

 

sara l. miranda

 

*


lido em: http://umacasaemviagem.blogspot.com/

publicado por carlossilva às 17:59
link do post | comentar | favorito
|

guarda-roupa de nuvens

Há nuvens para tudo

para todos os gostos.

Ou barcos parados

no céu ondulado

dastardes de Agosto

ou lenços rasgados pelos nervos do vento dum maio indisposto.

 


 

***

 

José Fanha (1951)

Lisboa - Portugal

 


lido em: Marinheiro de outras luas

publicado por carlossilva às 11:41
link do post | comentar | favorito
|

Quinta-feira, 26 de Maio de 2011
organismo gasto



A mosca prepara cuidadosamente o momento da morte
e uma pedra amnésica recolhe-se a meio do abismo,
enquanto o canastro de argila se desfaz
em todos os segundos.

A velhice entra-nos pelo quarto,
como um parente indesejado
e um pedaço de céu purpurino desaba
sobre o último verso vivo que permanecia na estante.

De nada me adianta continuar a calar a solidão
no interior das palavras
se o sangue que ainda me resta
está ocupado a irrigar o passado.

Nada a fazer: a paisagem adormece
debaixo do musgo que arde pelas imensas memórias
e o palco prepara sozinho o último cenário,
quando os artistas anunciam o fim da peça.

 

***

 

sara costa

 

*


lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

publicado por carlossilva às 11:38
link do post | comentar | favorito
|

Quarta-feira, 25 de Maio de 2011
árvore de tronco fino

Árvore de tronco fino
enraizei.
À terra-mãe minhas garras
me seguram.
De seu útero negro me alimento.
Mas meus braços-ramos
meus dedos-folhas a recusam,
implorando do espaço aberto
saciedade.

 

***

 

fernanda frazão

 

*


lido em: http://www.triplov.com/Britiande/filocafe2011/textos/fernand

publicado por carlossilva às 17:24
link do post | comentar | favorito
|

Terça-feira, 24 de Maio de 2011
mãe gaia

 

 

Sento-me na varanda

quando são de seda

as tardes de Verão.

A cadeira balouçante na brisa,

perdidos os olhos, a memória e os sentidos

no perfil azul-sombrio da Serra do Marão.

 

Contudo,

terra minha mais do que Maranus

e Britiande, em Lamego,

é Gaia, a biosfera,

lápis-lazúli de ânsia

em que vogam, gigantes,

as Victoria regia das estrelas.

 

E mais terra ainda do que essas

é a secura desta falta de sementes

amara duna

o nada florir a nascente

além da vinha e dos pomares

como reconhecida cultura.

 

Vai morrendo lentamente a esperança

e sei que somos nós o parasita

terra que à terra volveremos

sem o bombom de um novo ab initio.

 

Numa qualquer tarde sem ar limpo

nem límpida transfusão da luz

pela vidraça de fumo atmosfera

mergulharemos no nada como o precipício

em que se aterra sob o seu próprio peso

o céu outrora anil-olímpico

agora da saudade o xaile verde.

Do pó ao pó – eis a Terra.

 

***

 

maria estela guedes

 

*


lido em: risco da terra

publicado por carlossilva às 15:14
link do post | comentar | favorito
|

Segunda-feira, 23 de Maio de 2011
as mãos cobrem a terra nos lábios

 

As mãos cobrem a terra nos lábios

rarefeitos - a ténue emoção do rosto

rarefeitas - as mãos cobrem a boca

na água nocturna

no sucalco

as mães gritam aos penhascos

com a barriga exangue

o húmus cavernoso

 

há o sal a pairar na terra

e a tocha abre o córtex

com um pedaço de sombra sobre o corpo

recôndito - um espasmo sobe as pernas

como a meia-noite em esperma

 

esquece-se a mênstrua saia do mundo

 

***

 

carlos vinagre

 

*


lido em: inédito

publicado por carlossilva às 12:18
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
agenda
18 de abril 2013 19 de abril 2013
Junho 2013
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
14
15

18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


posts recentes

fogo e água

pára-me de repente o pens...

si digo mar

infância

trapo de voz representa o...

nana para gatos a punto d...

sou uma coluna crematória

dois poemas

nacín vello de máis

uelen

arquivos

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

tags

a m pires cabral(4)

adelia prado(5)

adilia lopes(8)

al berto(6)

alba mendez(4)

albano martins(4)

alberte moman(8)

alberto augusto miranda(9)

alexandre teixeira mendes(11)

alfonso lauzara martinez(8)

alice macedo campos(13)

alicia fernandez rodriguez(5)

almada negreiros(4)

amadeu ferreira(8)

ana luísa amaral(6)

ana marques gastao(4)

andre domingues(5)

andreia carvalho(4)

antonio barahona(5)

antonio cabral(5)

antonio gedeao(5)

antonio ramos rosa(7)

anxos romeo(4)

ary dos santos(5)

augusto gil(4)

augusto massi(4)

aurelino costa(11)

baldo ramos(6)

bruno resende(5)

camila vardarac(9)

carlos drummond de andrade(5)

carlos vinagre(13)

cesario verde(4)

concha rousia(4)

cristina nery(5)

cruz martinez(9)

daniel filipe(5)

daniel maia - pinto rodrigues(4)

david mourão-ferreira(6)

elvira riveiro(8)

emma couceiro(4)

estibaliz espinosa(7)

eugenio de andrade(8)

eva mendez doroxo(8)

fatima vale(10)

fernando assis pacheco(4)

fernando pessoa(5)

fiamma hasse pais brandão(5)

florbela espanca(7)

gastão cruz(5)

helder moura pereira(4)

ines lourenço(6)

iolanda aldrei(4)

jaime rocha(5)

joana espain(10)

joaquim pessoa(4)

jorge sousa braga(6)

jose afonso(5)

jose carlos soares(4)

jose gomes ferreira(4)

jose luis peixoto(4)

jose regio(4)

jose tolentino mendonça(4)

jussara salazar(6)

luis de camoes(5)

luisa villalta(4)

luiza neto jorge(4)

maite dono(5)

manolo pipas(6)

manuel alegre(6)

manuel antonio pina(8)

maria alberta meneres(5)

maria do rosario pedreira(5)

maria estela guedes(7)

maria lado(6)

maria teresa horta(5)

marilia miranda lopes(4)

mario cesariny(5)

mia couto(8)

miguel torga(4)

nuno judice(8)

olga novo(17)

pedro ludgero(7)

pedro mexia(5)

pedro tamen(4)

raquel lanseros(9)

roberta tostes daniel(4)

rosa enriquez(6)

rosa martinez vilas(8)

rosalia de castro(6)

rui pires cabral(5)

sophia mello breyner andressen(7)

suzana guimaraens(5)

sylvia beirute(11)

tiago araujo(5)

valter hugo mae(5)

vasco graça moura(6)

virgilio liquito(5)

x. m. vila ribadomar(6)

yolanda castaño(10)

todas as tags

links
leitores
pesquisar
 
visitas
Free counter and web stats
blogs SAPO
subscrever feeds