Sexta-feira, 30 de Abril de 2010
lume

 

Comecei a fumar para te pedir lume.

Tens lume? Perguntei-te.

Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.

Engatilhaste o zippo. Todo prateado.

Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.

Eras canhoto, como o coração.

Agora. Disseste.

E levei o cigarro até à chama.

Já está. E sorriste.

Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.

Não, claro que não. Claro que não.

Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.

O cigarro sempre aquece.

Sim. Tossi.

Estás bem? Perguntaste.

Estou muito bem.

Óptimo. Disseste. E sorriste.

Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?

Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.

Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a a apetecer-me.

Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.

Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida

Que correram mal, imediatamente mal.

 

Comecei a fumar para te pedir lume.

Para passar o frio.

Descobri que não viria a morrer

Nem de cancro pulmonar, nem de amor,

mas da própria morte, mal o lume se apagou

o café fechou as portas. Para sempre.

 

***

 

ana salomé

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:17
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Quinta-feira, 29 de Abril de 2010
poema político

 

Há um espaço

Que as estátuas celebram

Com rumores

 

Frias conjecturas se deslocam

Dos seus rostos de mármore

Para os campos desertos

 

Impérios desmoronam

Nos seus gestos hábeis

 

Vestem trajes de linho

Que o vento desfaz

E tocam a terra

Húmida

 

Matam por desfaçatez

E constroem sobre o sol

Um trono de mágoa

Cavaleiros do império

Que acabam em estátuas

 

***

 

rui carlos souto

 

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lido em: Cinco Luas e Um Navio

publicado por carlossilva às 10:40
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Quarta-feira, 28 de Abril de 2010
carrossel

 

Não enxergas. Quer dizer, olhas para isto e não vês

nada. Em rigor a manhã só desperta com o gesto

de um miúdo. Estender o braço e fazer pontaria.

Há quanto tempo está ali, a observar-te?

 

À volta de toda a praça, o grande carrossel gira,

o grande ciclo da vida, a morte e o renascimento.

Vozes desconhecidas ecoam por todo o lado, palavras

que se transmitem de uma geração para outra.

 

Pois bem, o balanço do mar largo continua.

Não te deixes enganar pela harmonia da calçada.

Hoje é dia das mentiras, és capaz de ter razão.

 

***

 

vítor nogueira

 

(vila real, 1966)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 10:25
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Terça-feira, 27 de Abril de 2010
encosto a face à parede

 

encosto a face à parede

mais triste do quarto, fiel

guardiã do sol posto.

 

o coração que me deixaste

é uma casa difícil de habitar.

 

***

 

renata correia botelho

 

(s. miguel - açores, 1977)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 01:54
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010
o lugar certo

 

esta manhã na foz, onde eu nasci, o mar da cor do chumbo

rugia contra o molhe, acometia o gilreu exasperado

e era um bulcão de espuma pardacenta a tresmalhar-se nos rochedos.

 

ouviam-se os pios das gaivotas assustadas, os pios,

os pios no seu voo desconjuntado no sibilar do vento, rasgão de asas

sobre a praia, praia triste como as de augusto gomes,

 

as das mulheres sobre a areia lisa de cinza, vestidas de negro

no seu trabalho de luto, na sua esperança sem alento,

mas ali não chegam aos baldões pescadores do mar alto, não,

 

ali, um par despede-se e é para sempre,

os olhos rasos de água e as mãos a desprenderem-se

num mundo pardacento onde morreu o desejo

 

e ninguém já quer nada de ninguém.

e tu, ó meu amor, não podias gostar disto, desta braveza assanhada,

desta pérgola que vem da minha infância,

 

onde agora não passa ninguém, desta orla das horas

sem socorros a náufragos, destas águas enfurecidas

onde só há lugar certo para os afogados.

 

***

 

vasco graça moura

 

(porto, 1942)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 03:08
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Domingo, 25 de Abril de 2010
o lugar do morto

 

ao teu lado, no lugar do morto, enquanto

conduzes a conversa a uma frase sem

preparação. chegámos tarde à praia,

como a quase tudo. o vento levanta o

pó do parque de estacionamento e não

saímos do carro. não sei a resposta certa

e por isso represento mal o meu papel secundário,

limito-me a ficar em silêncio, onde

sempre me senti mais confortável.

um lugar sombrio, discreto, abrigado

e ainda assim, segundo dizem, o mais perigoso.

 

***

 

tiago araújo

 

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 15:56
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Sexta-feira, 23 de Abril de 2010
com um cão em cada dedo

 

com um cão em cada dedo

as minhas mãos continuam à espera

de um poema que me leve daqui

 

era bom caminhar dentro do fumo

acender um cigarro e ser o próprio sopro

erguer-me do outro lado do meu corpo

 

gostava de me transformar numa palavra

não importa a ferida que possa causar

quando acontece um rosto por acaso

 

***

 

alice macedo campos

(penafiel, 1978)

 

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lido em: um cão em cada dia

publicado por carlossilva às 08:48
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a arte da fuga / I

 

Sempre lhe é possível

olhar-te de outra forma.

Vê como se inclina,

como toma a pressa de um café

na bancada quase suja,

como corre para teu olhar

na esperança da ignorância.

Quem és tu?

Houve um momento

em que quase estiveste aqui,

quando o sol fez janelas

no reflexo do teu relógio.

Fala devagar.

Pronuncia cada palavra,

ambíguo

fazendo banalidades

com música de judeu,

fazendo circo, trapézios

no desleixo do teu cabelo.

Ignoras essse que te contempla

no canto do olho, sereno,

enredado no seu novelo,

gato por brincar contigo.

 

***

 

pedro braga falcão

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 00:52
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Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
homenagem a nelly sachs

 

Escorregando pela cauda dos cometas,

a Terra sente-se viúva, queria ser outra,

estrebuchando como peixe em rede de estrelas.

 

Nós queríamos sair de nós, outros,

em queda desde a mais remota antiguidade,

das entranhas, pelos forros dos telhados.

 

***

 

paulo teixeira

 

(maputo - moçambique, 1962)

 

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 03:22
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Quarta-feira, 21 de Abril de 2010
inês

É o nome que me ocorre,

sempre que regresso

e vejo de novo crescerem

as ondas do mar, em Gaia.

 

Há barcos que gostamos de perder,

que partem devagar para outras mortes

e nos deixam juntos, sem palavras.

 

***

 

manuel de freitas

 

(vale de santarém, 1972)

 

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lido em: resumo - a poesia em 2009

publicado por carlossilva às 12:01
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