Domingo, 28 de Fevereiro de 2010
cando falla a filosofia

 

Cando falla a filosofía

Busco os anacos torados,

Os cristais de cores

Nas cavernas soñados

E gardados para amalos,

E na gruta do esquecido

Cavilo sobre a molécula

Que ensancha e varía en algo

Sen nome.


Cando falla a filosofía

E penso tanto no senso

Da finalidade do universo

Das pingas de ciencia

Que crean a esperanza

E que esvaece en nada

Volta a envolverme

E a darme o todo

Ou algo, sen nome


Cando falla a filosofía

Decátome que o que falla

É a perspectiva.

 

***

Rosa Martínez Vilas - 1974

Armenteira - Galiza

 

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lido em: a porta verde do sétimo andar

publicado por carlossilva às 12:19
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Sábado, 27 de Fevereiro de 2010
chove, é un dia marrón

 

Chove, é un día marrón

percíbese unha estraña melancolía

                                                          no ar

A mañá semella unha sinfonía ínacabada

                                           balada de outono

interpretada na quietude dul solpor

                                                       aparente

Pingas frías baten nas fiestras e xacen nos vidros

nunha perfecta interpretación dramática

O silencio acada temidas sombras

                                                          tépedas

e trespasa extensións grises coma nave illada

                                                        no inmenso océano

Os ocos das feridas atravesan longas avenidas

dunha cidade que se move ás présas

Os ollos formulan preguntas escuras

as repostas son estatuas mudas

nas prazas dunha evidente noite pecha

Pombas   inmersas no seu holocausto

son asainadas por un decreto, seica

                                                                       necesario

 

Chove, é un día marrón

 

Se soubese, faría cos elementos precisos

un blues, adecuado aos gatos que moran

                           nas inmediacións do inferno

 

***

Cruz Martínez Vilas - 1960

Armenteira - Galiza

 

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lido em: a porta verde do sétimo andar

publicado por carlossilva às 12:00
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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2010
o imprevisivel é remisturável


{o imprevisível é remisturável.
as horas contradizem os minutos.
chorar muito sobre um rio seco,
esperar o espírito dos peixes.
acordar poeticamente um dia
porque a memória se esqueceu
que o esquecimento seria lançado
numa poesia completa e definitiva.
e escrever mais um poema que
esconde tristezas junto de falhas.
e actualiza desactualizando.
inventada escrevo de novo.
escrever é esculpir sem pedra.
e depois procurar uma pedra,
pesar a pedra, e depois o poema.
e ainda pesá-los juntos e verificar
se o peso bate, contradiz ou a pedra voa.
pesar com os olhos e a leitura.
porque o imprevisível é saturável.
remisturável. talvez acorde um dia
adormecida em muito amor,
talvez não seja realmente eu
mas um prazer minúsculo que me derroga,
talvez me resgatem apenas de uma lágrima.

 

***

Sylvia Beirute - 1984

Faro

 

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lido em: http://poetasportuguesesdoseculo21.blogspot.com/search/label

publicado por carlossilva às 11:51
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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010
the gost and mrs muir

 

O mundo talvez esteja fora do mundo, aí nos encontramos.

Dispomos os pertences, esperamos tranquilidade,

a nossa viuvez que se esconde no seu negrume.

A casa está no entanto assombrada,

como se isso importasse. O fantasma sou apenas

eu quem o vejo e ouço, menos medo que altercações,

como o soalho que estala nas noites ou as vagas assustadiças.

Com o tempo o intruso, que é também o dono antigo,

é apenas mais como nós, mais um fantasma apaixonado.

Um fantasma com piedade, que não nos expulsa

mas que vai ditando, com todas as letras, a sua narrativa,

feita nossa, e que talvez, como um espectro, nos salve.

 

***

Pedro Mexia - 1972

Lisboa

 

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publicado por carlossilva às 13:51
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Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2010
ivan illitch

 

Não perguntei ao agonizante que paisagem

via para além dos pés da cama

que era aquilo dos rostos inquietos

se de verdade inquietos

aos pés da cama há tantos dia     ai

há tantos     tantos dias

espreitando     espreitando de olhos molhadinhos

a passa passividade     a quase bem passada

posição deitada mas respirante ainda

 

Não perguntei se do outro lado

por cima ou   bem melhor     atrás

da vazia cabeça   alguma coisa ardia

sem nada anunciar

tudo pronunciando

 

***

Pedro Tamen  - 1934

Lisboa


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publicado por carlossilva às 11:02
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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010
dedicatória

 

Não

te ofereço

a rosa

mas

o nome

da

rosa

 

que

serviria

meu amor

oferecer-te

a rosa

se dura

a rosa

pouco mais

que o tempo

em que te

digo         rosa?

 

Não te

ofereço

a rosa

mas

o nome

meu amor

do amor

da rosa

eco

do que te digo

repetido

e mais rosa

te ofereço

se é

rosa

o que redigo

 

(rosa por cem vezes repetido)

 

do que

te dar

a rosa

que

não

dizendo

então

de amor

desdigo

 

***

Rita Taborda Duarte - 1973

Lisboa


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publicado por carlossilva às 12:11
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Domingo, 21 de Fevereiro de 2010
os amantes de pompeia

 

Eles conheceram-se neste abraço

em que levam tanto tempo,

embalados na cadência

 

de uma canção desconhecida

e no mover das mãos que hesitam

entre o animal e a planta.

 

O tempo privou-os de vida

mas não um do outro, tangíveis

nos membros onde o desejo

 

lateja ainda,

gestos como medusas esvaindo-se

no sangue em que se fundiram para sempre.

 

Geraram esta outra placenta

com a urgência de quem sabe

que bebe em cada trago despedida:

 

lenta colheita da alma

que palidamente assoma

em cada poro,

 

subtil, alada como pluma

que sem ser vista

se solta.

 

Neste abraço os reteve até à sufocação,

Depois que se abateram o céu e o horizonte,

o mundo foi-lhes langor

 

e memória acesa;

petrificados, mortos,

estão diante do nosso olhar,

 

na posição aflita em que os une,

mais que o esterno e a pelve,

o duplo receio da imortalidade.

 

***

Paulo Teixeira - 1962

Maputo - Moçambique
 

*****************************

 



publicado por carlossilva às 15:01
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Sábado, 20 de Fevereiro de 2010
a terra do nunca

 

Se eu fosse para a terra do nunca,

teria tudo o que quisesse numa cama de nada:

 

os sonhos que ninguém teve quando

o sol se punha de manhã;

 

a rapariga que cantava num canteiro

de flores vivas;

 

a água que sabia a vinho na boca

de todos os bêbedos.

 

Iria de bicicleta sem ter de pedalar,

numa estrada de nuvens.

 

E quando chegasse ao céu, pisarial

as estrelas caídas num chão de nebulosas.

 

A terra do nunca é onde nunca

chegaria se eu fosse para a terra do nunca.

 

E é por isso que a apanho do chão,

e a meto em sacos de terra do nunca..

 

Um dia, quando alguém me pedir a terra do nunca,

despejarei todos os sacos à sua porta.

 

E a rapariga que cantava sairá da terra

com um canteiro de flores vivas.

 

E os bêbedos encherão os copos

com água que sabia a vinho.

 

Na terra do nunca, com o sol a pôr-se

quando nasce o dia.

 

***

Nuno Júdice - 1949

Mexilhoeira Grande - Portimão

 

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publicado por carlossilva às 14:56
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Sexta-feira, 19 de Fevereiro de 2010
a alma é como a lavra

 

A alma é como a lavra.

Quando as nossas mãos voltam a desfilar

o milho amarelo de ouro?

Que outras mãos que as nossas semeiam

o medo e o silêncio da morte?

Porquê este frio? Porquê tão longa a noite?

Como se faz o mundo? Quando começa o mundo?

 

***

Maria Alexandre Dáskalos - 1957

Huambo - Angola

 

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publicado por carlossilva às 12:37
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Quinta-feira, 18 de Fevereiro de 2010
sentam-se sob as acácias no asfalto roto

 

Sentam-se sob as acácias no asfalto roto

os mutilados com cigarros de embalar.

Nenhum som os recorta

e todos os sentidos foram amputados.

Nem para a tarde crescem frustrados.

Esperam. Que inconclusa forma

os limita em fórmula de serração?

Que ameaça os delira? Nenhuma flor

explode, poeta, no coração?

Os mutilados sonharão? Suas pernas?

O desejo, fruto podre adubando. Outra mão?

Que triste palavra os baba

no cigarra morto! Vendem.

Nenhum incesto os estanca.

À revelia do sol, os mutilados

montam banca.

 

***

Luís Carlos Patraquim - 1953

Maputo Moçambique

 

************************************

 

 

 



publicado por carlossilva às 02:37
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